• 26 de maio de 2022 11:30

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Minha Cadeira
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Doces

Alguns anos atrás eu estava em casa, à noite, no sossego do lar, quando tocou a campainha. Fui abrir e me deparei com quatro crianças fantasiadas que gritaram em coro: Doces ou travessuras!

Oi? Vocês saíram de algum filme americano? Estão escondendo algum ET na bicicleta? Doces ou travessuras – num apartamento de um bloco em Brasília? Era sério?

Eu disse que não tinha doces, e não sei se elas fariam comigo alguma travessura. Minha esposa, porém, que ouvia a conversa da sala, ficou compadecida e deu às crianças uma barra inteira de chocolate.

Fato, aliás, que gerou um pequeno conflito conjugal, dado que no dia seguinte eu não teria meu precioso chocolate depois do almoço, além do que esse negócio de doce ou travessura era uma grande forçação de barra, segundo eu argumentava.

Muitos anos atrás, quando eu era criança, lembro que passei uma tarde inteira percorrendo blocos e quadras ajuntando doces de Cosme e Damião. Eu estava na casa de um primo, e foi ele quem me iniciou nessa aventura, dizendo que era possível juntar mais doces além do saquinho que a gente ganhava na escola.

Pois lá fomos nós, desbravando as 400 – que era onde ele morava. Informação importante, pois nas 400 os blocos não têm porteiro, e podíamos, portanto, interfonar à vontade para todos os apartamentos, perguntando às senhoras da quadra se elas tinham doces para nos dar.

Nesse caso, sem travessuras. Havia uma discussão se podíamos ou não comer tais doces, mas confesso que, como criança, era-me custoso dispensar um saquinho de doces. Eu dispensava, é verdade, a maria-mole e o doce de abóbora, mas de resto comia tudo.

Há muitos e muitos anos, isso na época da minha mãe, havia um filme marcante para a criançada, A Fantástica Fábrica de Chocolate. Uma geração inteira cresceu sonhando em achar um bilhete dourado numa barra de chocolate para conhecer a fábrica do senhor Willy Wonka, imaginando-se em rios de chocolate e deleitando-se com as guloseimas das mais diversas.

Não precisamos mais retroceder. Aqui você já percebeu que a inclinação da meninada por doces é comum em todas as épocas, e que existem alguns dias ou eventos especiais – para desespero dos dentistas – em que se lhes concede o prazer de se esbaldar nas guloseimas.

O que é relativamente recente são as travessuras. Mas parece que já está definitivamente incorporado ao calendário brasileiro o tal do Halloween. Eu por mim dispensaria as bruxas. Sei lá, com tantos monstros no imaginário infantil resolvemos importar do exterior uma festa de… monstros?

E veja a ambiguidade criada, por exemplo, na história de João e Maria. Há na história uma bruxa, e há uma casa feita de doces e guloseimas. Mas a bruxa é má. Com essa história de Halloween, bruxas boas e tal, como explicar para as crianças que a casa era na verdade uma armadilha e não uma pacífica festa de Halloween?

Se flexibilizamos o estereótipo do mal e passamos a brincar de bruxas, qual é o próximo passo dessa geração? Deixar de ver o Coringa como o vilão de Gotham e como o arqui-inimigo do Batman, passando a vê-lo como um anti-herói a ser compreendido?

Tudo bem, fui longe demais. Só espero que hoje à noite a meninada não toque a campainha pedindo doces, porque agora, com filhos, a maior travessura que se pode fazer é tocar a campainha e acordar o bebê.

 

4Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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