• 15 de agosto de 2022 04:35

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Brasília no grupo de risco

Ela era jovem, arrojada, moderna.

Sua face trazia um frescor de novidade e de esperança. Seus olhos cintilavam com um azul profundo, dentro dos quais era possível vislumbrar um horizonte aberto. As vestes brancas ondulavam ao vento; e, embora sempre sujas de um barro vermelho, ainda mantinha a graça e a leveza.

Alguns viam asas em seu dorso, e lembravam de um avião a voejar no céu, livre e altivo. Outros diziam que não eram asas, mas eixos de uma cruz, e apontavam para sua religiosidade.

É verdade que tinha gente um tanto reticente em relação a ela. Desconfiados, encarando-a de esguelha, não viam beleza, mas estranheza em sua disposição. Desistindo de decifrá-la, não admiravam o quê de moderno que ela tinha, e julgavam-na cafona.

Sempre foi cosmopolita. Abrigava estrangeiros em sua casa e adorava viajar para fora. Aliás, o que seria dela sem as viagens? Com os pés no interior e os olhos no mundo, ela vivia a planejar viagens e mais viagens. Fim de ano na praia e algum mês fora de temporada no exterior, conhecendo o que há para ser conhecido no mundo.

Altamente educada, colocou-se no centro das discussões políticas, e sua casa se tornou o palco para articulações, artimanhas e jogos do poder.

Como aquela filha adolescente, precoce, que já domina três idiomas e entra numa roda dos amigos do pai com desenvoltura e argumentos próprios sobre política e economia, ela começou a brilhar para o país inteiro.

Talvez por inveja, muitos a representavam como uma criança imatura, uma menina caprichosa a afetar conhecimento sem ter o peso da idade ou da tradição. Falavam que se tratava de apenas um rosto exótico, mas sem personalidade, sem identidade própria.

Críticas injustas, como se mostrou mais tarde. Com o tempo, ela adquiriu sotaque, embora sempre negasse com veemência que tivesse sotaque. Adquiriu feição própria e elevada autoestima, rindo de suas próprias manias e orgulhando-se de ser ela mesma. Por exemplo, quando vinham com o papo de que ela era seca e fria, ora fazia gracejos dessa característica, ora dizia que era apenas reservada, mas sem fazer muito caso da acusação.

Apesar dos holofotes, das discussões políticas, da vocação internacional, ela conseguiu preservar certo tom provinciano. Em seu íntimo nutria um gostinho do sertão, um apreço pelo simples. Seu domingo era tão pacato como em cidadezinha do interior.

Mistura de sabor goiano, de olhar mineiro contemplativo e misterioso, de alegria e sotaques nordestinos, ela carregava uma melodia sertaneja que contrastava com a agitação e a pressa das cidades do sul, fazendo-a uma personagem viva da brasilidade.

Mas as décadas passaram. Ela envelheceu. Alguns vão dizer que ela cresceu rápido demais e não conseguiu lidar com os problemas que surgiram; outros já são da opinião que o tempo passa sempre no mesmo ritmo, e que tudo o que veio era previsível e remediável. Seja como for, o fato é que ela ficou descuidada em alguns pontos. Mas jamais perdeu a exuberância.

Esse ano ela completa sessenta anos. Torna-se uma senhora. Terá direito à fila preferencial. Mas é uma senhora que vai para a academia todos os dias, já fez algumas plásticas, viaja com as amigas, trabalha e por isso ainda parece exalar uma juventude eterna.

Contudo, a idade não se pode esconder sempre. Com a passagem dos anos vêm certos cuidados adicionais. Ela entrou no grupo de risco do vírus. Deve se cuidar. Deve atentar para a sua saúde, fazer exames periódicos e tomar as providências necessárias para que esteja sempre bem cuidada.

Esse aniversário ela passa de quarentena. Infelizmente não se verão festas nas ruas nem lhe serão rendidas homenagens em público. Nem por isso ela deixará de sentir a estima que os outros nutrem por ela, até porque dizem que os aplausos já foram combinados da janela de casa.

Parabéns, Brasília!

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares
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