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domingo, julho 21, 2024

Museu Nacional mostra “Brasil Futuro”

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Museu Nacional mostra “Brasil Futuro”

Exposição celebra debate democrático sobre cultura nacional

O Museu Nacional da República (MuN), qual espaçonave estacionada na Esplanada dos Ministérios, vai fazer decolar exposição que aponta para o avanço do diálogo democrático sobre a diversidade cultural e a identidade do país. “Brasil Futuro: as Formas da Democracia” reúne mais de cem obras de arte propondo esse debate no equipamento da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF (Secec). A mostra abre para o público no dia seguinte ao da posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, 2 de janeiro, e é parte das atrações para marcar a mudança de governo. Poderá ser visitada até 26 de fevereiro, no espaço expositivo principal, com entrada gratuita.

A diretora do MuN, Sara Seilert, comemora a iniciativa: “destaco a importância da exposição como marco da retomada do pensamento democrático no setor da cultura e das artes pelo governo federal, com a reconstrução do Ministério da Cultura e a esperança de mais valorização de uma produção artística brasileira bastante diversa, dos acervos e dos museus públicos”.

As obras expostas estão organizadas em três grupos. Um celebra a democracia e busca resgatar os símbolos nacionais. Outro revisita pautas do feminismo, da negritude, dos povos originários, do movimento LGBTQIA+ e da diversidade de olhares. Um terceiro convida o público a refletir sobre a riqueza étnica, de gênero, regional e de linguagens presentes na cultura do Brasil. O arranjo produz três núcleos expositivos, nomeados, respectivamente, “Retomar Símbolos”, “Decolonialidade” e “Somos Nós”.

Foto: Marina Gadelha

CURADORIA

A curadoria de “Brasil Futuro” é de uma equipe formada pela historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, o arquiteto Rogério Carvalho, o ator Paulo Vieira e o secretário de Cultura do Partido dos Trabalhadores (PT), Márcio Tavares. A exposição soma-se ao evento “Festival do Futuro”, também na Esplanada, com shows de artistas regionais e nacionais, em 1º de janeiro, e ao rito de passagem de governo.

“O termo ‘futuro’ no título da exposição tem a ver com a ideia de que democracia é sempre um projeto em aberto, a ser aperfeiçoado. Essa é ao mesmo a beleza e a dificuldade da democracia”, declara Schwarcz, professora na Universidade de São Paulo (USP), autora de dezenas de livros e artigos sobre autoritarismo, racismo, feminismo e outros temas que buscam explicar o conservadorismo das elites brasileiras.

A noção de “formas”, também presente no título da exposição, refere-se – segundo a detentora de sete Jabutis, o mais tradicional prêmio literário do Brasil – às artes plásticas e aos artistas, “que foram tão prejudicados no governo Bolsonaro e resistiram, tendo um papel muito relevante ao pressionar por democracia”, diz Schwarcz.

BANDEIRA

A curadora explica que a exposição reúne obras de negros, negras, indígenas, artistas da comunidade LGBTQIA+, criadores populares e históricos a fim de ressignificar a Bandeira do Brasil “de maneira afetiva, como deve ser”. Ela considera que esse núcleo, nomeado “Retomar Símbolos”, é “muito forte, pois verde e amarelo aparecem junto a outras cores possíveis e a outras sensibilidades manifestadas diante desse ícone da nossa nacionalidade”.

“Decolonialidade”, afirma a curadora, remete à diversidade social e à maneira como o público pode reler a história do Brasil. “A ideia é apresentar obras que questionam e desconstroem o nosso projeto de história, tão colonial, europeu, branco e masculino, e incluir outras possibilidades e outras pautas identitárias”.

No núcleo “Somos nós”, Schwarcz destaca “a diversidade e o gigantismo do nosso país, que é nossa riqueza”. O grupo inclui, anota a pesquisadora, obras “tensionadas por marcadores sociais da diferença, como raça, gênero e sexo, região e geração, criando um grande caleidoscópio da cultura brasileira”.

Foto: Marina Gadelha

ACERVO

Cerca de metade das obras expostas são dos acervos do MuN, do Museu de Arte de Brasília (MAB) e da Presidência da República. A tela “Orixás” (1962), de Djanira da Motta e Silva (1914-79), terá lugar especial na exposição. A obra, que havia sido retirada do Salão Nobre do Palácio do Planalto em dezembro de 2019, pelo fato de sua temática ser ligada a culto religioso de origem afro-brasileira, pode ser apreciada novamente. A outra parte das peças de arte foi emprestada para a exposição por galerias e colecionadores.

A indígena Daiara Hori Figueroa Sampaio, a Daiara Tukano, referência à sua etnia, presente no Alto Rio Negro, na Amazônia brasileira, nascida em São Paulo, artista, ativista, educadora e comunicadora, graduada e mestre pela Universidade de Brasília (UnB), produziu uma tela especialmente para a exposição. O quadro frisa a importância dos povos originários na luta pela preservação da vida no planeta. Em tinta acrílica sobre tela, com quatro metros de largura por dois de altura, teve de ser produzida no próprio MuN. “Pintei numa semana e teve de ser lá porque não tinha espaço para fazer isso em casa”, conta ela, também pesquisadora do direito à memória e à verdade dos povos originários.

Com o poético título de “A queda do céu e a mãe de todas as lutas”, o quadro de Daiara traz referência sutil à escultura de Michelangelo “Pietá”, em que o corpo de Cristo é acolhido sem vida no colo de Maria. “É uma das provocações que estão lá, mas não a única”, atalha a artista indígena. O título também faz referência ao xamanismo Yanomami registrado no livro “A queda do Céu”, (Davi Kopenawa e Bruce Albert, 2015), sobre como os indígenas são responsáveis por manter a floresta em pé. Isso no momento em que a questão do aquecimento global está no topo da agenda ambientalista no mundo todo e tem em Lula um protagonista, como ficou claro na COP-27 (Conferência das Partes – Organização das Nações Unidas), em novembro, no Egito.

“É ao mesmo tempo uma imagem de luto e de luta diante dos desafios que a humanidade tem de enfrentar diante da fragilidade da vida”, formula Daiara. Na tela, duas onças cercam o que evoca uma figura materna (mãe terra?) que abraça um corpo que pende (a humanidade?). As respostas ficam para o público, que encontrará, no seio da nave do MuN, diametralmente frente a frente, a tela da representante da etnia tukana e a banida “Orixás”, resgatada pela democracia. Sem dúvida, uma rica construção simbólica.

Foto: Marina Gadelha

SERVIÇO

Museu Nacional da República

“Brasil Futuro: as Formas da Democracia”

Exposição coletiva

Curadoria de Lilia Schwarcz, Rogério Carvalho, Paulo Vieira e Márcio Tavares.

2 de janeiro a 26 de fevereiro

Horário de visitação: terça-feira a domingo – das 9h às 18h30

Galeria Principal

Continuam

“Aqui Estou – Corpo, paisagem e política no acervo do MuN”

Curadoria de Sabrina Moura

Mezanino

até 2 de julho

“As matérias vivas de Antônio Poteiro – barro, cor e poesia”

Curadoria de Divino Sobral

Galeria Terreo e Sala 2

Até 12 de fevereiro

Entrada Franca

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