Quase cinco décadas depois de começar a rodar seus primeiros “livrins” em mimeógrafos espalhados por escolas públicas de Brasília, o poeta José Luiz do Nascimento Sóter olha para o presente com o mesmo espírito experimental que marcou sua geração. Para ele, a poesia sobrevive — apenas muda de suporte. “Ontem era o mimeógrafo. Hoje é o laser, o QR Code e até a Inteligência Artificial. O livro, como o rádio, vai durar, mesmo que como fetiche”, afirma o poeta ícone da Geração Mimeógrafo.
Para o também professor, livros atuais podem incorporar QR Codes que direcionam para áudios e vídeos com os próprios autores lendo seus poemas, ampliando a experiência e tornando as obras mais inclusivas, quase como uma evolução na história do livro. “Colocávamos cores nos livros mimeografados; agora colocamos voz e imagem”, resume.
Nascido em Catalão (GO), em dezembro de 1953, Sóter começou cedo a se encantar pela palavra. Ainda menino, fazia trovinhas e assistia aos desafios poéticos nos pagodes da roça. Lia o que chegava às pequenas estantes do interior: almanaques populares, romances de bolso e, mais tarde, clássicos da poesia brasileira e mundial. Durante a ditadura militar, recorda, as leituras eram limitadas pela censura — mas isso não impediu que a inquietação literária crescesse.
No fim da década de 1970, em meio ao ambiente político repressivo, jovens escritores de Brasília encontraram no mimeógrafo uma ferramenta de liberdade. Assim nasceu a chamada Geração Mimeógrafo, movimento que marcou a cena cultural da capital entre os anos 1978 e 1998.
A proposta era simples e radical: produzir livros de forma artesanal, fora do circuito editorial tradicional, e vendê-los diretamente ao público em bares, teatros e saraus. Não havia ISBN, código de barras ou contratos. “Havia pressa, criatividade e desejo de circulação”, avalia o eterno poeta.
Entre os nomes que despontaram naquele período estão Nicolas Behr, autor de Iogurte com Farinha, e Paulo Tovar, com A Feira. Sóter publicou Início e Fim nesse mesmo contexto. “Somos a única geração literária que tem o nome da ferramenta utilizada no próprio nome”, costuma dizer.
A poesia era marcada pelo humor e pela irreverência, dialogando com referências como Oswald de Andrade e Fernando Pessoa, numa tentativa de driblar o peso da censura com leveza e ironia.
Uma ideia na cabeça, um livro na mão
A dinâmica era quase cinematográfica. “Dormia-se com uma ideia e amanhecia com um livrim pronto para ser distribuído”, relembra. A circulação era “mano a mano”: os exemplares eram vendidos ou até lançados fisicamente ao público durante eventos. O uso do estêncil eletrônico permitia incluir ilustrações e experimentar diagramações.
A movimentação extrapolou o Distrito Federal e dialogou com outros polos da poesia marginal no Brasil, conectando Brasília a cidades como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Goiânia.
Atualmente, Sóter enxerga continuidade entre o passado artesanal e as ferramentas contemporâneas, com a essência de sempre: democratizar o acesso à palavra. Livros atuais podem incorporar QR Codes que direcionam para áudios e vídeos com os próprios autores lendo seus poemas, ampliando a experiência e tornando as obras mais inclusivas. “Colocávamos cores nos livros mimeografados; agora colocamos voz e imagem”, resume.
*Educação e legado*
Professor por muitos anos, o poeta sempre incentivou a leitura como instrumento de liberdade crítica. Avalia que as novas gerações vivem sob uma avalanche de informações instantâneas e defende que a escola crie espaços de debate para contextualizar esse fluxo contínuo.
Prestes a completar 50 anos, a Geração Mimeógrafo segue ativa, segundo ele, sem hierarquias e aberta às novas vozes. Um espírito que define como coletivo: “sou porque somos”. E para quem deseja compreender a dimensão histórica do movimento, Sóter recomenda as obras Poesia Marginal, Política e Cidade, de Wélcio de Toledo, e As Margens do Tempo, de Erivelto Carvalho. Além do QR Code.



