• 19 de maio de 2022 18:31

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Basquia[R]t

Laíse Frasão Barros

“Quando Basquiat ia para a vernissage de uma exposição, ele era a estrela da noite. Mas quando saía da galeria, o táxi não parava para ele na rua porque ele era negro”, explica o curador Pieter Tjabbes.

Falar de Jean-Michel Basquiat (1960-1988) em alguns caracteres é um desafio que exige um complexo exercício de síntese dada a imensidão criativa e singularidade do mesmo. Sua produção artística exige um mergulho profundo e interessado, não só pelos diversificados caminhos pictóricos experimentais percorridos, mas também pelos aspectos da própria trajetória pessoal do artista. Afinal, inclino-me a afirmar que a intensidade presente na produção de Basquiat pode ser lida como uma refração direta, mais do que em qualquer outro artista do período pós-vanguardas, de uma volátil e conturbada realidade. Sendo assim, o texto em questão nasce da necessidade de ir além de uma mera descrição biográfica, apresentando um panorama geral dinâmico acerca da vida e obra de Basquiat e traçando conexões com aspectos históricos.

Antes de mais nada, se faz necessário citar que a juventude de Basquiat coincidiu com um momento de efervescência cultural, sobretudo, no campo artístico (música, dança, poesia e arte visual) ocorrido em meio à depressão e, subsequente, recuperação econômica gerada pela crise internacional do petróleo, na década de 1970. No campo musical, por exemplo, temos um período de florescimento do rap e hip-hop e triunfo de jazzistas negros, como Charlie Parker – o seu grande ídolo. Influenciado por esse contexto, Basquiat tocava clarinete e um sintetizador caseiro na banda experimental Gray que se apresentava com frequência Mudd Club. Já no âmbito específico das artes visuais o grafite conquista seu espaço e se afirma enquanto linguagem/movimento e o minimalismo e a arte conceitual foram, gradualmente, cedendo espaço para a expansão, sobretudo no campo da pintura, do movimento neoexpressionista (que preza por uma poética sensível à expressão do artista diante da realidade) e de uma nova objetividade criativa com compromissos sociais e políticos.

Talvez, por isso, Jean-Michel Basquiat seja visto, por muitos, como neoexpressionista ou um ícone do grafite. No entanto, é um equívoco limitar este artista à rígidos enquadramentos na medida em que isto implica em desconsiderar o fato de Basquiat trabalhar com diferentes linguagens (desenhos, gravuras, pinturas, objetos pintados) e com os mais inovadores suportes, indo ao encontro do primeiro tratado teórico de Maliévitch, um dos principais artistas da vanguarda russa, publicado em 1919, que descarta totalmente a ideia de divisão em gêneros no âmbito dos novos paradigmas da pintura moderna. Ademais, o uso do spray e/ou de uma linguagem compositiva linear e ágil, típica do grafite, não o faz um grafiteiro.

Além disso, o fato de Basquiat ser um pintor norte-americano, nascido em Nova York, em 1960, mas possuir descendência afro-caribenha (o pai, um contador natural de Porto Príncipe, capital do Haiti, e a mãe, Mathilde Andrada, também nova-iorquina, é descendente de imigrantes porto-riquenhos) o possibilitou outras referências, como a língua espanhola e, por inferência nossa, um maior contato com a concepção pós-colonial (termo amplamente debatido e difundido no campo da crítica literária e de estudos culturais, na década de 80 nos Estados Unidos e Inglaterra, e posteriormente na América Latina, que visa desconstruir relações históricas de poder).

A sua mãe, em particular, foi uma peça-chave para conectar Basquiat à um vasto conteúdo cultural/ artístico. Eles frequentemente iam em museus, por exemplo. Curiosamente, por volta dos seus 7 anos, no mesmo período em que cria desenhos inspirados em carros, quadrinhos e filmes do Alfred Hitchcock, Basquiat ganha da sua mãe, após ser atropelado e fraturar o braço, o livro Gray’s Anatomy, de 1858, escrito por Henry Gray, que influenciaria seus trabalhos artísticos. Afinal, facilmente identificamos esboços anatômicos em muitas de suas obras. Ademais, suas influências eram amplamente elásticas. Admirador do Leonardo da Vinci, talvez por conta do supracitado livro, ao moderno Cy Twombly (conhecido pela sua relação com a poesia e uso de citações literárias); e do jazz ao bolero, Basquiat possuía a intrigante capacidade de incorporar, com fluidez, sua sofisticada formação cultural, com múltiplas influências populares. Sons e palavras tornam-se pulsantes em suas pinturas. E foi, por isso, que saiu dos improvisados cartões postais e muros de Downtown, Manhattan para as principais galerias do mundo.

Colagem autoral a partir de imagens da exposição “Jean-Michel Basquiat Obras Da Coleção Mugrabi”

Aos 16 anos frequenta a City-As-School, intituição com uma grade escolar alternativa e experimental, em Manhattan, mas dois anos depois abandona a escola e sai definitivamente de casa para morar de maneira transitória entre casas de amigos e noites em caixas de papelão no Central Park. Neste período, da amizade com artista grafiteiro Al Diaz, nasce o codinome Samo (abreviação da Same Old Shit ou Mesma Merda de Sempre) com o qual a dupla assinava inúmeras intervenções em muros de Nova York. Em 1979, o projeto foi oficialmente abandonado. A frase Samo is dead (Samo está morto) foi escrita em paredes de construções do bairro nova-iorquino SoHo. Já aos 20 anos, depois de ser descoberto por mecenas e galerias, Basquiat participa de uma exposição coletiva Times Square Show e é selecionado por Gleen O’Brien para o papel principal no filme Downtown 81. Aos 24 anos ocorre sua primeira mostra individual na Mary Boone Gallery, de Nova York e, no ano seguinte, já era capa do The New York Times Magazine.

Um dos períodos mais experimentativos do artista, em termos de estudos cromáticos e do maior uso de colagens, se dá ao/após trabalhar em parceria com pintor pop Andy Warhol (1928-1987). Juntos eles produziram mais de 100 grandes telas com sobreposições pictóricas e se desafiavam mutuamente a desenvolver novas ideias. Lábios Finos (1984-85), Ovos (1985) e Ataque do Coração (1984) são algumas das obras dessa parceria que podem ser vistas na exposição “Jean-Michel Basquiat Obras Da Coleção Mugrabi” do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília, até 1º de julho. A exposição traz mais de 80 peças do acervo particular da família do Mugrabi, um dos maiores colecionadores tanto de Basquiat quanto de
 Warhol. Quem assina a curadoria é o holandês radicado no Brasil Pieter Tjabbes.

DICAS:

Colagem autoral a partir de imagens do “Basquiá: drinks and foods”

I) De Nova York para Brasília apresentamos o “BASQUIÁ Drinks and Foods”, uma casa de drinques diferenciados e hambúrguer artesanal, prestes a inaugurar, localizada na CLN 408, Bl.E, concebida a partir de uma identificação sincera com a obra de Basquiat e que, por meio de uma atmosfera singular, busca, de maneira honesta e respeitosa, criar uma imersão na trajetória do artista. A inovadora decoração, cujo o destaque é a iluminação cênica, partiu integralmente do reaproveitamento de materiais oriundos de contêineres, ferros velhos e do antigo Senhoritas Café que funcionava no local– da mesma forma que Basquiat adquiria seus suportes. Além de inúmeras referências basquiatianas em cada detalhe, o interior, faz alusão as fases vivenciadas pelo artista (rua e galeria) através do notório limite entre o acabamento das paredes e a estrutura exposta no teto. No exterior, um intrigante e fluido percurso, emoldurado por toldos que são releituras algumas obras de Basquiat e módulos suspensos iluminados, conduz o fruidor para uma atmosfera nova-iorquina.

II) Filme: Basquiat – traços de uma vida (1996) de Julian Schnabel.

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