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quarta-feira, janeiro 14, 2026

A vacina revela a idade

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A vacina revela a idade

O botox, o preenchimento labial, a tinta escondendo os cabelos brancos – e tudo arruinado pela vacina!

Mas não foi a Coronavac que transformou em jacaré nem foi a forte reação da Pfizer que teve esse efeito. Foi algo mais simples e mais prosaico. A sequência por idade da vacinação arruinou muita gente.

Anos buscando maquiar o tempo e esconder a idade. Anos em torno de um projeto de rejuvenescimento, ou ao menos de parar no tempo. Carinha de mais nova. Ninguém nem desconfia. E ninguém nem pergunta a idade depois de uma certa idade. Mas fica sempre aquela dúvida… Quantos anos ela tem?

Enquanto isso, a fila da vacina vai avançando…

57, 56, 55 anos…

“Já vacinou?” “Eu? Não! Ainda não chegou a minha idade…” (e um ligeiro sorriso de satisfação por falar assim).

48, 47, 46 anos…

Como contagem regressiva, os anos vão pingando e revelando idades Brasília afora. “Puxa, mas ele vacinou já?!” “Falana não vacinou ainda?! Achei que tinha chegado a vez dela”. “E eu achava que ela era do grupo de risco” [= idosa].

41, 39, 38 anos…

Em algum momento dessa contagem chega o momento aguardado, e não tem como fugir. Ela saca o celular e filma a façanha.

Mas então, o dilema: ter de publicar o vídeo tomando a vacina ou deixar para lá e continuar escondendo a idade?

A escolha foi difícil, mas a gente sabe que é obrigatório publicar o vídeo tomando vacina nas redes sociais. É mais forte que a gente, não tem jeito. E ela segue o fluxo, fecha os olhos e aperta publicar com um aperto no peito, temendo ser exposta.

Até ali, tinha dado para enganar muita gente. Mas aquele líquido transparente injetado no braço exigiu sinceridade. Exigiu apresentar a identidade e conferir data de nascimento. Ela achava que falar que tinha tomado a vacina era confissão de idade. E era mesmo!

Mas logo em seguida começou a aceitar o peso dos anos. Passou até a sentir que todos estavam saindo mais amadurecidos do posto de saúde. Num andar maduro, pleno, as pessoas meio que se entreolhavam, pensando fraternalmente “meus contemporâneos!”. Nasceram todos no mesmo ano, mas até então, a depender de procedimentos estéticos, alguns tinham mais, outros menos idade. Hoje igualou tudo de novo.

E assim a vacinação avança retirando as máscaras (com trocadilhos).

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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