• 23 de maio de 2022 08:55

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Cuidar da saúde mental deve ser prioridade na volta às aulas

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jan 28, 2022
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Cuidados com o corpo e a mente devem ser mantidos no debate dentro da escola e não podem ser tratados como tabu

por Povir

É hora de retomar o ano letivo. Neste novo ciclo, cuidar da mente – e do corpo – deve ser uma tarefa a ser priorizada. Com as muitas mudanças de rotina e a incerteza causada pelo cenário de saúde no Brasil e no mundo, manter a saúde mental em dia deve continuar sendo um dos objetivos mais relevantes para educadores, gestores e comunidade escolar.

Você já deve ter ouvido falar da importância de hidratar-se, de cuidar do corpo e de respeitar os limites que ele dá quando a mente está cansada. E antes que ocorra um esgotamento, o cuidado precisa estar na pauta das reuniões, no dia a dia  das escolas e também nos currículos.

Nas férias, a rotina fica completamente diferente de como deve ser no período regular de aulas. Com a reorganização, é essencial procurar um equilíbrio entre as múltiplas atividades que são realizadas ao longo do dia. Buscar de maneira intencional e com disciplina organizar o tempo com o trabalho, com a família, momentos de lazer, praticar esportes ou desenvolver a espiritualidade é uma forma de preservar a saúde mental.

“Apenas trabalhar e concentrar o tempo vago em atividades como internet, redes sociais e televisão, por exemplo, tendem a ir drenando a energia e piorando o humor, fazendo com que fiquemos mais suscetíveis ao estresse e menos capazes de lidar com as situações desafiadoras, o que pode comprometer as relações no trabalho e diminuir a satisfação com o mesmo”, afirma a psicopedagoga Alcione Marques, diretora da NeuroConecte.

Cuidados básicos

Antes de ingressarmos em estratégias mais detalhadas, é importante atentar para cuidados básicos que o corpo precisa para continuar funcionando de maneira correta. Ter boa alimentação, boa qualidade de sono e manter a hidratação em dia são passos iniciais e essenciais.

Na escola, esses detalhes também precisam ser observados. As rotinas podem ser corridas, com muitas aulas a dar e diferentes escolas para ir, o que pode colocar a vida em um ritmo muito complexo.

O sistema nervoso fica mais reativo quando não está sendo bem cuidado

“As pessoas precisam compreender a relevância desses fatores: uma pessoa que dorme uma quantidade de horas menor do que o corpo e a mente dela precisa, é uma pessoa que em algum momento vai começar a apresentar sinais de cansaço, de irritabilidade. O sistema nervoso fica mais reativo quando não está sendo bem cuidado”, destaca Gustavo Estanislau, médico psiquiatra, pesquisador do Instituto Ame Sua Mente e coautor do livro “Saúde mental na escola: o que os educadores devem saber” (Artmed Editora, 277 páginas).

Encontre um momento para desligar

A internet, o uso de dispositivos móveis e tecnologia podem também ser  fatores de esgotamento mental quando usados em excesso. Com aulas online ou no ensino híbrido, professores e professoras tendem a passar um tempo muito maior lidando com tecnologia, sem contar nas atividades pessoais que também demandam o uso de ferramentas digitais. Tendo isso em vista, Gustavo afirma  que reservar um momento para si, longe das telas, faz parte de uma boa estratégia de cuidado da saúde mental.

As técnicas meditativas são muito úteis em momentos como esses que estamos vivendo porque nos colocam no momento presente

Outra dica é encontrar um momento para reflexão ao longo do dia. “As técnicas meditativas são muito úteis em momentos como esses que estamos vivendo porque nos colocam no momento presente, no aqui e no agora e isso ajuda o cérebro a diminuir a tendência a ficar antecipando problemas, dificuldades, e tende a aliviar os estados de ansiedade. Além disso, trazem a sensação de relaxamento físico ao longo do dia que também ajudam a pessoa a vivenciar tudo de uma forma menos tensa”, aponta Gustavo.

Ouça o seu corpo 

O corpo sinaliza quando a mente não vai bem. Uma noite de insônia ou quando se acorda muito antes do que está previsto; falta de apetite ou apetite descontrolado; desânimo em relação às atividades que antes geravam prazer. Esses são alguns dos sinais que podem indicar que a mente não está indo como deveria.

“Se a pessoa perceber esses sinais de alteração no padrão do sono, no padrão alimentar, alterações no funcionamento psicológico como a irritabilidade maior, falta de ânimo, a falta de sensação de prazer para as coisas, [a estratégia seria] tentar fazer investimentos em relação a ela”, sugere o psiquiatra. “Tentar socializar um pouquinho mais, mesmo que a pessoa esteja se desanimando…. Se perceber que não está tendo resultado, aí talvez uma das medidas que possam ser interessantes é a busca pelo atendimento especializado, que hoje em dia tem estratégias super efetivas para ajudar a pessoa a voltar a um estado mais saudável”, diz..

E qual o papel da gestão escolar nesse assunto?

Primeiro de tudo, a gestão também é composta por pessoas que, por sua vez, vivenciam diversas experiências e situações que precisam de cuidado. O mesmo que vale para professores e professoras, também serve para equipe de gestão quando se pensa em cuidados básicos.

Para além disso, a gestão pode estar comprometida em tratar desse assunto de maneira mais sistemática, seja no projeto pedagógico, seja em ações que incentivem o debate sobre o tema.

“A gestão precisa compreender que a saúde mental dos educadores afeta diretamente o clima emocional da sala de aula e a qualidade da aprendizagem. Então não é algo trivial. O tema da saúde mental não pode ser um tabu e a gestão precisa estar atenta e aberta para apoiar os educadores que dão sinais de sofrimento mental ou emocional. Divulgar informações de qualidade ajuda não só a equipe como também os estudantes, já que, por sua vez, estes educadores poderão trabalhar o tema com os alunos de maneira mais competente”, afirma Alcione.

O tema da saúde mental não pode ser um tabu e a gestão precisa estar atenta e aberta para apoiar os educadores

A psicopedadoga, que é coautora do livro “Conversando sobre saúde mental e emocional na escola (Fundação Mapfre, Seduc-SP, 381 páginas), reforça a importância de que os vínculos entre a equipe sejam fortalecidos, a fim de criar momentos de troca que ultrapassem as reuniões que já são comuns na rotina da comunidade escolar. “A gestão precisa organizar momentos para que os educadores possam aumentar a sensação de pertencimento ao grupo, compartilhar suas angústias relacionadas ao trabalho educacional e também celebrar – aniversários e outros momentos felizes”, diz.

A escola e sua saúde mental 

O ambiente escolar é muito importante para promover saúde mental. Sendo um espaço onde muitas pessoas passam uma grande parte de suas vidas, é lá, também, que deve ser um local para nutrir em toda a comunidade um sentimento de pertencimento, capaz de promover acolhida e fortalecimento de vínculos.

As ações em prol da saúde mental, no entanto, não podem ser isoladas ou soltas. Há de se construir de maneira intencional e organizada estratégias relevantes para a área.

“Tanto diretamente como transversalmente aos conteúdos regulares, é importante que sejam incluídos os temas das emoções e da saúde mental. Podem fazer parte das disciplinas de ciências e biologia de maneira mais direta, onde se fala da mente e o cérebro, como em linguagens ou história, quando pode se discutir com os estudantes quais as emoções e o estado mental, por exemplo, da personagem de determinada obra literária ou histórica quando agiu de determinada forma”, destaca Alcione.

Tanto diretamente como transversalmente aos conteúdos regulares, é importante que sejam incluídos os temas das emoções e da saúde mental

Outra estratégia sugerida por ela é a abertura de canais onde os estudantes possam falar sobre suas questões emocionais. Além disso, ter um educador que esteja mais próximo de cada turma pode ser uma ação simples e muito valorosa.

“É importante que a escola busque a parceria com outras instâncias, especialmente a área da saúde, para dar conta do tema da saúde mental. Convidar profissionais, como psicólogos e psiquiatras, para falar sobre o tema com os educadores e com os estudantes, além de difundir conhecimento e informação de qualidade sobre o assunto, , favorece a superação de tabus e a construção de uma cultura onde a saúde mental é compreendida como parte da saúde integral”, diz Alcione.

Existe um cuidado com a saúde mental a nível particular e individual, como estar atentos ao sono, à alimentação, como também uma outra esfera, em nível mais amplo e que envolve uma quantidade maior de pessoas. Em ambos os casos, as discussões sobre saúde mental na escola devem continuar acontecendo e, se possível, serem incentivadas pelo bem de todas e todos.


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