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Valeria Souza

Bolsa Atleta: a importância do programa para que os esportistas ganhem um incentivo e conciliem a jornada treino-estudo

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nov 27, 2019
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Bolsa Atleta: a importância do programa para que os esportistas ganhem um incentivo e conciliem a jornada treino-estudo

A iniciativa de algumas instituições de ensino tem mudado a vida de inúmeros atletas no Brasil e aberto um leque de alternativas profissionais dentro do esporte por meio da graduação. É uma forma de incentivar e ajudar os alunos, além de dar uma opção, caso não consigam obter êxito na vida esportiva

 

Por Gabriel Torres

“É difícil definir os jogadores do Brasil, pois eles já nascem com a bola nos pés. Por outro lado, quando eu era criança, precisava estudar das 7h às 17h. Pedia ao meu pai para jogar bola, e ele dizia que antes vinham os estudos. Já eles (brasileiros) jogam futebol das 8h às 18h” essa declaração é de Thierry Henry e foi feita dias antes da partida entre França x Brasil pelas quartas de final da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Será que o craque francês foi um pereba na sua afirmação? Bom, vamos recorrer aos dados.

Em junho de 2016, o site globoesporte.com fez um levantamento com os atletas dos 20 clubes que disputavam a Série A para verificar quantos deles estavam cursando, chegaram a cursar ou concluíram o ensino superior. O número é assustador, pois dos 600 atletas que disputaram a principal competição nacional da modalidade, e apenas 15 chegaram ao nível superior – pouco mais de 2% do montante total. Sendo que seis terminaram o curso, quatro estavam cursando e cinco trancaram o curso.

É, Henry realmente tem razão sobre a priorização do esporte em detrimento dos estudos. Isso é devido ao futebol ser uma luz no fim do túnel para milhares de garotos brasileiros, caso eles se tornem craques ou joguem num clube de primeira ou segunda divisão poderão realizar sonhos, como os de comprar uma casa para a mãe ou dar uma vida melhor para a família. Com tamanha desigualdade social, o esporte acaba se tornando uma das poucas oportunidades para alcançar a ascensão social e uma independência financeira.

Para chegar no topo e realizar o sonho de jogar pelo time do coração e pela Seleção Brasileira, é necessário muito esforço e um cronograma de treinos pesados, alimentação regrada e outros pré requisitos para cuidar do corpo. Tudo isto tem um custo, para cobri-lo a maioria dos atletas adicionam uma jornada de trabalho na rotina, o que faz com que os estudos fiquem de lado. Chega um momento da carreira em que é preciso escolher entre o estudo e o esporte… e nessa hora, muitas vezes, a educação é deixada de lado.

Mais dados…

No futebol brasileiro, existem cerca de 25 mil jogadores profissionais. Destes, mais de 80% ganham menos de R$ 1 mil por mês, segundo informações da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Essa realidade se estende a muitas outras modalidades e conciliar a carreira esportiva com algum curso de graduação torna-se um grande obstáculo.

A opinião e a realidade de três gerações de esportistas do DF em diferentes modalidades

Judô

O jovem Marcelo Valadão Esteves, 18, é judoca e tem ascendido no esporte com uma grande promessa. Desde 2018, Valadão faz parte da Seleção Brasileira de base. Além disso ele já tem se destacado em campeonatos de grande importância a nível nacional e internacional. Confira algumas conquistas do atleta nos últimos anos.

Marcelo Valadão Esteves representando o Brasil numa competição internacional
  • 4° Colocado na Seletiva Nacional Sub-18
  • 3° Colocado Meeting Sub-18
  • 3° Colocado Nos Jogos Escolares Da Juventude (2018)
  • 2° Colocado Na Seletiva Nacional Sub-21
  • 5° Colocado Meeting Sub-21 (2019)
  • 3° Colocado Taça Brasil Sub-21
  • 2° Colocado no Brasileiro Sub-21 (2019)

Mesmo com um futuro, ao que tudo indica, brilhante pela frente, Valadão contou que tem planos de fazer a jornada tatame-faculdade num futuro próximo para ter um “plano B”. Em entrevista a 61 Brasília, ele revelou que ainda está em dúvida na escolha do curso, mas tem dois específicos em mente: educação física e fisioterapia. O judoca frisou a importância de programas que incentivem os atletas a estudarem, como é feito nos Estados Unidos. “Acho muito importante, pois nem todos os atletas tem a mesma condição financeira e precisão do apoio das universidades para exercerem função no que gostam”.

Sobre ter que fazer uma escolha entre o esporte e a escola, o esportista contou que, muitas vezes, teve de fazer uma opção entre as alternativas. A principal delas foi tomada no ano passado, quando a escola não estava o ajudando e ele estava viajando para muitas competições. A partir daí, a mãe e a irmã dele perguntaram se o judô realmente era o sonho do estudante – que respondeu de forma positiva- e, com isso, ambas o apoiaram e mantiveram ele esporte.

Aluno de escola pública, o brasiliense revelou que a ajuda citada por ele por parte da escola era em relação as faltas. “Houveram professores que não aceitaram as declarações das viagens para competir, nem no Jogos Escolares. Com isso, perdi muito, pois não tive aulas de reposição, outra chamada nas provas e coisas do tipo”. No momento, devido a problemas familiares, ele se afastou da escola. Mas, disse que voltará no ano que vem para terminar os estudos “Vou retomar meus estudos no ano que vem, porque já vou estar com 18 anos completos e poderei me matricular no supletivo” – Valadão completou esta idade no último dia 20.

Futsal

Desde a época da escola, Noemi Viana Freita da Silva, 25, recebia uma bolsa de estudos por ser atleta de futsal. Ela contou para a gente a relevância que o abatimento do valor de mais da metade na mensalidade teve na vida dela como estudante e da família, a qual passava um momento difícil financeiramente. “Quando estudava no COC, eu recebia 70% de bolsa atleta e ela foi muito importante para que eu pudesse concluir o ensino médio. Na época, devido a um acontecimento familiar a renda lá de casa ficou um pouco mais apertada e a bolsa contribui para a minha permanência. Fora isso, a base que o colégio me deu foi significativa e, com certeza, foi uma das razões de eu ter passado para uma universidade pública logo após o término do terceiro ano”.

Noemi Viana Freita da Silva em ação pelo time de futevôlei da UnB

Após ter passado na Universidade de Brasília (UnB) para cursar Educação Física, Noemi fez uma peneira, na qual tinham menos de 10 vagas, para entrar para o time da instituição, e, consequentemente, ganhar uma bolsa atleta. Por sua qualidade dentro das quatro linhas, ela passou no teste e conseguiu o apoio novamente. Segundo a ex-jogadora, cujo usufruiu deste recurso do segundo semestre até se formar, essa iniciativa da faculdade motivava bastante. “Era um grande incentivo, ainda mais na nossa realidade, em que tínhamos que tirar tudo do próprio bolso ou contávamos com o auxílio da família. A bolsa me ajudou na alimentação, nos utensílios para jogar e no deslocamento que eu tinha para ir aos treinos. Era uma grana que sempre me ajudava”.

Depois de um certo período na faculdade a brasiliense revelou que começou a estagiar, momento em que teve que fazer a jornada estudos-treinos-estágio. Pela a universidade, ela chegou a disputar campeonatos nacionais e internacionais, como por exemplo: a Liga Universitária em São Paulo e Santa Catarina e o Campeonato Brasiliense, o qual conquistou o segundo lugar. Fora o futsal, ela também representou a UnB em campeonatos de futevôlei e conseguiu um terceiro lugar no Brasileiro Universitário em 2016.

Na visão de Noemi, o esporte é uma forma de adquirir novos aprendizados, tanto dentro da quadra como para a vida e citou “saber ganhar ou perder e ter um jogo coletivo”. Por ter amigas que também tiveram acesso a bolsa e conhecer a situação das mesmas, a ex-atleta tem uma perspectiva mais ampla e social deste auxílio. “A bolsa pode mudar a vida de jovens atletas em situação de baixa renda e dar a oportunidade deles estudarem pelo simples fato de representarem a faculdade e se doarem fisicamente nos treinos e competições. É uma ferramenta que tem o poder de garantir um futuro diferente e proporcionar a ascensão social”.

Da vida acadêmica para a pele

Apaixonada por esportes desde pequena, não tinha como Noemi seguir outro rumo em relação a profissão. Depois de cursar Educação Física ela se tornou Personal Trainer, mas não pense que ela está muito distante do futsal, pois ela trabalhou por 3 anos com a equipe de futebol e society da UnB e do UniCeub. Se hoje em dia seu trabalho é mais voltado para a área fitness e o ambiente de trabalho é a academia, ela segue dentro das quatro linhas de forma indireta: fazendo o preparo físico dos atletas, os ajudando a fortalecer os músculos e a curar as lesões.

Para eternizar sua relação com o futebol, a profissional resolveu fazer uma tatuagem. A oportunidade de “rabiscar” surgiu durante uma viagem de intercâmbio de três meses para os EUA, lá Noemi pôde dar aula para crianças de 7 a 8 anos. Ela explicou o que esse desenho representava “O significado dela em si para mim é minha paixão pelo esporte e tudo o que ele me proporcionou: a oportunidade de viajar o Brasil e conhecer vários lugares competindo, poder ir para fora, conhecer uma outra cultura, e passar para frente o conhecimento e a experiência que eu adquiri durante todo esse tempo”.

Falando em EUA… na entrevista, a brasileira salientou seu desejo de jogar futebol na terra do Tio Sam quando era criança, mas disse que o pai não permitiu. “Tive oportunidades de fazer peneiras, mas ele sempre insistiu pra eu estudar e garantir o estudo – Até porque o futebol feminino não tinha a visibilidade que tem hoje, pouca se comparada ao masculino, porém já aumentou muito em relação ao que já foi – Meu pai sempre deixou eu continuar jogando, mas eu tinha que ir bem na escola para poder jogar bola com meus amigos ou treinar. Na minha casa, a escola sempre vinha primeiro do que o esporte”.

Remo

O atleta paralimpico de remo, Ângelo dos Santos, 43, praticou o esporte entre 2009 a 2012, voltou ano passado, competiu o Campeonato Brasiliense de Remo, o qual se sagrou campeão, e parou novamente por conta das dores. Em 2010, ele teve uma experiência com uma bolsa de estudos dada pelo governo por ter ficado na terceira colocação do Campeonato Brasileiro de Remo Adaptado, disputado no Rio de Janeiro, em 2009. “A bolsa atleta serviu muito para me motivar ainda mais nos treinos. Ajudou no transporte até o clube e na compra de itens pessoais para a prática do esporte”.

O paratleta Ângelo dos Santos no primeiro lugar do pódio do Campeonato Brasiliense de Remo de 2018

A motivação era real, o paratleta contou que, após ganhar a bolsa, começou a treinar mais e mais. Com isso, participou do campeonato brasiliense da modalidade, entretanto revelou que, na época, não existiam provas no Campeonato Brasiliense de Remo Paralimpico, porque era o único atleta PNE do remo. “Só a partir do ano passado, com o aumento do número de atletas PNE praticantes de remo no DF é que foi inserida essa modalidade no campeonato brasiliense. Então, o técnico do Clube Naval, onde eu treinava me convidou para participar do campeonato”, contou. O fato de ser uma competição desigual não abalou o esportista, pois ele competiu com pessoas sem deficiência nas provas da categoria iniciante e conquistou o terceiro lugar “uma ou duas vezes”.

Para Ângelo o remo era uma atividade física que ganhou seu coração de tal forma que o levou a competir, mas, o paranaense, que já mora em Brasília há 13 anos e meio, é servidor público e nunca ficou na berlinda para escolher entre o esporte, seu hobby, e os estudos. Porém, com sua experiência adquirida nesse período ele afirma que a bolsa atleta seria um boa opção, pois a vida de atleta não é longeva. “Penso que bolsa de estudos para atletas seria excelente, já que muitos atletas só não conseguem resultados porque não possuem suporte a seus sonhos. A carreira de atleta acaba relativamente cedo, se esses atletas não tiverem uma formação terão dificuldade para se colocarem no mercado de trabalho após a aposentadoria”, pontuou.

Ângelo dos Santos recebendo o troféu de atleta do ano na categoria Remo Paralimpico no Prêmio Brasília Esporte 2018

Herói do esporte

O esporte pode ser uma ferramenta tanto de inspiração, vide história da Noemi, como de superação. No bate papo que tivemos com o Ângelo, ele falou que no ano passado foi escolhido pelo GDF o atleta do ano na categoria Remo Paralimpico no Prêmio Brasília Esporte 2018. Depois deste testemunho de vida, era impossível não perguntar como ele perdeu a perna esquerda. “Eu tive câncer de bacia (fibrossarcoma de bacia) aos 17 anos e foi necessário amputar. Aos 20 anos o tumor voltou e tive que fazer radioterapia. Além da amputação, ficaram algumas sequelas da recidiva do tumor, como uma insuficiência renal crônica que tenho que controlar e uso uma bolsa de urostomia há 20 anos, porque o tumor e radioterapia comprometeram a minha bexiga”.

A cirurgia de amputação da perna foi em 1994, a radioterapia em 1997, sua chegada a Brasília em 2006 e começou a remar em 2009. Passar por toda essa adversidade tão jovem e num curto período de tempo não desanimou esse guerreiro, o qual deu a volta por cima e explanou sobre como forma a prática e a competição esportiva ajudaram na recuperação. “O esporte foi um propulsor da minha superação física. Não que eu fosse sedentário antes, mas só fazia caminhadas, longas por sinal, pra manter a forma e sempre gostei de pegar trilhas pra chegar em cachoeiras. O remo trouxe mais motivação, pois era um esporte que passei a gostar muito e além do mais por ser num cenário fantástico como é o lago Paranoá. Acordava quase todos os dias as 5 da manhã pra treinar.”

A “Bolsa Atleta” chegou no IESB

Motivado por casos e números expressivos como os apresentados acima, o Centro Universitário IESB tomou a iniciativa de criar uma assistência para esses atletas: a ‘Bolsa Atleta’. Ela é um programa de responsabilidade social, que irá conceder 150 bolsas de estudo para esportistas do Distrito Federal cursarem ensino superior em Educação Física. Serão 100 bolsas de 50% de desconto e 50 bolsas de 100% ofertadas de acordo com o desempenho do atleta em sua carreira. O projeto prevê também parcerias, inclusive, com o Governo do Distrito Federal, para facilitar a indicação de atletas para ter direito às bolsas.

Do ponto de vista de Sérgio Maraca, coordenador do curso de Educação Física do IESB, essa nova modalidade de desconto é um projeto social-esportivo. “Existe um grande problema no Brasil, que é a dificuldade que o atleta tem de cursar a graduação até o final, seja por questões financeiras ou por conta do calendário esportivo”, afirma.

Ousado, o coordenador pensa em ir além da concessão de bolsas de estudos. Maraca indica que já existem projetos no IESB para a criação de um curso de Educação Física a distância, com encontros pontuais. Assim, é possível que o atleta consiga conciliar os estudos com a carreira. Principalmente, no futebol, esporte mais popular do país. “O projeto Atleta Graduado é um novo modelo. Queremos disponibilizar um curso híbrido e flexível para poder ofertar ao Brasil, para jogadores das séries A, B, C ou qualquer um que tenha interesse”, conclui.

Debate sobre o tema

Além disso, no dia 27 de novembro, o IESB irá realizar um evento para debater “A Formação de Atleta no DF e a Pós-Carreira”. O encontro irá ocorrer no Campus da Asa Norte – Setor de Grandes Áreas Norte Quadra 609 -, das 19h às 21h. Estarão presentes o secretário de Esportes do DF, Leandro Cruz Fróes da Silva, a senadora pelo DF Leila Barros, o deputado federal Júlio Cesar Ribeiro, o Presidente do Conselho de Educação Física do DF, Patrick Aguiar, o Diretor Regional do SESC/DF, Marco Túlio Chaparro, e o ex-atleta José Viana da Silva.

 

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