• 21 de maio de 2022 05:56

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“Do concreto e dos peões para os perfumes e às mulheres”

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By61brasilia

abr 10, 2020
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“Do concreto e dos peões para os perfumes e às mulheres”

Quem imaginaria alguma relação entre os canteiros de obras de um lado e por outro a venda do que há de mais premmium em perfumes? Ainda nos anos 80, um visionário que já empreendia no mercado da construção civil, resolveu trazer para a jovem capital Brasília (que há época tinha pouco mais de 20 anos) um leque de opções com o que existe de mais fino no mundo da perfumaria internacional.

 

“Eu comecei a empreender na Construção Civil, sai do concreto e de lidar com os ‘peões’ de obra para lidar com perfumes e mulheres”, explica se referindo ao apelido como são chamados os trabalhadores da construção civil e ao fato que um dos maiores públicos-alvos de perfumaria ser formado por mulheres.

Assim pela capacidade visionária de Ennius Muniz nasceu e se expandiu a Lord Perfumaria. O negócio deu certo e atualmente conta com 8 lojas próprias por Brasília e 21 franquias da marca no Distrito Federal, Formosa e Valparaíso de Goiás e um catálogo de mais de 200 marcas com os principais players da perfumaria internacional. “Naquela época, eu decidi diversificar, pois o mercado de construção civil quando passa por crises é muito sazonal, às vendas se estatizam. Percebi que quem estava no varejo estava com menos problemas do que na construção civil e enxerguei que era hora de arriscar outros segmentos”, explicou.

O início

Ele conta que acreditou no discurso do então ministro do Planejamento da época, Delfim Netto que vinha acompanhado de um otimismo pelo crescente desenvolvimento da economia. A fala do ministro e o período ficaram conhecidos como o milagre econômico (1964-1985). “Eu acreditei em todo aquele discurso que o Delfim falava sobre diversificação. Nesta época, comprei a Lord, Posto de Gasolina, Fábrica de Cerâmica, Salão de Beleza, Boate”, detalha. Ennius. ampliou bastante os segmentos, mas o mundo caminhava para a especialização dos negócios. “Eu não era especialista em tudo isso, mas sim um empreendedor que conhecia o mundo dos negócios.”

Ennius conta que alguns dos empreendimentos não prosperaram como o esperado, outros por sua vez resistiram a todos os intemperes do comércio. Apesar de tudo, ele diz que buscou em sua vida como empresário sempre uma postura digna. “Em todos os segmentos que atuei, eu entrei e sai pela porta da frente. Honrando os meus compromissos com os meus colaboradores e parceiros”, explica.

Então, ele enxergou a oportunidade com um amigo que tinha a marca Lord Barbearia em Goiânia. Ennius comprou a marca já com quatro lojas em Brasília no Plano Piloto, sendo duas na Asa Sul (305 Sul, 105 Sul), uma na Asa Norte (302 Norte) e uma no Shopping Conjunto Nacional. Assim de barba, cabelo e bigode, o empreendedor transformou a marca Lord em venda de perfumes de primeira linha como Dior, Givenchy, Dolce&Gabbana.

 

O segmento de perfumaria seletiva era um caminho a ser desbravado no País. Nos anos 80, o Brasil passava por uma grande transformação com o início do movimento Diretas Já   – um desejo do povo para a eleição direta de seus representantes e também o fim da Ditadura Militar. No mundo, as grandes marcas já mostravam a que vieram apresentando fragrâncias e conceitos em perfumaria.

O povo brasileiro é visto pelo mundo como um dos principais mercados de perfumes, por serem exigentes, considerarem o uso de perfumes e cosméticos artigos essenciais e não supérfluos. Segundo projeção da pesquisa Euromonitor Internacional, a indústria de perfumes movimenta cerca de R$10,5 bilhões de dólares por ano.

Brasília dos anos 80 aos dias atuais

O país e Brasília dos anos 80 eram um cenário de grande efervescência cultural. Na capital surgiram bandas como Plebe Rude, Legião Urbana, Capital Inicial. De acordo com o Censo Demográfico, a população da época era de 1,17 milhão de habitantes, sendo que 603.211 formado por mulheres e 573.724 homens. Hoje a população brasilense supera a marca dos 3 milhões e com expectativas de crescimento.

A história de vida de Ennius Muniz e sua família se confunde com a própria inauguração de Brasília. Assim como várias pessoas, os pais de Ennius: Francisco e Wanda Muniz decidiram se mudar para a nova capital, acreditando no ideal de Juscelino Kubitschek.

Ennius nascerá em Belo Horizonte (MG) e seguiu para Brasília aos 13 anos de idade em 1961 – um ano após a inauguração da capital. Quando chegou a capital, a família se instalou na antiga Cidade Livre (atual Núcleo Bandeirante). “A construção do Plano Piloto foi indescritível. Tudo era construído em uma velocidade impressionante. Eu vi a W3 ser asfaltada”, relembra citando uma das principais vias de Brasília.

Negócio familiar

A arquitetura moderna do urbanismo proposto por Lucio Costa, as curvas dos edifícios projetados por Oscar Niemeyer foram a inspiração para o então jovem Ennius ingressar na faculdade de Arquitetura na Universidade de Brasília (UnB).

Em Brasília, Ennius se casou e constitui família, do primeiro casamento nasceu a filha Adriana Karina, já do segundo Marcus Vinícius. Os filhos desde pequenos vivenciaram o dia a dia dos negócios.

Nascida em Brasília, Adriana lembra que aos 9 anos o pai comprou a Lord e sua infância desde então foi entre fragrâncias, cursos profissionalizantes, salões de beleza e cosméticos. “Aos sábados, toda a nossa família tinha o hábito de passar o dia trabalhando na loja do Conjunto Nacional. Na época, a minha mãe tomava a frente dos pontos que tinham salão de beleza”, revive. Os pais deram aquele empurrãozinho para incentivar a filha a fazer os mesmos cursos que os profissionais das lojas faziam.

“O meu pai queria que eu entendesse o negócio e começasse a trabalhar. A partir dos 9 anos, eu comecei a vivenciar o universo do varejo de perfumaria”. Nas lojas, ela começou na parte operacional, já trabalhou como empacotadora, caixa e diversas funções. “Todos os cursos que os profissionais de beleza faziam, eu também tinha que fazer: manicure, depilação, cabelo, tintura, corte, técnicas de venda, de gerência”, relembra.

Com o passar dos anos, Adriana queria ganhar seu próprio dinheiro. Quando a jovem fez 15 anos, almejava em ter uma renda. “Até então, eu só trabalhava aos sábados, pois estava na escola. Então, a diretora Lúcia do colégio Fênix em que eu estudava me convidou para trabalhar no contraturno das minhas aulas”. Ela foi professora de inglês para alunos da Pré-escola a 4ª série. “Eu gostei da experiência, me deslumbrei com essa história de ganhar dinheiro, mas quem não gostou muito foi o meu pai”.

 

Adriana conta que Ennius pediu para que a filha saísse do emprego e se dedicasse a empresa da família. “Ele disse se você quer trabalhar, então trabalhe para as empresas da família”, conta. “Como eu estudava de manhã, comecei a trabalhar só a tarde no escritório. A moeda da época ainda era o Cruzeiro, ele me pagava só o proporcional pelo período, mas caso eu não pudesse ir, ele cortava o meu vale transporte do dia como o de qualquer outro funcionário que faltasse ao trabalho. Ele dizia que tínhamos que dar exemplo para os demais colaboradores.”

Para ela, a experiência de trabalhar tão cedo, de se dedicar foi a salvação da sua vida. “Quanto mais você se dedica, mais você é recompensando por isso”, explica. Aos poucos, Adriana foi galgando experiência na empresa da família, passou pelos cargos de supervisora de todas as lojas, implementou o sistema de código dos produtos no período em que as empresas modernizavam sua gestão e estoque.

Ela se formou em Administração pela Universidade Católica de Brasília (UCB), fez especialização em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) nos anos 2000. Por mérito e muita dedicação, hoje ocupa a diretora comercial da marca, além de ser mãe de três filhos: Leonardo (26 anos), Lucas (25 anos), Luís Eduardo (18 anos).

Seguindo os passos do pai, o segundo filho de Adriana também passou pelo estágio na área Financeira, hoje trabalha na Ancham. Atualmente, o caçula trabalha no escritório das empresas como menor aprendiz. “Até pela minha criação, eu quis que os meus filhos também atuassem na empresa. Uma forma de ensinar os meus filhos a fazer valer o meu esforço, a ensinar o porquê não pode desperdiçar, o porquê precisa economizar energia elétrica”, explica Adriana.

 

O irmão mais novo de Adriana, Marcus Vinícius também começou a trabalhar cedo nas empresas da família. “Há famílias que têm em sua essência a Medicina, outros a Advocacia. O nosso DNA é ser uma família empreendedora. As minhas referências desde a infância é deste caminho, eu cresci aqui dentro”, diz. Aos 12 anos, ele atuava na parte de Almoxarifado, gerente de estoque nas lojas Lord. Ao terminar o colégio, o jovem passou no vestibular para Engenharia Civil na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG).

Ao retornar a Brasília, entrou no grupo de empresas – formado pela Lord, Conbral, Locatec -para substituir uma funcionária que teve problemas de saúde. “Eu vim ser um substituto provisório, pois a diretora financeira à época a Sandra ficou impossibilitada. Ela não pode retornar às suas atividades e eu acabei assumindo a posição”. Em 1999, Marcus fez especialização em Gestão de Negócios pela IBMEC e 2006 concluiu o estudo em Gestão Imobiliária, Contabilidade e Gestão de Recursos. O estudo, a dedicação e o mérito o mantiveram no cargo de 2001 até hoje.

A sensação de pertencimento extrapola os laços de sangue e se estende aos mais de 1,5 mil colaboradores entre empregados na Lord, da Conbral e demais negócios da família.

Belezas de Brasília

Os irmãos são enfáticos ao ressaltarem os predicados de Brasília. “Eu gosto de Brasília, porque aqui é uma cidade adequada. Eu não poderia ter nascido em outro lugar, gosto e me sinto em casa aqui”, reitera Adriana. Segundo a diretora comercial, o ponto que mais admira na metrópole é o céu de Brasília. Com a sua imensidão clara que deslumbra muitos visitantes, a temperatura amena que fica em média entre 18º e 28º, clima que mantém uma constante. “Aqui existem dois períodos bem definidos, 6 meses de seca e outros 6 são de chuva” Outro ponto que a atrai é o fato de apesar de ser uma grande cidade, o trânsito não é tão caótico quando comparado ao de outras capitais do País. Quando alguém fala que é complicado entender os endereços ou se deslocar, ela defende, “eu adoro desenhar o mapa de Brasília. Não há nada de complicado, é uma cidade que segue uma lógica, é organizada por números, quadras.”.

Por sua vez, Marcus ressalta o caráter cosmopolita da cidade. “Aqui você encontra com pessoas de todo o Brasil, as embaixadas ficam aqui. No tempo em que eu estudava, por exemplo, era comum ver estrangeiros na minha escola”. Ele conta que à primeira vista para os que não moram aqui, a cidade pode parecer difícil de se adaptar, existe uma frieza no trato entre as pessoas. “Acredito que seja só uma impressão inicial, aos poucos, após se quebrar o gelo, as pessoas se aproximam”.

A resiliência perfumada há 40 anos

Mas quem pensa que tudo são flores e fragrâncias no caminho da família Muniz se engana. Há interferências externas que impedem um crescimento e a popularização dos produtos comercializados pela marca, e apesar de fatores positivos como mercado consumidor e a população brasileira figurando entre as cincos maiores consumidoras de perfumes. “Existem dois limitadores artificiais para que o mercado de perfume seletivo se expanda como tem potencial. São eles: os impostos que encarecem os produtos para o consumidor final e a renda média baixa do trabalhador brasileiro”, garante o patriarca Ennius.

Ele compara a experiência de outros países. “Lá no exterior, um bom perfume custa em média 5% do salário. Aqui, o mesmo produto representa 50% a 100% do salário do trabalhador”. E para o empresário, os produtos que são produzidos não concorrem com os feitos aqui. “Muitos não conseguem importar matéria-prima para produzir bons perfumes”.

Ainda com as dificuldades, a marca Lord se encontra entre as 10 maiores empresas voltadas para a perfumaria seletiva e é a mais antiga empresa do ramo em funcionamento do Brasil.

 

Em um dos momentos de crise, o pai visionário em sua essência, resolveu que era a hora da filha Adriana se unir a outros empresários do setor. “Seguindo o conselho do pai e pensando no futuro do negócio, ela se uniu mais 8 empresas e fundou a Associação Brasileira de Perfumaria Seletiva (ABPS). Eu contatei 20, mas por medo de represálias de fornecedores, apenas 8 decidiram entrar. Fui presidente da ABPS e juntos pensamos em formas de alavancar os nossos negócios, trazer melhorias para o setor”, ressalta.

Para os filhos e para outros empreendedores, o exemplo de Ennius serve de inspiração. Com o esforço e dedicação, hoje o negócio segue de Brasília para outras cidades. “A ideia é vender a Lord como um modelo de franquia, pois é um negócio que temos expertise e já o peso da marca para transmitir para futuros empreendedores”, ressalta o visionário.

Fontes de pesquisa:

https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/72/cd_1980_v1_t4_n26_df.pdf

https://forbes.uol.com.br/negocios/2014/11/brasil-tem-o-maior-mercado-de-perfumes-do-mundo/

https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/brasilia/trabalhos/OCR_GOMES.pdf

 

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