Diz-se que, quando os deuses querem punir alguém, primeiro o presenteiam com poder. Depois, ficam observando — divertidos — enquanto esse alguém, embriagado pela própria grandeza, caminha em direção ao abismo.
Essa máxima, muitas vezes atribuída a Eurípedes, parece não ser apenas uma alegoria antiga, mas um roteiro que se repete em diferentes épocas e palácios. E nos bastidores da política brasileira, onde a toga do juiz pesa tanto quanto a caneta do presidente, a velha tragédia grega parece ter encontrado novo palco.
Durante muito tempo, o Supremo Tribunal Federal foi percebido como o bastião final da ordem institucional. Guardiões da Constituição, os ministros ocupam um espaço elevado na hierarquia da República — e, muitas vezes, na percepção pública, quase mitológico. Mas eis que, nos últimos meses, o noticiário começou a borrar esse verniz.
Uma reportagem investigativa trouxe à tona o nome do Banco Master, até então mais conhecido no mundo dos negócios e dos bastidores de Brasília, em um enredo que conecta poder financeiro, influências ocultas e decisões sensíveis do mais alto tribunal do país.
Segundo as denúncias, um lobista envolvido com o banco teria transitado com desenvoltura entre ministros do STF, oferecendo facilidades, promovendo encontros e influenciando o circuito decisório de uma forma que incomodou até os mais calejados observadores da política.
As suspeitas recaem, ainda que indiretamente, sobre ministros que participaram de reuniões e viagens patrocinadas por figuras próximas ao banco. A narrativa, como sempre nesses casos, é envolta em versões conflitantes, negações formais e muita cautela institucional.
Mas o dano simbólico já está feito: a imagem do STF como ente imune às tentações do mundo real começa a rachar.
Se olharmos esse episódio sob a lente da filosofia política, encontramos em Michel Foucault uma explicação inquietante. Para ele, o poder não é apenas algo que se exerce de cima para baixo — ele circula, se infiltra, molda comportamentos e silencia resistências.
Num ambiente onde o Judiciário passou a assumir protagonismo político, ultrapassando muitas vezes os limites tradicionais de sua função, é natural que os mecanismos de sedução e pressão que antes estavam restritos ao Executivo ou Legislativo passem a atuar ali também.
Max Weber, por sua vez, falava da tensão entre a “ética da convicção” e a “ética da responsabilidade”. Quando um ministro de corte constitucional acredita ser portador de uma missão redentora — seja contra a corrupção, seja contra o autoritarismo — ele pode começar a ver sua função não como técnica, mas como salvífica. A toga vira armadura, e a crítica, crime. Nesse ponto, a política institucional se mistura com a vaidade pessoal, e o risco de “loucura pelo poder” deixa de ser retórico para se tornar diagnóstico.
O caso do Banco Master não envolve, até o momento, ilegalidades comprovadas. Mas o simples fato de ministros estarem nos círculos de influência de empresários e operadores políticos já acende sinais de alerta. Hannah Arendt, ao analisar o totalitarismo, observou que a banalização de certos comportamentos de poder é o que abre caminho para rupturas mais profundas. Não é o escândalo que destrói a República — é o hábito.
E há um detalhe importante que costuma escapar aos olhos menos atentos: a solidão do poder. Nietzsche dizia que o poder absoluto tende a isolar, e no isolamento, o homem poderoso perde a capacidade de escutar, de perceber o mundo como ele é, e não como gostaria que fosse. Ministros do STF, envolvidos há anos em embates políticos intensos, se tornam alvos de adoração de um lado e de ódio do outro. Com o tempo, qualquer crítica passa a ser percebida como ameaça. E nesse clima, a tentação de se cercar de aliados e bajuladores, de proteger o próprio nome acima da instituição, cresce perigosamente.
Talvez a tragédia maior do poder esteja justamente aí: ele transforma os que o tocam por tempo demais. Transforma servidores em senhores. E quando isso acontece, nem sempre é necessário que os deuses entrem em cena para castigar — o próprio sistema, como um organismo autodefensivo, começa a rejeitar os que ultrapassam seus limites.
No caso dos ministros envolvidos nesse novo episódio, o julgamento talvez não venha pelas mãos de seus pares, mas pelo desgaste progressivo da confiança pública. O STF, como instituição, já enfrentou ataques duros — muitos injustos, outros merecidos —, mas agora parece enfrentar um desafio ainda mais perigoso: o risco da irrelevância moral. E isso, como ensina a história, é o primeiro passo para a derrocada do poder que se acreditava inquestionável.



