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A Páscoa da Peste, ou como os romanos lavam as mãos

By61brasilia

abr 12, 2020

A Páscoa da Peste, ou como os romanos lavam as mãos

“(…) o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes.” – Darcy Ribeiro

Nesta Páscoa da Peste, os nossos governantes suscitam uma reflexão sobre um gesto simples que se tornou um assunto inescapável: o gesto de lavar as mãos. É um gesto arraigado na cultura brasileira e que nos lembra sempre, mas sobretudo hoje, aquele governador romano da época de Jesus, que ensinou que um juiz deve lavar bem as mãos sempre que julgar ouvindo a voz das ruas. Vamos tentar enxergar, então, como essa tradição romana se reinventa e sobrevive ainda hoje entre nós.

Podem ir às compras, podem congregar, podem encontrar os familiares, contanto que as mãos estejam bem lavadas. O presidente lidera pelo exemplo: é o primeiro a lavá-las. Cada patriota que cuide de si e dos seus. Além disso, é claro, devemos também comprar chocolates, porque a economia não pode parar. O moinho tem que girar.

            O romano mata na sexta-feira e come chocolates no domingo. A contradição fundante da civilização ocidental é descender ao mesmo tempo do assassino e do assassinado. Foi Roma que se converteu ao Cristianismo ou foi a Igreja que se tornou Romana? Parece complicado, mas na verdade é bem fácil de entender: o romano é um sujeito prático, ele não está interessado em assuntos metafísicos. O que importa para ele é manter a máquina girando. Ele veste a roupa que for preciso, fala o que tiver que falar, mergulha a cabeça em qualquer água – se o moinho está girando, está tudo certo.

Mas por que falarmos hoje dos romanos, aparentemente tão distantes? É que foi dessa tradição contraditória que a filial ibérica fundou a Empresa Brasil, essa empresa que está tentando virar uma República, mas ainda não conseguiu. E é por isso que não temos ainda propriamente uma autogestão das vidas, mas sim uma gestão vertical dos moinhos. E é nessa medida que a peste incomoda aos romanos: porque coloca em perigo a função principal da nossa Empresa, que é o bom funcionamento dos moinhos. Engana-se quem acha que a tradição de Paulo Guedes começou com Pinochet. Trata-se de algo muito mais antigo e requintado.

Na Empresa Brasil a Páscoa não é meramente reencenada, é rediviva: enquanto escrevo, sexta-feira da Paixão, sei que a morte atravessa o país, e os governantes lavam as mãos. A diferença é que essas pessoas não vão voltar no domingo. Não vão voltar. Mas o fundamental é a máquina não parar de girar. Comprem chocolates.

Assim como não se tornaram gregos por terem copiado o desenho de algumas colunas, os romanos não se tornaram cristãos por terem decorado alguns provérbios. Como disse Otto Maria Carpeaux, a grande obra literária romana não é nenhuma Bíblia nem nenhuma Odisséia – a obra capital da literatura romana é o Corpus Juris. Militares e administradores, os romanos não levam jeito para a literatura – quando muito, lêem biografias. Ou assim o dizem. As mãos, isso sim, como lavam bem!

E se você não aguenta mais essa conversa de lavar as mãos, ou está encontrando alguma dificuldade com a tarefa, é possível sempre aprender com os erros de outra figura clássica, a Lady Macbeth, aquela que não conseguia nunca limpar as mãos, por mais que as esfregasse. O bom brasileiro patriota, descendente de bandeirantes, não comete esse vacilo. Mire-se nos antepassados e nos líderes de hoje. O segredo para uma mão bem lavada é simples: água, sabão e uma total falta de consciência.

Por fim, se essas imagens parecem antiquadas, pensemos numa figura mais contemporânea, como, digamos, um miliciano chocolatier. Um justiceiro que depois de subir do porão, lava o sangue das mãos e vende seus chocolates. No tempo livre de domingo com a família ele imagina que bela biografia um dia vão escrever sobre si. Um soldado perfeito, insidioso como um vírus, leal como um cão. Só que mais feroz, mais violento. Boa páscoa. Não pegue na mão de ninguém.

 

 

 

 

 

 

 

Por: Cícero castro

 

 

 

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