A vida tece teias que nem a própria aranha é capaz de arranhar com a magia de seus fios de seda e manhas.
Gilberto Gil se tornou imortal na tarde do mesmo dia em que a jornalista e colega Cris Lôbo (Globonews) se encontrou com a morte.
Anos antes, talvez em 2002, protagonizei e ao mesmo tempo fui testemunha-participativa de um marcante encontro entre ambos: Gil estava se transformando em Ministro da Cultura do governo Lula e Cris deu um furo de reportagem sobre o assunto – o que para um jornalista vale tanto quanto virar ministro da Cultura.
Foi assim: estava eu no meu tranquilo e acomodado emprego de assessor de imprensa da Câmara Legislativa de Brasília, quando recebo uma ligação do antropólogo, escritor e poeta Antônio Risério me dando uma missão.
Teria de ir para o aeroporto de Brasília receber o cantor e compositor Gilberto Gil, meu conhecido da Bahia/Salvador e de outras entrevistas, para acompanhá-lo ao Hotel Blue Tree, na beira do lago Paranoá, onde funcionava o QG da montagem do governo Lula.

Gil era a “noiva” do momento e iria conversar com o futuro presidente sobre sua possível participação no governo. Ele vinha da Bahia e era sexta-feira. Como um bom filho de Logun Edé, vestia-se todo de branco num lindo pano solto e meio amassado. No pescoço contas de Oxalá, Ogun, Oxossi e Iansã. Detalhe: estava de sandália de dedos. Era o próprio guru que vinha abençoar o governo popular que se instalava em Brasília.
Você que vai me acompanhar lá? Ele perguntou. Disse que sim e partimos num carro do governo de transição que nos esperava no aeroporto.
No caminho conversamos pouco e o carro entrou pela garagem. A missão era secreta. Gil foi recebido pelo cerimonial e eu fiquei sentado numa ante-sala tentando entender onde havia me metido.
De repente, vindo não se sabe de onde, pousa à minha frente Cris Lôbo perguntando o que estava fazendo ali. “Acompanhando Gil”, eu disse.
Minutos depois a notícia estava no ar e a Cris, colega de trabalho em Brasília, me colocava contra a parede: “A TV quer uma exclusiva com ele”. Lascou-se!
Gil veio da Bahia cheio de orientação dos seus padrinhos: Risério, João Santana e Roberto Pinho, todos do time do Palocci. Era para falar pouca coisa ou quase nada, mas Gil aceitou dar a entrevista para Cris Lôbo e, fora a gravação, eles conversaram bastante. Dali nasceu uma confiança e uma amizade. Cris era de Goiás Velho, terra de Cora Coralina. Gil apaixonado por Patrimônios Culturais. E assim, 20 anos depois, numa simples tarde brasileiramente chuvosa, me lembrei dessa passagem mágica.

Gil agora “mortalmente imortal”, como ele mesmo disse; e Cris Lôbo “espiritualmente imortal”, pois foi uma jornalista que sabia como ninguém tratar uma notícia para além da vida e da morte.
Por: Luis Turiba



