24.5 C
Brasília
quinta-feira, março 5, 2026

mimeógrafo ao QR Code: José Sóter celebra novas tecnologias sem abrir mão da poesia*

Date:

Share post:

Quase cinco décadas depois de começar a rodar seus primeiros “livrins” em mimeógrafos espalhados por escolas públicas de Brasília, o poeta José Luiz do Nascimento Sóter olha para o presente com o mesmo espírito experimental que marcou sua geração. Para ele, a poesia sobrevive — apenas muda de suporte. “Ontem era o mimeógrafo. Hoje é o laser, o QR Code e até a Inteligência Artificial. O livro, como o rádio, vai durar, mesmo que como fetiche”, afirma o poeta ícone da Geração Mimeógrafo.
Para o também professor, livros atuais podem incorporar QR Codes que direcionam para áudios e vídeos com os próprios autores lendo seus poemas, ampliando a experiência e tornando as obras mais inclusivas, quase como uma evolução na história do livro. “Colocávamos cores nos livros mimeografados; agora colocamos voz e imagem”, resume.

Nascido em Catalão (GO), em dezembro de 1953, Sóter começou cedo a se encantar pela palavra. Ainda menino, fazia trovinhas e assistia aos desafios poéticos nos pagodes da roça. Lia o que chegava às pequenas estantes do interior: almanaques populares, romances de bolso e, mais tarde, clássicos da poesia brasileira e mundial. Durante a ditadura militar, recorda, as leituras eram limitadas pela censura — mas isso não impediu que a inquietação literária crescesse.

No fim da década de 1970, em meio ao ambiente político repressivo, jovens escritores de Brasília encontraram no mimeógrafo uma ferramenta de liberdade. Assim nasceu a chamada Geração Mimeógrafo, movimento que marcou a cena cultural da capital entre os anos 1978 e 1998.
A proposta era simples e radical: produzir livros de forma artesanal, fora do circuito editorial tradicional, e vendê-los diretamente ao público em bares, teatros e saraus. Não havia ISBN, código de barras ou contratos. “Havia pressa, criatividade e desejo de circulação”, avalia o eterno poeta.

Entre os nomes que despontaram naquele período estão Nicolas Behr, autor de Iogurte com Farinha, e Paulo Tovar, com A Feira. Sóter publicou Início e Fim nesse mesmo contexto. “Somos a única geração literária que tem o nome da ferramenta utilizada no próprio nome”, costuma dizer.
A poesia era marcada pelo humor e pela irreverência, dialogando com referências como Oswald de Andrade e Fernando Pessoa, numa tentativa de driblar o peso da censura com leveza e ironia.
Uma ideia na cabeça, um livro na mão

A dinâmica era quase cinematográfica. “Dormia-se com uma ideia e amanhecia com um livrim pronto para ser distribuído”, relembra. A circulação era “mano a mano”: os exemplares eram vendidos ou até lançados fisicamente ao público durante eventos. O uso do estêncil eletrônico permitia incluir ilustrações e experimentar diagramações.

A movimentação extrapolou o Distrito Federal e dialogou com outros polos da poesia marginal no Brasil, conectando Brasília a cidades como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Goiânia.
Atualmente, Sóter enxerga continuidade entre o passado artesanal e as ferramentas contemporâneas, com a essência de sempre: democratizar o acesso à palavra. Livros atuais podem incorporar QR Codes que direcionam para áudios e vídeos com os próprios autores lendo seus poemas, ampliando a experiência e tornando as obras mais inclusivas. “Colocávamos cores nos livros mimeografados; agora colocamos voz e imagem”, resume.

*Educação e legado*

Professor por muitos anos, o poeta sempre incentivou a leitura como instrumento de liberdade crítica. Avalia que as novas gerações vivem sob uma avalanche de informações instantâneas e defende que a escola crie espaços de debate para contextualizar esse fluxo contínuo.

Prestes a completar 50 anos, a Geração Mimeógrafo segue ativa, segundo ele, sem hierarquias e aberta às novas vozes. Um espírito que define como coletivo: “sou porque somos”. E para quem deseja compreender a dimensão histórica do movimento, Sóter recomenda as obras Poesia Marginal, Política e Cidade, de Wélcio de Toledo, e As Margens do Tempo, de Erivelto Carvalho. Além do QR Code.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

spot_img
publicidade

Related articles

Paula Belmonte leva “cheque em branco” e denuncia risco bilionário no BRB

Deputada denuncia risco de transferência de patrimônio público sem transparência e alerta para consequências à população do DF_ A...

Paulo Octávio: 90% dos brasileiros nunca visitaram Brasília

Durante o Plano de Voo 2026, da Amcham Brasil — maior câmara americana fora dos Estados Unidos e a...

Quando o queijo é de graça: poder, armadilhas e a política da ingenuidade

A frase “ratos morrem em ratoeiras porque não entendem por que o queijo é de graça” funciona como...

Com a senadora Leila, Paula Belmonte acompanha entrega do asfalto do acesso à Escola Córrego das Corujas

Obra de pavimentação garante mais segurança, dignidade e mobilidade para estudantes da zona rural de Ceilândia_ A deputada distrital...