Aprender a ser uma boa companhia para si mesmo é um ato silencioso de coragem. Em um mundo que insiste em nos convencer de que só somos completos quando estamos acompanhados, escolher a própria presença é quase um gesto revolucionário.
Todas as outras companhias são temporárias, por mais intensas ou verdadeiras que pareçam. A única que atravessa todas as fases da vida, do nascimento ao último suspiro, é você. E isso não é solidão; é soberania.
O filósofo francês Michel de Montaigne escreveu em seus Ensaios, no século XVI, que “a maior coisa do mundo é saber ser dono de si mesmo”. Essa frase, retirada de um conjunto de reflexões profundamente pessoais, mostra que a autonomia interior sempre foi um desafio humano.
Montaigne defendia o recolhimento consciente, não como fuga do mundo, mas como forma de fortalecer o caráter. Quando você se sente confortável consigo, deixa de implorar por validação externa e passa a escolher relações por afinidade, não por carência.
Na prática, ser boa companhia para si mesmo significa saber ficar em silêncio sem ansiedade, tomar um café sozinho sem se sentir incompleto, refletir sobre erros sem se destruir. É transformar o tempo consigo em um espaço de aprendizado. O estoico Epicteto, em seu Manual (Enchiridion), afirmava: “Não são as coisas que perturbam os homens, mas as opiniões que eles têm sobre elas”. Essa ideia reforça que a qualidade da nossa companhia interna define como vivemos qualquer situação externa. Se a mente é um lugar hostil, nenhuma presença salva; se é um lugar pacífico, quase tudo se resolve.
A sociedade moderna, como analisou o sociólogo Zygmunt Bauman em Amor Líquido, nos empurra para relações frágeis e descartáveis. Segundo ele, os vínculos tornaram-se líquidos porque as pessoas têm medo do compromisso e da profundidade. Nesse cenário, quem não sabe estar consigo mesmo acaba pulando de relação em relação, tentando preencher um vazio que não é afetivo, é existencial. Quando você se torna sua própria base, não aceita migalhas emocionais nem vínculos que drenam sua energia.
Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, escreveu em Em Busca de Sentido que o ser humano suporta quase qualquer “como” quando encontra um “porquê”. Esse “porquê” nasce no diálogo interno, na capacidade de dar sentido à própria experiência. Ser boa companhia para si mesmo é ouvir esse diálogo, ajustar rotas e seguir adiante com dignidade, mesmo quando ninguém mais está por perto.
No fim, todas as pessoas que você ama podem partir, mudar ou simplesmente seguir outro caminho. Isso não diminui o valor delas, apenas lembra uma verdade simples: você precisa ser um lar para si. Quando aprende isso, a solidão deixa de ser ameaça e vira aliada. E paradoxalmente, é aí que as melhores companhias aparecem, não para completar você, mas para caminhar ao seu lado enquanto fizer sentido.



