• 4 de julho de 2022 06:02

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Valeria Souza
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A cultura da cachaça no Brasil

A bebida tem sido cada vez mais vislumbrada pelos estrangeiros do que pelos próprios brasileiros

Lorena Braga

É muito comum para os turistas da região Sul do país colocar em seus roteiros de viagens visitas a vinícolas e alambiques. Porém, essa trajetória se restringe apenas a essa parte do Brasil, sendo que a produção de cachaça passa por grande parte do nordeste, do sudeste, como é o caso de Minas Gerais, e do Centro-oeste, como o Goiás.

A origem do nome “Cachaça” é desconhecida, mas pode-se encontrar algumas definições. Uma delas é que a palavra vem do castelhano Cachaza que significa vinho de borra. Outro possível significado é que o nome seja de origem africana. Mas segundo Silveira Bueno em seu Dicionário Escolar da Língua Portuguesa ele afirma que: “Cachaça era sinônimo de porco (cachaço) e de porca (cachaça). Como a carne fosse dura, molhavam-na com aguardente para amaciá-la. Passando assim, o nome de porca (cachaça) a significar aquela aguardente que hoje todos conhecemos com o nome de cachaça”.

Ao longo dessa matéria você poderá conhecer mais sobre essa iguaria e suas diversidades.

História

A aguardente é uma bebida de alto teor alcoólico, obtida por destilação de cereais, frutas, raízes, sementes, tubérculos, castanhas, vinhos, plantas, melaços e gramíneas. A cachaça, uma aguardente obtida por fermentação e destilação das limpaduras do suco da cana ou das bordas do melaço.

Os primeiros a saborear algo parecido com o que atualmente conhecemos como cachaça foram os Egípcios. Bem, eles não “saboreavam” exatamente, o que eles faziam era curar um eventual mal estar, inalando vapor de líquidos aromatizados e fermentados, absorvido diretamente do bico de uma chaleira, num ambiente fechado.

Já os Gregos, no Tratado de Ciência escrito por Plínio, que viveu entre os anos 23 e 79 d.C., registram o processo de obtenção da acqua ardens – a “água que pega fogo” – absorvendo, com um pedaço de lã, o vapor da resina de cedro, do bico de uma chaleira. Ao torcerem a lã, obtinham o líquido chamado alkuhu.

Os Portugueses absorveram a tecnologia de destilação criada pelos árabes e iniciaram a destilação do bagaço da uva, produzindo a bagaceira, que bem pode ter sido o embrião para o surgimento da nossa cachaça. Eles trouxeram para o Brasil a cana-de-açúcar do sul da Ásia.

Porém a cachaça como conhecemos atualmente é genuinamente nacional. Sua história remonta ao tempo da escravidão quando os escravos trabalhavam na produção do açúcar da cana de açúcar. O método já era conhecido e consistia em se moer a cana, ferver o caldo obtido e, em seguida deixá-lo esfriar em fôrmas, obtendo a rapadura, com a qual adoçavam as bebidas.

Com o tempo esta bebida foi se aperfeiçoando, passando a ser filtrada e depois destilada, sendo muito apreciada em épocas de frio. O processo de fermentação com fubá de milho remonta aos primórdios do nascimento da cachaça e permanece até hoje com a maior parte dos produtores artesanais.

A fabricação

O processo de produção da cachaça artesanal é custoso e cheio de detalhes – uma verdadeira obra de arte. Fazer cachaça é, ao mesmo tempo, ciência, arte, paixão e sabedoria. Tudo é feito com muita calma, cuidado, esmero. Por isto, “artesanal”.

Senhor Galeno

Apesar de feita exclusivamente do caldo de cana, sem a adição de produtos químicos, cada cachaça carrega características de seu produtor, o alambiqueiro.

Um produtor que têm crescido muito no mercado de cachaça aqui na região, é o senhor Galeno Monte, o responsável pela maior produção na região há mais de 30 anos, fazendo o mesmo processo de fabricação da cidade em que morava em um município de Fortaleza-CE. O Alambique Cambéba fica cerca de 80km de Brasília, está localizado na Serra do Ouro, um trecho da BR060 que foi batizado assim pelos bandeirantes. O local ainda é vizinho ao Outlet  e a fábrica da cerveja Heineken.

É um lugar incrível, onde se pode fazer uma visitar guiada pelo próprio senhor Galeno e conhecer como acontece toda a produção artesanal da cachaça Cambéba, além de ser um lugar com uma vista espetacular do cerrado.

 

O Tour

Para quem deseja saber mais sobre essa produção, a visitação guiada é realizada aos finais de semana e feriados, às 12h00s e às 15h00s. Neste tour é possível conhecer todas as instalações de produção e a adega subterrânea, com exceção dos meses de maio, setembro e outubro que é quando ocorre a fabricação.

A Adega

A Adega fica cinco metros abaixo do nível do solo. É o lugar onde ficam os barris para o envelhecimento da cachaça. A cachaça Cambéba tem várias opções ao gosto do cliente na versão pura e envelhecida, de 1, 3, 5, 7 e 10 anos. Depois de conhecer todos os processos vem a parte que o visitante gosta mais, a degustação. Nesse momento é possível experimentar todas as cachaças produzidas e no final ainda tem a brincadeira do Vira, Vira, Vira, Vira, Vira, Vira, Vira, Vira, Vira, Virou! Comandada pelo senhor Galeno.

Em conversa com o proprietário ele explica o porquê decidiu trazer o alambique para o centro-oeste. “No lugar onde eu morava lá no Ceará, houve uma desapropriação para a construção de um porto, sem lugar para ir decidir vi para Brasília, a fim de um projeto audacioso visando o mercado externo. Escolhi o Cerrado pela proximidade com as Embaixadas, com o público estrangeiro e das rodovias que ligam várias capitais. Não fui para Brasília, pois lá não produz uma tradição de cachaça e pensando em mercado isso não seria bom para o nome da cachaça. A tradição no Goiás traz um valor maior”, explica o senhor Galeno.

Ele completa falando sobre o diferencial da Cambéba: “O nosso atrativo é que a bebida é orgânica e do cerrado”. Esse ano o objetivo da produção é chegar ao mercado europeu.

A relação do Brasileiro com a Cachaça

 A maior parte da produção da Cachaça Cambéba é exportada, ou seja, ainda é pouco difundida no Brasil. De acordo com Engenheiro Agrônomo, Thiago Galeno Monte, filho do Sr. Galeno, isso se deve pela desvalorização que o brasileiro produziu sobre a bebida, valorizando mais o que vem de fora. “A cachaça é genuinamente brasileira, como a Tequila tem o México, o whisky dos Estados Unidos. Porque não valorizar a nossa bebida, fazer de forma que ela tenha a mesma qualidade dos os outros produtos, nos ainda temos vergonha de tomar uma cachaça perto de um whisky, isso tem que acabar. Eu acho que hoje através de várias competições internacionais é comprovado que a cachaça pode ser tão boa ou até melhor do que qualquer outro destilado”, afirma Thiago.

Para ele o que tem tornando a bebida artesanal ainda forte no mercado é a união entre os produtores. “Eu gostaria que o governo vestisse a camiseta da cachaça artesanal e pudesse tornar esse um produto em grande crescimento no país, no exterior e que fosse valorizado como algo que faz parte da cultura brasileira, não só em pequenas regiões” desabafa o engenheiro agrônomo.

O restaurante bistrô

Restaurante

Thiago é o responsável pelo Bistrô do alambique que possui apenas dois anos de existência. A ideia de monta-lo veio a partir da necessidade de ter um espaço em que os visitantes pudessem degustar a cachaça não só na forma liquida, mas também em alimentos sofisticados.

Atualmente para almoçar o jantar no restaurante é necessário fazer reserva para não ficar sem lugar. O recomendado é que o visitante faça o pedido e depois vá para o tour. O almoço é servido de terça a sexta-feira de 11h00 às 15h00, nos sábados, domingos e feriados das 11h00 às 17h00. O jantar é somente aos sábados das 18h00 às 23h0.

O cardápio do restaurante é montado e produzido pelo chef de cozinha Junior Lacroix formado na escola francesa Le Cordon Bleu, na França. Ele conta com o apoio da auxiliar de cozinha Tainara da Costa e em alguns finais de semana com a estudante de gastronomia e filha do Sr. Galeno, Márcia Brasil que tem planos de montar uma unidade do Bistrô em Brasília.

Márcia Brasil, Chef Junior e Tainara da Costa

Todos os pratos, da entrada até a sobremesa, são feitos com a cachaça Cambéba. Tem opções de carnes vermelhas, frutos do mar, massas e risotos. E, para acompanhar, excelentes bebidas.

O espaço do Bistrô pode ser utilizado para a realização de eventos como casamentos, festa de 15 anos, aniversário e entre outros. Possui capacidade para 96 pessoas no espaço interno e 64 no espaço externo.

Novidade do Cambéba

Em 2007 o alambique fez uma parceria com a Universidade Federal do Goiás, pois existiam poucas pesquisas cientificas sobre a cachaça. A  partir dessa união várias pesquisas de mestrados e doutorados foram feitas, tendo até mesmo trabalhos apresentados no exterior. A pesquisa se baseou em estudos de fermentação em diferentes tipos de barris nacionais, como a castanheira, bálsamo e amburana.

Pensando nisso será lançada esse ano uma edição comemorativa de livro com um blend de todas essas cachaças chamado Cachaça envelhecida em Madeiras Tropicais. Serão produzidos em torno de 1000 a 1500 unidades.

Nomenclaturas

Desde que a cachaça é cachaça, sempre teve o nome de cachaça. Mas os que bebem, gostam de chamá-la de um jeitinho especial. Tem aqueles que batizam a cachaça com sinônimos: aca, aguardente, birita, cana, caninha, calibrina, cumbé, caiana, caxixi, marato, monjopina, parati, pinga, tafia, tiquirá, uca, etc

A história deste país foi movida a cachaça, não dá para fugir. Antes de ser um produto econômico, uma mercadoria, a cachaça é uma façanha da gente brasileira, uma das mais belas e autênticas expressões da nossa cultura.

 

Confira a Galeria de Fotos do Alambique Cabéba

Fotos de Lorena Braga

Serviço

Alambique e restaurante Cambéba

Endereço: Rodovia BR 060 | Km 21, Serra do Ouro, Alexânia GO-sentido Goiânia / Brasília, à direita, 300m antes do Outlet Premium Brasília.

Telefone: 62 3336-2220

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