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  • 5 de dezembro de 2022 12:21

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Cinema e resistência no Festival de Brasília

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By61brasilia

nov 19, 2022
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Cinema e resistência no Festival de Brasília

Confira o que rolou na programação do 3º dia de FBCB

Uma noite para entrar na história com uma sessão tripla de trabalhos exaltando o cinema de resistência, de guerrilha, das minorias. Uma noite para exaltar e engrandecer o cinema negro. “Viva o povo negro!”, gritava alguém da plateia do Cine Brasília vez ou outra, neste que foi o terceiro dia da 55ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB). Realizado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF (Secec), com a organização da sociedade civil Amigos do Futuro, o evento vem, ao longo dessa semana, consolidando a importância da cultura e da produção audiovisual como plataforma de expressão e de democracia.

Representando a Paraíba, o primeiro curta da Mostra Competitiva nesta quarta-feira (16/11), Calunga Maior, recorre a contos africanos para construir uma narrativa em que tempo, vida e morte se somam à exaltação do corpo negro para ganhar a tela por meio de signos coloridos. Trata-se de um olhar lírico e místico sobre essa leitura de uma cultura que atravessou o Atlântico e hoje permeia o imaginário brasileiro por meio da religião, dos cantos, da culinária, entre outros tantos aspectos do cotidiano. “Calunga Maior é um filme espiritual”, resumiu o diretor Thiago Costa.

Até agora o mais experimental dos filmes exibidos na mostra competitiva do FBCB, o fascinante Sethico do pernambucano Wagner Montenegro “é um projeto sobre a destruição do mundo, marcado pela morte e desigualdade social”, como bem destacou o diretor. Hipnótico, o filme conduz o espectador por uma narrativa sensorial norteada por batidas de tambores contagiantes e provocações em forma de mensagens, que mostram a conflituosa relação entre trabalhadores e patrão, a herança colonial e o abismo entre brancos e negros. “Na pandemia, 72% das pessoas que morreram de Covid-19 eram pardas e pretas”, lembra um dos avisos do filme.

Segundo longa-metragem do Distrito Federal a ser exibido na Competitiva do Festival de Brasília, Rumo, da dupla Bruno Victor e Marcus Azevedo, traça três linhas narrativas que se cruzam para falar sobre o sistema de cotas raciais na Universidade de Brasília (UnB) e o racismo estrutural vigente por trás dessa política pública. O filme conta com depoimentos fortes, viscerais e pertinentes, que mexeram com a plateia, que aplaudiu o filme de pé, ao final da sessão.

Mas mesmo antes da exibição, durante o discurso de apresentação da obra, que contou com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do DF (FAC) para sua realização, a produtora executiva Bethania Maia já tinha empolgado a plateia com palavras inflamadas. “Estou feliz por ver todos esses corpos aqui, a gente sabe fazer cinema de guerrilha. Mas o cinema negro agora quer trabalhar com dignidade”, disse, agradecendo o incentivo do FAC. “Independente dos governos vigentes, é importante que as políticas públicas sejam fortalecidas para que a gente consiga contar histórias e possa fazer arte”, continuou.

A experiência do Festival de Brasília também vem sendo sentida em Samambaia e Planaltina, que contam com exibições de todos os filmes da Mostra Competitiva, em sessões gratuitas promovidas diariamente, sempre às 20h. A ação é parte do projeto de descentralização do FBCB, que pretende oferecer o melhor da produção audiovisual nacional para a população do DF.

Assim, ao mesmo tempo em que os três filmes rodavam no Cine Brasília, o Complexo Cultural de Samambaia e o Complexo Cultural de Planaltina, todos equipamentos culturais geridos pela Secec, também recebiam o público para as exibições das películas. Morador de Samambaia, Miguel Medina foi um dos espectadores presentes na sessão dessa quarta-feira (16). Entusiasta da sétima arte, ele não perdeu tempo e tem se programado para conferir a programação gratuita de filmes. “Para quem não tem carro, por exemplo, ter que sair de Samambaia e ir ao Plano Piloto, ainda mais à noite, é algo incerto. Então essa descentralização é fundamental e torna o cinema acessível para todos”, conta ele, que faz planos para ir ao Cine Brasília no próximo domingo, ver de perto o encerramento do Festival dos Festivais.

Equipe de Rumo (DF) no palco do Festival de Brasília, Foto: Paulo Cavera

PRATA DA CASA

As sessões da Mostra Brasília desta quarta-feira também comoveram o público, com a exibição de dois curtas e um longa. O primeiro deles foi Levante pela Terra, do diretor Marcelo Cuhexê, que acompanha o acampamento indígena homônimo, realizado em julho de 2021. “Estamos vivendo um momento muito importante para o cinema indígena. Estar nesse lugar, demarcando esse espaço, demarcando o cinema e trazendo o audiovisual como ferramenta de luta dentro do movimento indígena aponta para a importância que nós, brasileiros, devemos dar aos povos originários”, destacou. O segundo curta, Reviver, do diretor e roteirista Vinícius Schuenquer, trata sobre as perdas durante a pandemia. “É uma honra exibir este filme. Reviver é sobre as consequências psicológicas em momentos tão difíceis que temos passado. É sobre luto, solidão, superação. É sobre a sensação de urgência para reviver os momentos bons”, apontou o diretor.

O longa Profissão Livreiro, por sua vez, emocionou a plateia ao tratar dos desafios das transformações da profissão de livreiro com a chegada das novas tecnologias, dos livros digitais e a quase extinção das livrarias no Brasil. “O mundo está em transformação e é, por este motivo, que precisamos ver o que está acontecendo com o mundo literário, com a globalização. Espero que este longa faça as pessoas se emocionarem e rirem também”, citou Pedro Lacerda.

Todas as três apresentações, assim como todas as películas que integram a Mostra Brasília, concorrem ao prêmio Troféu Câmera Legislativa, que premiará diversas categorias, incluindo o melhor longa e melhor curta segundo a avaliação do público. O voto popular é feito virtualmente e validado através de um código disponibilizado em cada ingresso.

Foto: Hugo Lira

O GRANDE HOMENAGEADO

Prestes a completar 80 anos no próximo mês de dezembro, Jorge Bodanzky é a memória viva dos anos seminais da UnB e da Capital. Aliás, seus anos de juventude se confundem tanto com um, quanto com outro, deixando um sentimento de nostalgia, saudade e registro histórico presente no seu documentário biográfico, Utopia Distopia, exibido na tarde desta quarta-feira (16), no Cine Brasília. A projeção abriu a mostra paralela que homenageia o cineasta nesta 55ª edição do FBCB.

“Esse filme foi exibido de forma virtual no Festival de Brasília durante a pandemia, meu sonho era que ele fosse exibido aqui, na tela do Cine Brasília, o que acontece agora, então é uma emoção muito grande”, disse o veterano cineasta. Inegável a importância histórica do filme, com imagens incríveis de uma Brasília que estava nascendo física e intelectualmente. Cenas em preto e branco que firmam como testamento de uma época e endossam depoimentos cheios de afetos e recordações vivas. Durante o debate, realizado espontaneamente no hall do Cine Brasília após a exibição, Bodanzky se juntou à esposa Márcia e amigos como Vladimir Carvalho, entre outros, para falar sobre sua carreira, Amazônia e Brasil.

Antes da projeção de Utopia Distopia, uma raridade: a exibição do curta-metragem Brasília em Super 8 que, como o nome indica, traz registros poéticos da cidade pelas lentes daquele mesmo jovem deslumbrado com a bela arquitetura do lugar e seus horizontes deslumbrantes. Nesta quinta-feira (17), às 14h, a homenagem segue em outra sessão imperdível com Compasso de Espera, único filme dirigido pelo diretor de teatro Antunes Filho, e do qual Bodanzky faz a direção de fotografia. “Talvez seja um dos primeiros filmes sobre a temática negra do país, que traz o ator Zózimo BulBul como protagonista, hoje homenageado pelo festival com o nome de um prêmio”, frisou o veterano. “Foi uma experiência única, estou curioso para rever esse filme”, confidenciou.

Jorge Bodanzky, o grande homenageado do FBCB 2022. Foto: Marina Gadelha

DISCUSSÃO E INSPIRAÇÃO

Detergente, bolhas de sabão, a tensão de trabalhar diante de uma pandemia e a paixão pela poesia levaram o diretor pernambucano Taciano Valério a criar o roteiro do filme Espumas ao Vento. A revelação foi feita pelo cineasta de Caruaru no segundo dia de debates com os realizadores dos filmes da Mostra Competitiva do Festival de Brasília, que ocorreu nesta quarta-feira (16/11), promovendo as discussões sobre os filmes exibidos na noite anterior. “Eu trabalhei um tempo como vendedor de detergentes e esse imaginário se misturou com a realidade artística”, contou Taciano.

O belo trabalho de construção dos personagens do longa, conduzido por um elenco poderoso e coeso liderado pela atriz Rita Carelli e os veteranos Everaldo Pontes e Mestre Sebá, também foi lembrado durante o encontro, assim como a questão do pertencimento de uma produção que tem orgulho de ter sido desenvolvida no interior de Pernambuco. “Espumas ao Vento é um filme do interior e feito no interior”, destacou o diretor.

Historiador e cineclubista do Rio de Janeiro, o diretor Uilton Oliveira falou da experiência de realizar Nossos passos seguirão os seus… (RJ), um filme histórico sem muito apoio das instituições que cuidam da memória cinematográfica do país. Ele também destacou a figura do operário Domingos Passos, tema do curta exibido na noite anterior. Já a diretora Marisa Arraes, que divide a direção de Anticena (DF) com Tom Motta, explicou o processo metalinguístico da trama construída a partir de uma história que destaca questões como a luta de classes entre um patrão insensível e seu cozinheiro recém-demitido. “Fomos atrás de um filme que tentasse mostrar como a realidade natural das pessoas interfere na forma como elas fazem o roteiro, realmente filmando a filmagem do filme. Mesmo o título do filme nasceu a partir dessa construção”, detalhou.

Foto: Hugo Lira

Importantes encontros também ocorreram na tarde de ontem. De um lado, o debate “O protagonismo do olhar feminino no cinema nacional” reuniu Ana Johann, da Associação Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA); Maíra Carvalho, representante da BRADA – Diretoras de Arte do Brasil; Ana Caroline Brito, da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN); Joanna Ramos, representante do Movielas; Isabel Lorenz, representante da FigA – Figurinistas Associados de São Paulo; e Julia Zakia, da DAFB (Coletivo de mulheres e pessoas transgênero do Departamento de Fotografia do Cinema Brasileiro); com a mediação da produtora Daniela Marinho, representando a Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV) e a Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API).

A proposta do encontro, transmitido virtualmente e com participação do público, foi discutir o protagonismo da mulher em todas as áreas de criação e produção de obras audiovisuais e, sobretudo, os desafios que ainda existem na ocupação desses espaços por mulheres. “Acho que a gente pode ir dando um passo de cada vez para chegar no lugar que a gente deseja. E o jeito da gente sobreviver a isso tudo foi a gente se juntando. Quando são diretoras ou produtoras mulheres, em geral, as equipes possuem mais mulheres, esse número aumenta um terço, mostrando que as mulheres se acolhem. Mas não basta ser mulher, tem que ser mulher, consciente, engajada e que se coloque no propósito de agir, de fato”, declarou Maíra Carvalho.

Em paralelo, o Festival recebeu também a palestra “Festivais de Cinema: Modos de usar”, de Eduardo Valente, cineasta, crítico e programador de cinema, trabalhando desde 2016 como delegado do Festival de Berlim no Brasil. O conteúdo apresentado condensou as informações de um curso oferecido por Valente na Universidade Federal Fluminense (UFF), pretendendo analisar para que serve um festival de cinema e para quem eles são feitos.

Trazendo um pouco da sua extensa experiência nesses eventos, ele também falou sobre como se destacar nesses eventos e pensar estratégias do que fazer com o filme em um universo de tantas produções. “A gente tem que ir se informando e tentar participar. E entrar na cara dura, porque sem cara dura no cinema a gente nem acorda, quanto mais fazer um filme, quanto mais distribuir internacionalmente”, brincou. “Participar é melhor do que não participar e a participação pode ser essa, sentado na plateia. Não é só ser selecionado, mas ir nos eventos, prestigiar o que tem na sua cidade.”

A programação de atividades formativas seguiu ao longo da tarde com a realização do segundo painel da 1ª Conferência do Cinema Nacional, com a mesa “Desvendando a Lei Paulo Gustavo”. O público pode esclarecer dúvidas com Lais Valente, assessora Jurídico-Legislativa da Secec, e Marcos Souza, assessor no Senado e participante ativo na criação e redação da Lei Complementar 195/2022.

Marcos destacou que durante a tramitação da lei muitas contribuições da sociedade civil e dos agentes culturais foram incorporadas em oitivas, como, por exemplo, formas alternativas de inscrição, inaugurando o que ele chamou de uma “nova era na política pública de cultura”. A assessora da Secretaria, por sua vez, comentou que a iniciativa foi importantíssima, pois existe uma tradição da oralidade muito forte na cultura brasileira, que não se reflete nas políticas culturais. “Muitas vezes uma pessoa sabe muito bem explicar seu projeto ao vivo, mas não consegue traduzir e colocar desse mesmo modo no papel. Pensar formas de inscrição que não são só textuais é uma iniciativa democrática e que permite um acesso mais amplo de toda a população às políticas públicas”, acrescentou Lais Valente.

Ela destacou ainda que muitas das premissas previstas na Lei Paulo Gustavo já estão aplicadas nos editais do FAC-DF, promovido pela Secec, como, por exemplo, a implementação de cotas e pontuações diferenciadas para mulheres, pessoas pretas e pessoas LGBTQIA+, além dos projetos que tenham recursos de acessibilidade. Sobre este tema, Lais ainda aproveitou para convidar a população a participar do Conselho de Cultura do DF e de evento que será promovido no dia 28 de novembro, para formação de agentes culturais em acessibilidade.

Foto: Marina Gadelha

Enquanto isso, na área de convivência do Cine Brasília, o diretor de arte e cenógrafo que assina a cenografia do Festival, Andrey Hermuche, concedeu a masterclass “Métodos e Planejamento na Direção de Arte”. O bate-papo propôs uma reflexão sobre a necessidade de um aprofundamento constante de criação e proposição do departamento de arte para a criação de novos contextos visuais. “A gente trabalha para o mundo, um mundo em transformação e tudo se trata de uma percepção desse mundo. Como uma tecnologia hoje, até um celular, permite a uma pessoa criativa entregar produtos incríveis? Quem trabalha com a experiência do cliente tem que estar sintonizado nisso, acompanhando e estar introjetando novas linguagens, para criar em cima disso também”, defendeu.

Hermuche também elogiou a diversidade das atividades do FBCB. “Eu sempre vejo como uma grande oportunidade o Festival propor esses encontros de backstage com os técnicos e profissionais da área para atualizar a vivência de trabalho dentro dos processos criativos, do desenvolvimento de tecnologia, do aprendizado em diferentes praças. Trazer esse intercâmbio proporciona um mercado criativo, não só uma mostra competitiva. Então eu vejo, cada vez mais, a importância desse outro lado do Festival, como um alicerce, uma fundação para que esse cinema continue evoluindo”, destacou.

 

SERVIÇO:

55ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

De 14 a 20 de setembro

Local: Cine Brasília

Exibições também no Complexo Cultural de Planaltina e de Samambaia

Confira a programação completa em: https://festcinebrasilia.com.br/programacao/

Ingressos nas bilheterias

 

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