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terça-feira, maio 12, 2026

A banca que virou point da Copa

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Na 416 Sul, em Brasília, ponto tradicional se reinventa e reúne gerações em torno da febre das figurinhas da Copa.

Por Ana Volpe

Em Brasília, cidade marcada pela arquitetura planejada e pela força da política, pequenos espaços do cotidiano seguem revelando histórias que resistem ao tempo. Em meio à velocidade das transformações digitais e à queda no consumo de jornais impressos, uma banca na 416 Sul mantém viva uma tradição que atravessa gerações e encontra novas formas de se reinventar.

O que antes era apenas um ponto de venda de jornais e revistas hoje funciona também como espaço de encontro, convivência e troca. Entre conversas, memórias e o vai e vem de clientes, o local acompanha as mudanças do comportamento urbano e do consumo de informação.

Nos últimos meses, um fenômeno específico trouxe novo movimento e deu novo significado ao espaço: a febre dos álbuns de figurinhas da Copa do Mundo. Crianças e adolescentes passaram a ocupar diariamente a área ao redor da banca, transformando o local em um ponto espontâneo de encontro.
Grupos se formam ao longo do dia para comprar as figurinhas da Copa na banca da 416 Sul. Sentados em bancos, encostados nas paredes ou reunidos em mesas improvisadas, os jovens transformam o local em um verdadeiro ponto de encontro da comunidade. Entre risadas e conversas animadas, trocam figurinhas repetidas, negociam álbuns, discutem sobre futebol e brincam entre si.

O tradicional jogo do “bafo”, que marcou gerações, voltou a fazer parte da rotina da banca, reunindo crianças e adolescentes das seis escolas próximas em torno da mesma diversão. A movimentação constante faz da banca não apenas um espaço de comércio, mas também um ambiente de convivência e integração entre os jovens da região.

“Eles vêm, trocam figurinha, jogam ‘bafo’ e ficam por aqui. É uma festa”, resume o comerciante Luiz Fernandes Escorcio Lima, conhecido como Sequinho.
Uma vida ligada à banca e à cidade
À frente do espaço está Luiz Fernandes Escorcio Lima, de 76 anos. Sua trajetória se confunde com a própria história de Brasília.

Natural de Parnaíba, no Piauí, ele chegou à capital federal em 1962, vindo de São Luís do Maranhão. Encontrou uma cidade ainda em formação, com ruas de terra e pouca estrutura urbana.

Começou a trabalhar ainda jovem na banca da família, herdada da mãe, Helena Escorcio Lima, figura central na origem do negócio. Desde então, nunca mais deixou o local.

Ao longo das décadas, acompanhou de perto a transformação da região. A 416 Sul, que antes era marcada por terrenos simples e pouca movimentação, tornou-se uma área consolidada, cercada por escolas, comércio e grande circulação de pessoas.

A presença dessas instituições influencia diretamente o movimento da banca. “Aqui perto tem uma, duas, três escolas… tem o Marista, o Coração de Jesus, o Blue, a escola da 416 e a da 214”, relata.
Circulação entre políticos, imprensa e militares

O trabalho na banca nunca se restringiu ao balcão. Durante anos, Sequinho também atuou na entrega de jornais e revistas, o que lhe abriu portas para circular por diferentes ambientes da capital federal e conhecer de perto seus bastidores.

Ele realizava entregas para jornalistas, órgãos públicos e unidades militares, estabelecendo proximidade com esses grupos. Nas redações, criou vínculos com profissionais da imprensa, acompanhando de perto o funcionamento do jornalismo e suas rotinas. No meio político, frequentou gabinetes e teve contato direto com o cotidiano institucional, observando articulações e decisões que moldavam o país.

Entre os militares, percebeu uma demanda específica por conteúdos especializados, especialmente revistas voltadas à área de defesa e tecnologia. Esse convívio resultou não apenas em clientes fiéis, mas também em amizades e trocas de opinião sobre temas relevantes da época, inclusive debates informais sobre questões políticas e jurídicas.

Essa intensa circulação ampliou significativamente sua rede de contatos e lhe proporcionou uma vivência singular nos bastidores de Brasília, tornando-o uma testemunha privilegiada de diferentes esferas de poder que se cruzam na cidade.

A transformação do mercado

A chegada da internet representou uma mudança profunda no funcionamento das bancas de jornal. O acesso rápido e gratuito à informação no ambiente digital reduziu significativamente a venda de jornais e revistas impressas, afetando diretamente um modelo de negócio que por décadas foi essencial na rotina urbana.
Com o avanço das redes sociais, esse impacto se intensificou ainda mais. O hábito de leitura migrou para as telas, e o consumidor passou a buscar informação em tempo real, muitas vezes abrindo mão do formato impresso. O que antes era um ponto de encontro para atualização diária se transformou, aos poucos, em um espaço com menor fluxo e novas demandas.

Hoje, o volume de vendas representa apenas uma pequena parcela do que já foi no passado. Diante desse cenário, a adaptação deixou de ser uma escolha e se tornou uma necessidade para a sobrevivência.

Sequinho, atento a essas mudanças, buscou alternativas para manter a banca ativa. Ele continua oferecendo produtos tradicionais, como palavras cruzadas e revistas de tecnologia, sustentados por uma clientela fiel que resiste ao digital. Ao mesmo tempo, diversificou o negócio, passando a vender material escolar e incorporando um pequeno “mercadinho”, ampliando as possibilidades de renda e atraindo novos clientes.

Essa reinvenção mostra não apenas a transformação do mercado, mas também a capacidade de adaptação de quem construiu sua história dentro dele.

A febre das figurinhas muda a dinâmica
Se antes o movimento da banca era mais tranquilo e previsível, a febre das figurinhas da Copa do Mundo transformou completamente a dinâmica do espaço. O que durante anos funcionou como um ponto de passagem cotidiano passou a assumir o papel de um verdadeiro ponto de encontro, especialmente nos horários de saída das escolas.

Localizada próxima a várias instituições de ensino, cerca de seis escolas ao redor, a banca passou a atrair diariamente uma grande quantidade de estudantes. O fluxo se intensificou de forma expressiva, criando momentos de grande concentração de jovens. Em determinados dias, o local chega a reunir dezenas e até centenas de crianças e adolescentes, todos movidos pelo interesse em completar seus álbuns.
“Tem dia que eu espero pelo menos 50 adolescentes. Já teve dia de atender centenas”, relata Sequinho, destacando a intensidade desse movimento e a mudança na rotina de trabalho.

O ambiente se transforma ao longo do dia. No lugar do silêncio típico de outros períodos, surgem vozes, risadas e negociações animadas. Grupos se organizam espontaneamente, ocupando bancos, calçadas e mesas improvisadas em frente à banca. As trocas de figurinhas acontecem a todo momento, enquanto crianças e adolescentes discutem quais jogadores faltam no álbum, negociam repetidas e celebram cada figurinha rara encontrada. Em meio à movimentação, novas amizades se formam a partir de um interesse em comum: as figurinhas da Copa do Mundo.

Esse fenômeno também resgata práticas que, em grande parte, haviam sido reduzidas com o avanço da tecnologia digital. Em vez de interações mediadas por telas, o que se vê é o contato direto, a conversa olho no olho e a construção de relações no espaço físico da cidade. A banca, nesse contexto, ganha uma nova função.

Mais do que um comércio, o local passa a desempenhar um papel social relevante. Torna-se um ambiente de convivência, de aprendizado informal e de troca de experiências entre diferentes grupos. Para muitos jovens, é um dos poucos espaços onde podem se reunir de forma espontânea, fora do ambiente escolar e longe do ambiente virtual.

Para Sequinho, essa nova dinâmica representa também um respiro em meio às transformações do mercado. Se por um lado a venda tradicional de jornais e revistas diminuiu ao longo dos anos, por outro, momentos como a febre das figurinhas mostram que a banca ainda pode se reinventar e continuar sendo um ponto vivo na comunidade.

Convivência e juventude

A presença constante de jovens mudou profundamente a dinâmica da banca, criando um ambiente mais ativo, barulhento e ao mesmo tempo mais vivo. O espaço, que em outros períodos do dia pode ser mais tranquilo, ganha uma energia própria quando os estudantes chegam, transformando completamente a rotina.

“Eu amo lidar com a adolescência”, afirma Sequinho, destacando a relação próxima que construiu com esse público ao longo dos anos.

Segundo ele, o contato diário vai muito além da venda de produtos. Há uma troca constante de experiências, conversas sobre assuntos variados e curiosidades que surgem de forma espontânea. Os jovens perguntam, comentam, compartilham opiniões e trazem novas perspectivas sobre o mundo, o que torna o ambiente dinâmico e inesperado.

Essa convivência também cria um espaço de aprendizado informal. Entre uma venda e outra, surgem diálogos sobre escola, futebol, política, tecnologia, redes sociais e até sobre temas mais amplos do cotidiano. A banca passa a funcionar como um ponto de encontro intergeracional, onde diferentes visões se cruzam em um mesmo espaço físico.

A visão de quem frequenta

A banca também é frequentada por clientes habituais, como Wellington, morador da quadra, que acompanha o movimento há cerca de três anos.

Ele relata que o espaço acabou se tornando mais do que um ponto de compra, funcionando também como lugar de convivência.

“Eu sou o Wellington. Conheço o Sequinho há uns três anos. Eu venho aqui, compro revista, principalmente palavra cruzada e revista científica”, afirma.

Segundo ele, a banca mantém uma variedade de produtos voltados para públicos diferentes, incluindo revistas infantis, figurinhas da Copa, materiais escolares e publicações específicas.

“Hoje em dia tem de tudo um pouco. Tem coisa de criança, coisa de escola e até revista do Maurício de Sousa. É bem variado”, comenta.

Wellington também destaca o papel do local como ponto de parada no dia a dia, onde as pessoas acabam interagindo com o comerciante e com outros frequentadores.
Um espaço que resiste
Mesmo diante das transformações tecnológicas e econômicas das últimas décadas, a banca da 416 Sul segue ativa como um ponto de encontro em Brasília. O avanço da internet, a mudança nos hábitos de leitura e a digitalização da informação reduziram drasticamente o consumo de produtos impressos, mas não eliminaram a importância do espaço físico.

Entre tradição e adaptação, o local mantém algo cada vez mais raro nos centros urbanos: o contato direto entre as pessoas. Em um cotidiano marcado por telas, notificações e interações virtuais, a banca preserva o encontro presencial, o diálogo espontâneo e a convivência cotidiana.

Ali ainda há tempo para conversa sem pressa, para troca de ideias e para relações que nascem do simples ato de estar presente. Mais recentemente, esse cenário passou a ser marcado também pelo som das figurinhas sendo batidas nas mesas, pelas negociações animadas e pela movimentação constante dos jovens.
Assim, a banca não apenas resiste às mudanças, mas se reinventa a partir delas, mantendo-se como um pequeno, porém significativo, ponto de encontro na cidade.

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