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quarta-feira, março 4, 2026

2020 e a morte na primeira página

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2020 e a morte na primeira página

A morte frequentou 2020 nas primeiras páginas dos jornais. Contabilizada, atualizada, exposta.

Na guerra civil americana, após as tropas retornarem aos seus alojamentos, um grande painel era colocado com o número de mortos no dia – eles também contavam seus mortos diariamente. Quando não havia nenhuma baixa, era inscrita a expressão 0 K (0 killed, ou seja, zero mortos). Dizem que veio daí a expressão OK.

Passamos o ano na expectativa do OK, mas a curva de mortes por coronavírus parecia apenas subir. No Brasil, são quase 200 mil mortes em 2020; no mundo, mais de 1 milhão e setecentas mil. Atualizadas diariamente.

A morte parece ter sido a protagonista da história num ano em que o mundo literalmente parou com medo dela. Personalidade do ano, capa da revista Time: a morte.

O ano vai se despedindo de forma sombria, mas será que ele foi tão mais escuro que os outros? Anualmente, morrem cerca de 1.200.000 pessoal no Brasil. No mundo, são quase 60 milhões. Todos os anos.

A diferença é que nos anos anteriores a morte estava escondida nos obituários da terceira página. Alguma tragédia, chacina ou a morte de um famoso a trazia para a capa, claro, mas não de forma consistente e diuturna. O fato é que sendo notícia de primeira página ou não, ela sempre esteve e estará aqui.

Nunca teremos um ano ou sequer um dia ok. Nossa mortalidade nos acompanha. O branco, a lentilha ou a esperança em vacinas jamais poderão trazer um ano novo afastado dela.

Muitos celebram aprendizados com essa condição de 2020: dar valor para as coisas realmente importantes, estar com a família, valorizar a vida. Salomão disse que há maior sabedoria na casa do luto que na casa de alegria. A morte traz reflexões. Mas Salomão não se referia ao carpem diem, e sim ao coram deo.

Séculos depois, o Padre Antônio Vieira seguiu o argumento: “não é terrível a morte pela vida que acaba, senão pela eternidade que começa”. O olhar mirava além do túmulo, pois se há algo além é preciso considerar isso hoje.

O israelense Yuval Harari diz que a morte era a principal fonte de sentido para o homem, mas que após o projeto de desencantamento do mundo, a morte passou a ser vista apenas como um “problema técnico”, no qual “alguns cientistas em um laboratório darão conta do recado”. Segundo Harari, é improvável que a pandemia de 2020 faça o homem repensar a eternidade (ele incluso); pelo contrário, a tendência é que gastemos cada vez mais tempo e recursos em técnicas para postergar nossa mortalidade.

Num réveillon sem grandes festas, mas no recolhimento e na intimidade, a protagonista do ano espreita 2021. Talvez deixemos de contá-la diariamente, talvez ela deixe de ser notícia e alguns até a esquecerão de todo. Ela estará lá como sempre esteve. Quando o homem celebrar seu último ano novo, haverá, enfim, outra virada?

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

 

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