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“Circunstâncias da vida” da oficina ao Teatro.

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maio 2, 2020
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“Circunstâncias da vida” da oficina ao Teatro.

A vida cheia de nuances do paulista que transformou sua oficina mecânica em um marco da cultura cênica brasiliense.

À primeira vista, a oficina de José Perdiz é como outra qualquer: peças automotivas e ferramentas expostas, carros à espera de conserto, graxa e pneus por todos os lados. Uma discreta porta ao lado da entrada, contudo, revela o detalhe inusitado do empreendimento. Com capacidade para cerca de 70 pessoas, o Teatro Oficina Perdiz é, desde 1975, um dos pontos mais disruptivos da cultura brasiliense.

“Sempre fui meio rebelde”, conta, entre risos, o mecânico que já viveu diversas vidas em uma só. O bicho do teatro mordeu Perdiz pela primeira vez em um circo. Ao fim da apresentação, Perdiz estava irremediavelmente apaixonado. “Nunca mais esqueci”, comenta. Antes de consertar carros e organizar espetáculos, Perdiz foi membro da Juventude Comunista, garapeiro, ajudante de caminhão, trabalhador de olaria, de siderúrgica, de fábrica de tecido, marceneiro, fazendeiro, ferreiro, operário, sorveteiro, cenógrafo e até modelo fotográfico. “Queria ser agricultor, mas formado. Mas não consegui aprender a ler, aí não deu”, relembra.

Aos 87 anos e com tantas experiências no currículo, Perdiz resume o que aprendeu em uma lição simples: qualquer profissão que se assuma, seja por necessidade ou circunstância, deve ser cumprida com perfeição. Ele chegou à Brasília há quase seis décadas por “puro acaso”, como gosta de frisar. Nasceu em São Paulo, perto de Ribeirão Preto, onde viveu até os oito anos de idade. Depois, sua família mudou-se para Araguari, em Minas Gerais, em busca de melhores condições de vida. Já adulto, morou em Belo Horizonte antes de chegar à capital. Fruto de uma união entre um pai distante e violento e uma mãe submissa, José precisou contar com a própria auto-suficiência desde cedo. Aos 14 anos, após uma das muitas surras que levou do pai, decidiu sair de casa e tomar seu próprio rumo.

Começava, então, sua estrada cheia de curvas, lombadas e buracos causados pelas tais “circunstâncias da vida”. Assim que deixou a casa dos pais, procurou abrigo e emprego em uma fazenda próxima. Pouco tempo depois, conheceu o comunismo por meio de um primo, que o convidou para uma reunião do partido. “Perguntei se não teria problema um semi-analfabeto participar, mas, como ele disse que não, fui. Me identifiquei com as coisas que estavam falando e me filiei.”

A teoria do marxismo foi transmitida a Perdiz por um colega, que conheceu quando trabalhava em uma estrada de ferro. Desde então, preocupações acerca das relações de classe e conflito social passaram a fazer parte da filosofia de vida de Perdiz. “O único sofrimento que eu tenho é problema social”, reforça, e explica: “Se ‘tem’ só cem cabeças para usar chapéu, então faça só cem chapéus. Ele [Karl Marx] era totalmente contra o consumismo. E o capitalismo não pode viver sem o consumismo”.

Na juventude, Perdiz foi um militante ativo e intenso. Quase foi preso ao menos duas vezes: ao ser pego repassando “O jornal do povo”, um jornal comunista, em uma feira de legumes e ao peitar soldados do exército, que tentavam impedir os funcionários da fábrica a cantarem músicas de carnaval no ônibus que os levava para o trabalho. Do marxismo, sobrou a crença inabalável na “dignidade do trabalho”, como Perdiz mesmo define. “Se a pessoa não tem função, fica frustrada. Todo mundo fala em direitos, mas poucas pessoas estão falando em deveres.”

Ao ser dispensado pelo partido comunista, em 1962, Perdiz pediu carona até chegar em Brasília. Arrumou emprego e teto em uma loja, na Asa Norte. Em 1969, abriu sua primeira oficina na 708/709 Norte, possuindo apenas um martelo, uma talhadeira e meia dúzia de ferramentas. Trabalhava de 6h30 até a meia-noite, de segunda à sexta. Aos sábados tocava até às 22h e, aos domingos, fechava as portas às 16h. “Cheguei a ter 86 funcionários registrados em carteira”, orgulha-se.

Da graxa ao palco

A oficina de Perdiz começou seu processo de tornar-se também teatro em meados da década de 1970. Com seus grandes olhos azuis marejados de saudade, ele conta que tudo começou graças a uma festa. “O sobrinho da minha esposa, Ivan, precisava de um lugar para reunir os amigos do teatro e perguntou se poderia usar a oficina emprestada”, relembra. Ivan morava a pouco tempo em Brasília quando descobriu o teatro, passou a estudar artes cênicas na Faculdade Dulcina de Moraes e, rapidamente, sequestrou Perdiz para o mundo cênico.

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O encontro era, na verdade, a formatura de Ivan em artes cênicas. Depois da festa, a turma passou a ensaiar na oficina, transformando o espaço em um embrião artístico do que viria a seguir. Em 1980, Mangueira Diniz, diretor de teatro e amigo de Perdiz, manifestou sua vontade de realizar um projeto audacioso: queria encenar na oficina uma adaptação da peça Esperando Godot, de Samuel Beckett. “Onde o público vai sentar?”, perguntou Perdiz, confuso por ter sido pego de surpresa, mas já pressentindo o espírito faça-você-mesmo que marcaria o futuro Teatro Oficina Perdiz.

Deram um jeito de arrumar dinheiro para comprar tábuas e, com as próprias mãos, Perdiz construiu a arquibancada do auditório — que só ficou pronto vinte minutos após o horário marcado para o início do espetáculo “Tinha quinze dias que o Ivan me perguntava que horas eu iria começar a fazer as arquibancadas”, relembra Perdiz. “Eu só ria e respondia: ‘vocês são muito apavorados, vai dar tempo’. E deu.”

Nem a mais otimista das criaturas poderia prever o futuro promissor do teatro-oficina. O espetáculo foi um sucesso, permanecendo em cartaz por nada menos que três meses com a casa cheia. Na década de 1990, a plateia do teatro chegou a receber mais de 7.500 pessoas — entre eles Stênio Garcia, Guilherme Karan, Françoise Forton e Lucinha Lins. Nessa época, a adaptação de Bella Ciau, de Luís Alberto Abreu, foi eleita a melhor da temporada pela Associação dos Produtores de Artes Cênicas (Apac), tornando-se um marco na história do teatro brasiliense.

O espaço recebeu, além dos espetáculos, performances de dança, lançamento de revista e excursões de belas artes. “Foi um sufoco dos diabos”, relembra Perdiz. Tudo corria bem até que, em 2002, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios passou a investigar o teatro, sob a alegação de que o empreendimento funcionava em área pública. Para piorar, obras do estabelecimento vizinho danificaram o telhado do prédio. Os bombeiros condenaram a estrutura do local, o que inviabilizou qualquer apresentação. A cereja do bolo veio quando a Administração Regional de Brasília proibiu as arquibancadas, já que o endereço não seria “destinado ao teatro”.

 

Após muito estresse e discussão, Perdiz resolveu o impasse em 2015, mudando a sede da oficina-teatro para a 710 Norte. Além da classe artística em peso, a reinauguração contou com presenças de personalidades importantes, como o então governador Rodrigo Rollemberg.

Em 2016, a história da oficina foi contada no documentário Oficina Perdiz, de Marcelo Díaz. A lista de prêmios do filme impressiona: Troféu Candango de Melhor Curta 35mm do DF no 39° Festival de Brasília; Prêmio Centro Técnico Audiovisual da Secretaria Especial da Cultura (CTAV/MinC); Prêmio de Melhor Roteiro no Curta Canoa (2007) e o Prêmio ABDeC da Mostra Internacional do Filme Etnográfico (2007) são algumas das premiações mais importantes. De quebra, o curta participou de mais de 40 festivais e mostras nacionais e internacionais, ficando, ainda, entre os dez mais votados pelo público no Festival Internacional de Curtas São Paulo, em 2007.

Atualmente, o teatro está sob o comando de Júlia, 22 anos, filha de Perdiz e estudante de artes cênicas. É ela quem marca e organiza ensaios, espetáculos, aulas de teatro e oficinas, além de postar as novidades do espaço nas redes sociais. “Todo mundo sempre ficou curioso de ver um semi-analfabeto, mecânico, metido com teatro. As pessoas acham que uma coisa não tem a ver com a outra, mas tem”, relembra Perdiz. “Foram as circunstâncias da vida que me puxaram para cá, para uma coisa que eu sempre amei, que foi o teatro. Tudo está interligado.”

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