• 19 de maio de 2022 18:21

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PERSONAGEM

Brasília além do JK

Por: Chico Sant’Anna

O engenheiro que veio para Brasília e aguardou junto com outros profissionais a construir a história da Capital Federal

A história de Brasília é tradicionalmente contada por meio de personagens oficiais. Juscelino Kubitschek, Israel Pinheiro, Lucio Costa, Oscar Niemeyer e entre outros. São praticamente ocultos e anônimos aqueles que, antes mesmo de 1960, abraçaram o sonho da Nova Capital e numa verdadeira saga de desbravadores deixaram grandes centros do país e se mudaram para a capital federal a partir de 1956 para começar a tocar a obra. Dentre esses, estão engenheiros civis, elétricos, arquitetos, apontadores e tantas outras profissões. Segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Distrito Federal, esses profissionais não passavam de uma centena. Por aqui fizeram milagres para que a partir de 21 de abril de 1960 servidores públicos transferidos do Rio de Janeiro tivessem suas casas, seus lares, prontos para morar.

A memória da cidade, contudo, é ingrata a esses desbravadores. Até bem recentemente o único espaço que os reverenciava era a Ala dos Pioneiros do Cemitério Campo da Esperança. Às margens do Lago Paranoá, onde outrora estiveram instalados vários acampamentos de construtores, uma imensa área de lazer foi batizada de Parque dos Pioneiros – Engenheiro Cláudio Sant’Anna. A medida adotada pelo governo do Distrito Federal acatou a sugestão dos familiares, referendada pelo Clube dos Pioneiros de Brasília e pelo Sinduscon-DF. No local, pela proposta, ainda deve ser erguido um monumento que reverencie e preserve para as futuras gerações a importância desses jovens pioneiros que apostaram numa utopia chamada Brasília.

Quem é Cláudio Sant’Anna

Mas dentre essa centena de engenheiros pioneiríssimos, por que a personificação em Cláudio Oscar de Carvalho Sant’Anna?

É importante ressaltar, em primeiro lugar, que dentre os muitos construtores ele, acompanhado de mais dois irmãos, Hélio e Mario, foi um dos primeiros a chegar ao Planalto Central, no segundo semestre de 1957. A empresa que dirigiam, Kosmos Engenharia S/A, recebeu a missão de construir uma superquadra inteira: a SQS 106. Apenas os dois eixos tinham sido cortados pelos tratos. O restante era cerrado recortado por rilhas e caminhos. Ao chegar, um cerrado inteiro pela frente e apenas pela placa IAPC, referente ao Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários, responsável pelo financiamento da empreitada.

Com 32 anos, recém-completados, casado, pai de quatro filhos, sendo um recém-nascido (eu), Cláudio Sant’Anna assumiu um desafio que era muito maior do que fazer uma obra. Era preciso erguer no meio do nada um acampamento totalmente autossuficiente, uma verdadeira mini cidade. Naquela época, água e Luz eram providas por bombas e geradores sob-responsabilidade das construtoras. Não havia ainda o Departamento de Força e Luz da Novacap que posteriormente deu nome a um dos times de futebol candangos. Para mover as serras, betoneiras, vibradores, monta-cargas tudo dependia da energia provida pela própria construtora.

O mesmo acontecia com as moradias, alimentação, primeiros socorros, lazer…, para operários e técnicos. Não havia supermercado nem de material de construção na esquina. Imensas cantinas funcionavam dentro dos canteiros de obras. As pedras e areias eram obtidas por meio de dragas e britadeiras também viabilizadas pelos construtores. O cimento, lembrou Cláudio uma vez, era alvo de uma verdadeira guerra. Construtores de diversas obras apostavam corrida até a Anápolis, aonde o cimento chegava de trem, e quem lá primeiro chegasse era abastecido.

Era necessário cuidar também do bem estar dos operários. Filmes eram projetados ao lado de prédios em obras e foi assim que no natal de 1958, a arte e a cultura pacificaram uma situação de tensão dentre os operários, tensionados pelas condições precárias de vida e de trabalho no Planalto. Cláudio e sua esposa Norma, organizaram uma das primeiras apresentações de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, no Planalto Central. O show foi visto como decisivo para acalmar os nervos de um exército de operários.

Tudo isso tinha o propósito de fazer com que o sonho se realizasse e que Brasília estivesse em condições de inauguração em 1960. E foi um ano antes, em 1959, que o primeiro bloco residencial de Brasília ficou pronto. Foi o Bloco 9 – como era denominado, hoje o bloco D do IAPC, ou melhor, da Superquadra Sul 106. Um feito de Cláudio, Mário e Hélio. Até hoje, uma placa de bronze registra esse feito, devidamente inaugurado por JK.

Brasília era para muitas construtoras uma oportunidade de escapar da crise econômica que afetava o Brasil na época, Lembrem-se que Juscelino foi pressionado a assinar um acordo com o Fundo Monetário Internacional. Por isso, para muitas das empreiteiras tocar uma obra em Brasília era apenas mais uma obra. Muitas vieram e se foram. E esta é outra característica que diferencia o Engenheiro Cláudio Sant’Anna dos que só queriam faturar com Brasília.

O pioneirismo de Cláudio Oscar de Carvalho Sant’Anna foi além da sua tarefa de construtor. Atuou fortemente na consolidação da cidade e de suas instituições Fundou, ao lado de Jofre Parada, o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do DF. Era titular do registro CREA número 004. Fundou e foi o primeiro presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do DF – Sinduscon-DF, exercendo essa função de 3 de dezembro de 1963 a 12 de janeiro de 1968. Foi também lojista, proprietário de uma das primeiras lojas de departamentos da Capital Federal, Solomaq, com matriz na Quadra 504 Sul e filial em Taguatinga, ao lado do lendário Bar Estrela. Presidiu a Novacap – quando os primeiros trabalhadores com deficiências visuais foram contratados para atuar nos viveiros -, e também a Terracap. Foi ainda superintendente regional do Sesi-DF e do Sesc-DF e presidiu o Lions Clube 13.

Obras

Sob o comando do engenheiro Cláudio Oscar de Carvalho Sant’Anna, além dos 11 blocos da SQS 106 Sul, a Kosmos Engenharia foi responsável pela edificação do Edifício Seguradoras, no Setor Bancário Sul, da sede na CLS 306 do primeiro banco a se instalar em Brasília, o Banco da Lavoura de Minas Gerais, de seis blocos com 50 casas na antiga quadra 42, hoje HIGS 713, do Jardim da Infância da SQS 308 Sul, das instalações originais do Colégio Marista de Brasília (Maristinha), da Catedral Anglicana, na CLS 310, do Palanque do Exército, no Setor Militar Urbano, também conhecido como concha acústica do Exército; da Reitoria e do Centro Olímpico da Universidade de Brasília, da sede da Embaixada da Bélgica, de blocos residenciais nas quadras 406 e 407 Norte, destinados a policiais e bombeiros do DF; do Hospital Regional de Sobradinho, de blocos residenciais destinados à Câmara dos Deputados, ao Exército Brasileiro, na Asa Norte, e ao SESC, na Asa Sul, além de diversas residências individuais no Lago Sul.

Na década de 70, a Kosmos Engenharia, foi a responsável pela construção das bases de antenas de micro-ondas da Embratel entre Brasília e Manaus, que permitiu o Brasil se interligar de Norte a Sul. No final de sua carreira se dedicava ao paisagismo. Um homem que não parava e sempre enfrentou desafios.

História não contada

 

Como Cláudio, muitos outros heróis anônimos tornaram Brasília possível. Parte dessa história está no arquivo público do DF. Mas não pode ficar lá apenas pegando poeira. As novas gerações, que hoje habitam uma metrópole de três milhões de habitantes precisa conhecer a história dela e daqueles que a tornaram concreta.

 

One thought on “Brasília além do JK”
  1. Justas homenagens àqueles que cedo foram trabalhar nas obras de Brasília. A Kosmos Engenharia foi uma das Construturas que ajudaram, e muito, na construção de prédios de toda ordem.Vejo, agora, que Cláudio Oscar de Carvalho Sant’Anna foi um desses abnegados pioneiros. Como outros, passou a fazer parte da fantástica História Da Construção da Capital Brasília.
    Pena que depois de Juscelino Kubitschek ninguém mais cuidou da sua preservação.São alguns moradores da cidade que ainda lutam por ela.E Chico Santana está entre eles…
    Solidarizo-me a esta lembrança!
    S.Porto – ex- arquiteto colaborador de Lucio Costa e integrante do pequeno grupo da Divisão de Urbanismo, da NOVACAP, desde 1957.

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