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Hikikomori: o vício do isolamento

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By61brasilia

abr 16, 2020
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Hikikomori: o vício do isolamento

Existem algumas síndromes cujo sintoma é o isolamento. São em geral síndromes psicológicas ou de comportamento. Uma das causas mais comuns para esse afastamento é o Transtorno de Ansiedade Social, no qual o indivíduo se torna incapaz de lidar com a ansiedade provocada pelo contato com outras pessoas. Mas também pode ter origem no stress pós-traumático, derivado de um trauma físico ou psicológico, como um acidente ou o bullying no ambiente escolar ou de trabalho.

Os japoneses chamam esse comportamento de Hikikomori e existem protocolos específicos para tratar os acometidos. Lá, essa síndrome não é confundida com autismo, nem outras perturbações psíquicas. Entre nós chamamos essas pessoas de esquisitões, maluquetes ou perturbados. Machado de Assis, dá nome a um de seus personagens mais emblemáticos de Casmurro, o velho transtornado pelo ciúme doentio, que se isola do mundo.

Esse comportamento pode afetar pessoas de qualquer idade, credo, classe social e profissão, mas se torna mais pungente em profissões que exigem o contato interpessoal, como o comércio, os serviços e a atividade pública.

Talvez, essa seja a causa do fracasso do nosso Presidente, Jair Bolsonaro, como vereador e deputado federal. Só isso poderia explicar que em sete mandatos sucessivos, ou seja, durante 28 anos, ele nunca tenha sido capaz de apresentar um projeto de lei, ou uma sugestão capaz de receber a adesão de seus pares. Ora, no Congresso havia gente de todas as tendências ideológicas e bandeiras, incluindo aquelas abraçadas por ele, logo nada justifica sua ausência na pauta das atividades parlamentares.

Seu afastamento precoce das Forças Armadas, quando era apenas um aspirante a capitão, talvez esteja matizado desse comportamento hostil e refratário ao convívio e a camaradagem. Então, vai nosso jovem iniciar a vida civil com o que ele havia trazido de mágoas da caserna. Nada melhor do que se tornar o paladino dos idos de 64, página triste da qual a maioria dos brasileiros preferiria esquecer.

Havia ambiente no Rio de Janeiro, dos anos 90, para o saudosismo de muitos militares da reserva, descontentes com o governo Sarney, e com os rumos da Nova Constituição. Meio propício para eleger um ex-militar de passado pouco conhecido, que se levantava pela moral, a retidão, a ordem e o progresso. E assim, Jair Bolsonaro ascende ao Parlamento, ainda que avesso ao trato social.

O comportamento antissocial é uma condição devastadora para a psique humana, já que o homem é um animal social e gregário. A colaboração entre os indivíduos é o pilar da sociedade e não ser capaz do convívio e da harmonia com o grupo inviabiliza a coesão. O indivíduo reativo ao contato social é tóxico e dele nada se pode esperar de construtivo.

Bolsonaro inicia sua jornada presidencial rompendo com seu principal apoiador, Gustavo Bebianno. O presidente do PSL, Bebianno, que deu legenda ao candidato, foi uma das figuras mais influentes junto a este, atuando como um de seus conselheiros durante a campanha.

Em seguida a lista de rompimentos é longa: Janaína Paschoal, que havia sido convidada para ser vice-presidente na chapa Bolsonaro. Depois vieram Dória, Witzel, Ibaneis, primeiros governadores para os quais Bolsonaro virou as costas, muitos outros viriam até chegar em Caiado, que havia renunciado a sua própria candidatura para apoiar o candidato Bolsonaro. Não foram apenas governadores e prefeitos riscados da lista do Presidente. Logo seu delírio isolacionista se voltou contra seus próprios ministros. Além de Bebianno, Ramos, Ricardo Vélez e Santos Cruz foram todos defenestrados e quase sobrou para o Moro. Paulo Guedes andou na corda bamba e ninguém sabe como seguirá com o agravamento da crise econômica.

Mas, de todos, o mais tresloucado de seus atos foi o rompimento com seu próprio partido. A partir dai, só os mais fanáticos seguidores de Bolsonaro não se curvariam à evidência de que já é caso de camisa de força.

A saída de Mandetta do Ministério da Saúde, em plena explosão da epidemia de covid-19 é uma desnecessária cartada de tudo ou nada. Nelson Teich tem um admirável currículo e é respeitado mundialmente, no entanto, se a doença ficar fora de controle, como aconteceu em Nova Iorque, Bolsonaro será o responsável pelo desastre. Nosso tecido social, com extensas regiões desassistidas, é um terreno propício para tal. Basta lembrar as epidemias recentes de zika, chicungunya e dengue. É evidente que o mesmo ocorreria com Mandetta, ou qualquer outro que ocupasse a pasta.

Para além da covid-19, o país corre o risco de entrar em colapso econômico. E isso não se resolve por decreto. Bolsonaro, em guerra contra governadores, prefeitos, deputados, senadores, STF e ainda contra vários de seus próprios ministros (exceto a cota de ministros nomeados pelo charlatão olavo do carvalho) se mostra como o patético Quixote, sem Rocinante, mas com uma penca de Sancho Pança.

Jair continuará a tentar quebrar o emparedamento, no qual ele mesmo se colocou, com seu canivetinho de escoteiro. Ele, que já foi afastado das Forças Armadas, está levando consigo muita gente boa para o abismo e, talvez, o nome das Forças Armadas e nosso país de roldão. Pena que os militares que o cercam sejam tão inexperientes que não percebam a gravidade do momento que vivemos e o nefasto que é fazer política de Hikikomori.

Por:Fausto Freire

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