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segunda-feira, janeiro 26, 2026

IMORTALMENTE MORTAL

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A vida tece teias que nem a própria aranha é capaz de arranhar com a magia de seus fios de seda e manhas.

Gilberto Gil se tornou imortal na tarde do mesmo dia em que a jornalista e colega Cris Lôbo (Globonews) se encontrou com a morte.

Anos antes, talvez em 2002, protagonizei e ao mesmo tempo fui testemunha-participativa de um marcante encontro entre ambos: Gil estava se transformando em Ministro da Cultura do governo Lula e Cris deu um furo de reportagem sobre o assunto – o que para um jornalista vale tanto quanto virar ministro da Cultura.
Foi assim: estava eu no meu tranquilo e acomodado emprego de assessor de imprensa da Câmara Legislativa de Brasília, quando  recebo uma ligação do antropólogo, escritor e poeta Antônio Risério me dando uma missão.

Teria de ir para o aeroporto de Brasília receber o cantor e compositor Gilberto Gil, meu conhecido da Bahia/Salvador e de outras entrevistas, para acompanhá-lo ao Hotel Blue Tree, na beira do lago Paranoá, onde funcionava o QG da montagem do governo Lula.

Gil era a “noiva” do momento e iria conversar com o futuro presidente sobre sua possível participação no governo. Ele vinha da Bahia e era sexta-feira. Como um bom filho de Logun Edé, vestia-se todo de branco num lindo pano solto e meio amassado. No pescoço contas de Oxalá, Ogun, Oxossi e Iansã. Detalhe: estava de sandália de dedos. Era o próprio guru que  vinha abençoar o governo popular que se instalava em Brasília.

Você que vai me acompanhar lá? Ele perguntou. Disse que sim e partimos num carro do governo de transição que nos esperava no aeroporto.

No caminho conversamos pouco e o carro entrou pela garagem. A missão era secreta. Gil foi recebido pelo cerimonial e eu fiquei sentado numa ante-sala tentando  entender onde havia me metido.

De repente, vindo não se sabe de onde, pousa à minha frente Cris Lôbo perguntando o que estava fazendo ali. “Acompanhando Gil”, eu disse.
Minutos depois a notícia estava no ar e a Cris, colega de trabalho em Brasília, me colocava contra a parede: “A TV quer uma exclusiva com ele”. Lascou-se!

Gil veio da Bahia cheio de orientação dos seus padrinhos: Risério, João Santana e Roberto Pinho, todos do time do Palocci. Era para falar pouca coisa ou quase nada, mas Gil aceitou dar a entrevista para Cris Lôbo e, fora a gravação, eles conversaram bastante. Dali nasceu uma confiança e uma amizade. Cris era de Goiás Velho, terra de Cora Coralina. Gil apaixonado por Patrimônios Culturais. E assim, 20 anos depois, numa simples tarde brasileiramente chuvosa, me lembrei dessa passagem mágica.

Cris Lôbo “espiritualmente imortal”, pois foi uma jornalista que sabia como ninguém tratar uma notícia para além da vida e da morte.

Gil agora “mortalmente imortal”, como ele mesmo disse; e Cris Lôbo “espiritualmente imortal”, pois foi uma jornalista que sabia como ninguém tratar uma notícia para além da vida e da morte.

Por: Luis Turiba

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