• 1 de julho de 2022 22:21

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Bitcoin, o maior perigo á não conhecer!

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Bitcoin, o maior perigo á não conhecer!

Por Fausto Freire

Recentemente, uma quadrilha brasileira que atuava principalmente em Brasília, Goiânia e outras cidades do país foi desarticulada pela Polícia Civil. O grupo atuava sob a fachada de uma empresa chamada Kriptacoin Argent Global Network

Um golpe anterior fizera uso de um nome fantasia muito parecido:  Argent Global Network… Para minha surpresa, o site da empresa que, comprovadamente é uma fraude, ainda pode ser acessado pela Internet com promessa de lucros inacreditáveis.

Mas o tal Kriptacoin pretendia um passo mais ousado na direção de depenar os incautos. O sucesso financeiro das moedas virtuais foi o tobogã, bem lubrificado, que os larápios usaram para atrair suas vítimas.

Embora o IBGE não tenha publicado nenhuma pesquisa a respeito, parece que um número elevado de brasileiros têm uma inclinação mórbida pelo lucro fácil, a vantagem desonesta e o enriquecimento sem esforço. Esse é o público-alvo dos golpistas, que sempre aparecem com inovações como bois gordos, avestruzes, kriptacoins e muitas outras criatividades, sempre bem sucedidas.

Na estera do sucesso do Bitcoin, a organização criminosa montou um esquema que sugeria possuir um ativo financeiro, baseado na tecnologia das criptomoedas, com projeções de lucros elevados e crescimento seguro. Porém, na realidade, a Kriptacoin não tinha nenhuma relação com moedas digitais. O nome era apenas um artifício de marketing para enganar o público.

Aliás, marketing foi o foco principal da organização. Anúncios na TV, rádios, Outdoors e jornais divulgavam publicidade maciça sobre as vantagens de investir na falsa moeda digital. A empresa anunciava por todos os meios e pagava propagandas na Internet. Nas redes sociais, eram comuns fotos com cantores famosos.

É bastante simples saber se alguma coisa que pretende se passar por moeda digital é ou não é uma moeda existente. Basta entrar no site “Coin market cap’, colocar o nome da suposta moeda no campo de buscas e clicar no ícone. Se a moeda for verdadeira, ela será localizada entre as mais de 1500 existentes, se não, é uma fraude.

As investigações policiais sobre a tal Kriptacoin mostraram que a quadrilha movimentou cerca de R$ 250 milhões, com investimentos de 40 mil vítimas. Além da Kriptacoin, a empresa Wall Street Corporate, responsável pelo golpe, também é alvo da investigação, pois aparentemente faz parte da mesma organização criminosa. Fatos isolados, como este, tem servido de argumento para o detratores do Bitcoin, embora tenha ficado claro que o golpe não tinha nenhuma relação com as moedas virtuais, apenas usava um nome parecido para envolver suas vítimas.

A operação policial foi batizada de “Patrik” teve por alvo o golpe piramidal travestido de cryptocurrency. Na verdade os golpista não ofereciam a moeda Kriptocoin, mesmo porque ela nunca existiu. Mas o golpe da Kriptacoin jogou gasolina na fogueira da inquisição brasileira anti moedas digitais. Como muito pouca gente possui conhecimentos econômicos sobre teoria do valor, moeda, circulação, cambio etc. e muito menos tem noção do significado de termos de teoria da computação, como criptografia, algoritmos, redes ponto a ponto as criptomoedas são uma grande incognita.

A maioria das pessoas estará a pensar: “não sei nada sobre esse assunto e nem quero saber, afinal, isso nunca irá me atingir…”

Sobre esta opinião gostaria de fazer algumas observações. Realmente, a imensa maioria das pessoas só será alcançada pela moedas digitais por suas consequências negativas. Ou seja, elas serão apenas vítimas inocentes de um fenômeno mundial que aumentará o distanciamento entre o mundo digital e as pessoas comuns.

Esta ruptura é menos inocente do que parece. Ela pode ser a diferença entre manter-se no mercado de trabalho e de consumo, ou ser marginalizado, engrossando a periferia pobre e excluída da Terra. Então, talvez seja útil entender um pouco mais sobre a questão. Você não acredita? Talvez você também não acreditasse, nos anos 90, que em 2000 todas as cidades do mundo estariam mapeadas, com suas ruas, praças, comércios pelo Waze. Ou que em 2010 você poderia comunica-se com qualquer pessoa, em qualquer mundo do mundo pelo WhatsApp, ou ainda que em 2020 os carros sem motoristas começariam a dominar as ruas dos países mais desenvolvidos.

As moedas digitais escapam às analises padrão do comportamento da moeda na economia tradicional. Economistas formados nos moldes acadêmicos atuais não receberam, nem poderiam, os instrumentos adequados para analisar tal substância. Mesmo assim, eles se apreçam em dar respostas para um fenômeno que não tem correspondência no universo conhecido.

Antes de formular respostas definitivas, alguns economistas deveriam estar tentando descobrir as perguntas. As moedas digitais respondem a uma série de variáveis, muitas dela com comportamento aleatório. São variáveis independentes, em uma equação na qual não dispomos de todas as variáveis dependentes.

O professor Robert Shiller, da conceituada Universidade de Yale, na Califórnia, laureado com o Prêmio Nobel de Economia e reconhecido por sua pesquisa em economia comportamental afirmou, recentemente, em uma entrevista exclusiva para a revista brasileira Veja que o “Bitcoin é uma bolha clássica”.

Em termos conceituais sérios, Shiller deveria explicar primeiro quais elementos de uma ‘bolha clássica’ estão presentes na aparição e no crescimento do Bitcoin. Mas ele afastou-se desta análise objetiva e substantiva, remetendo-se apenas a aspectos subjetivos e adjetivos do fenômeno.

Muito pouco sério em se tratando de um professor que ganhou notoriedade desde 2013. Porém, vamos dar um desconto por tratar-se de uma entrevista para um veículo de grande circulação, cujos leitores não estariam familiarizados com uma análise econômica mais profunda.

Por ser um economista que supostamente possui formação robusta, Shiller já inicia a entrevista desqualificando o argumento de muitos tolos em relação ao lastro da moeda:

O fato de não haver um lastro para esta moeda [o Bitcoin] não é o problema, já que muitas coisas têm valor simplesmente porque as pessoas pensam que elas têm valor. É assim com a cédula de dinheiro em nosso bolso – ela só vale algo porque tem quem a aceite”.

Embora a simplificação seja grosseira, ele tem razão sobre o valor atribuído à moeda. É o chamado valor fiduciário, cujo conceito tem relação com a crença, ou a fé, que as pessoas depositam no dinheiro. De fato, nenhuma moeda moderna representa um valor intrínseco, ou seja, um valor em si mesmo. Nenhuma moeda moderna possui lastro.

Diferentemente das ações e títulos bursáteis, as moedas criptográficas não reagem pelos mesmos estímulos. As ações, quando são disputadas no mercado, têm seu valor aumentado, elas se valorizam. Enquanto que, quando mais pessoas entram na rede comprando moeda digital, ou “minerando” para obter valor, menor será seu preço de mercado, ao contrário do que acontece com as ações.

A explicação é relativamente simples: como ações são finitas, quanto maior seu interesse, maior valor. É a lei da oferta e da procura. Já as cripto moedas não são finitas. Embora não se possa dizer que sejam infinitas, pelo menos sua variável quantitativa é desconhecida. Logo, mais compradores significa ampliar sua oferta e dividi-la, reduzindo seu preço unitário. Este mecanismo nos levaria a que, em um prazo relativamente curto, a moeda digital encontraria seu ponto de equilíbrio. Tendo em vista o crescimento deste ativo nos últimos nove anos, poderíamos supor que nos próximos nove anos ele esteja próximo da metade da massa total de dinheiro disponível. Esta mudança de paradigma vai determinar seu ponto de equilíbrio.

Voltando ao nosso professor Shiller, em sua entrevista para a revista Veja, veremos que sua análise se baseia mais em aspectos psicossociais do que em uma análise formal das características do dinheiro digital e, nem de longe confirma sua afirmação sobre bolha, referidos na entrevista.

Entre as afirmações de pouca fundamentação teórica formuladas por nosso professor da Yale, está esta pérola:

Bolhas despertam dúvidas e o instinto do jogo, do risco. Esse instinto atenua o tédio da vida. Por isso, bolhas prosperam muito entre pessoas com tendências depressivas”.

Nosso professor envereda pela psicologia noturna das mesas de chopp e do existencialismo francês dos bistrôs enfumaçados, mas explica pouco sobre a existência e a propagação das bolhas. No entanto, com total desassombro, nosso Quixote defensor das instituições bancárias e dos bancos centrais, contra as ameaças dos seres descomunais do mundo virtual, montado no saber de seu Rocinante, empunha sua lança nesta cruzada, tanto esquálida quanto incerta, contra o Bitcoin.

E nosso intrépido professor vai além. “O problema é que o experimento das criptomoedas pode se tornar uma ‘pegadinha’, uma vez que sugere que qualquer um pode lançar uma moeda – e ela pode sair do controle, criando uma situação de contágio e formando uma bolha. Com o Bitcoin ainda não é assim, mas pode vir a ser”.

Então, o Bitcoin é ou não é uma bolha? aqui encontramos a primeira contradição. Segundo ele, “ainda não é assim, mas pode vir a ser.” Ou seja, a afirmação inicial, que dá título à entrevista das páginas amarelas de Veja, não era verdadeira. Bastante ambíguo nosso Nobel de Economia.

Saindo do mundo da economia ou da tecnologia e voltando ao pântano do psicologismo social, Shiller dispara: “o experimento das criptomoedas é muito atraente nesse sentido, porque insere pessoas que estavam à margem da discussão de tecnologia em um mundo novo. Elas sentem que estão também fazendo parte dessa onda, que estão ganhando algo com isso, não só perdendo. É uma chance de elas ascenderem ao topo da pirâmide, ao 1%.”

Shiller é taxativo: “Bitcoin não é Ponzi (o termo não foi traduzido, mas significa pirâmide, corrente), mas pode ficar com a reputação ruim se começar a ser usado com objetivos ilegais.” Esta afirmação é pelo menos, o que os filósofos chamam de Contradictio in adjecto, um contrassenso. Será que o dólar poderia ter sua reputação manchada pelo fato de traficantes negociarem drogas usando a moeda, ou corruptos lavarem recurso em dólar?

Supõe-se que exista muito dinheiro ilegal camuflado nas contas das moedas digitais, mas isso é apenas uma suposição e, por si só, não as desqualifica. A Internet não pode ser condenada pelo fato de pedófilos usarem sua rede para divulgar pornografia infantil. Ninguém irá abandonar a Internet se ela “ficar com a reputação ruim se começar a ser usada com objetivos ilegais.”

Mas, pelo menos, Shiller desfaz a pecha de pirâmide (Ponzi) que alguns analistas, de voo baixo, pretendem colar no Bitcoin. Entre estes analistas pigmeus estão alguns dos dirigentes dos bancos centrais latino americanos.

Seguindo na entrevista, Shiller volta a tropeçar em sua afirmação de que o “Bitcoin é uma bolha clássica”.  Ele diz:

Muita gente investe, mas o cenário ainda parece distante daquele de 2008, já que o alcance do negócio é muito menor, limitado àqueles não tão afeitos a grandes instituições. Tenho a impressão de que, por enquanto, a maioria das pessoas está tateando, colocando pouco dinheiro para ver como é. Não vejo movimentações maciças, como ocorreu com a bolha das hipotecas. Em valor o Bitcoin tem ficado estável. Foi criado em 2008 e atingiu seu primeiro pico em 2013. Ficou estável até começo de 2017, quando começou a oscilar. Ou seja, sua variação pode se comparada à de uma commodity”.

Recentemente, acabei de redigir um livro sobre Bitcoin. “Bitcoin, cara e coroa”. O texto aborda o tema desde suas origens, nos anos 80. Em breve o livro estará disponível na Amazon. Afinal um livro sobre um tema virtual precisa ter sua versão digital, antes que nada. Países de grande tradição econômica e comercial como Suíça, Israel, Japão, China entre outros, já estão criando suas próprias moedas digitais ou desenvolvendo estratégias a respeito. Nosso Banco Central se opõe… ele continua a repetir as mesmas tolices sobre bolha e pirâmide que já foram desmentidas. O BIS, Banco Central dos Bancos Centrais, exortou os demais bancos a promover estudos sérios sobre as moedas digitais, já que, segundo ele, esse é o grande desafio do futuro. Mas nossos burocratas tupiniquins ainda não entenderam a mensagem.

Este é um caminho sem volta. Como todas as demais tecnologias disruptivas, baseadas na decentralização, na informação em nuvem, no desenvolvimento colaborativo, as moedas digitais vieram para ocupar o seu devido lugar. Assim como as moedas metálicas, que ainda hoje sobrevivem, embora com posição auxiliar, o dinheiro físico e até o dinheiro de plástico serão substituídos por novas formas de circulação e pagamento. E ainda existirá gente que guardará dinheiro no colchão. Mas é melhor estar informado, pois o maior perigo do Bitcoin é não conhecê-lo.

 

 

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