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terça-feira, março 3, 2026

Já foi batido?

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Já foi batido?

– O carro já foi batido?

– Não. Está seminovo!

Modéstia à parte, o carro está zerado. Pouco rodado, único dono, bem conservado. Ele dá uma olhada, faz um test-drive e diz que vai querer. Fechamos negócio. Marcamos de ir ao cartório no dia seguinte, de manhã.

Apenas um detalhe, ele me diz ao telefone, à noite. Se eu me importaria de levar o carro a uma loja especializada na Cidade do Automóvel para eles verificarem se o carro já foi batido, se não é roubado…

– Excesso de zelo…

– Ok, sem problemas.

E lá fomos nós dois à tal loja na Cidade do Automóvel. Chegamos cedo. Depois ainda temos de ir ao cartório, e eu tenho uma reunião pela manhã, será que vai dar tempo?

Sentamo-nos num sofá surrado, comprador e vendedor frente a frente. Trocamos conversas sobre banalidades para matar o tempo. O carro está lá fora, dá para ver através de uma vidraça do lobby.

Ele se empolgou sobre algum assunto que engrenou, e me perguntou com curiosidade a minha opinião. Mas agora eu estava distraído, com olhos fixos adiante, no meu carro que seria vendido.

Quatro funcionários da dita loja, uniformizados, com uma série de instrumentos, começaram uma investigação completa para cima do meu querido carro. Um tinha uma espécie de martelo com o qual dava pequenas batidas na lataria; o outro abaixado analisava os pneus; um terceiro conferia o número do chassi; o quarto lia detidamente uma série de documentos e voltava os olhos para o carro.

Fiquei nervoso. Parei a conversa e me restringi a monossílabos. Será que meu carro já foi batido?  Enquanto o comprador tentava retomar a conversa, eu só tinha atenção para aquela inquisição automotiva, temendo ser condenado na fogueira da heresia. Mais batidas na lataria… Será que eu fui traído pela minha memória? Agora levantaram o capô… Estão abaixando os vidros… Será que o carro é roubado?

Não, meu carro nunca foi batido nem roubado. Mas nenhum carro passaria naquele teste avançado. Os homens terminaram o serviço lá fora. A moça da recepção, com um sorriso afável, informou que só estavam imprimindo o laudo técnico.

Quis me antecipar e confessar minha culpa para evitar a vergonha. Mas aguardei ansioso pelo laudo. Os papéis foram impressos e entregues nas mãos do comprador. Fechei os olhos, como quem se nega a assistir a batida do último pênalti, e aguardei ele desfazer o negócio ali mesmo.

– Prontinho. Está tudo certo, podemos ir ao cartório!

Eu estava certo! O carro nunca havia sido batido!

Eu vencera a luta contra aqueles quatro inquisidores, aqueles vilões que tentaram desfazer um negócio lídimo, aqueles quatro que se lançaram sem pudor contra o meu querido carro, que agora já não é meu porque enfim consegui vendê-lo.

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