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quarta-feira, abril 29, 2026

Anos 20

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Anos 20

Por: Rodrigo Bedritichuk

Engravidar, esperar nove meses, e, somente após o nascimento, ver se o bebê é menino ou menina, e enfim dar-lhe um nome. Isso é tão do passado, tão bucólico e até romântico.

Nossa época acelerou as coisas. Ecografia já no quarto mês e exame de sexagem para os mais apressadinhos, e isso com apenas oito semanas de gestação. Com essa rapidez, é possível preparar um enxoval todo personalizado, conforme o sexo do bebê.

Mas além de facilitar a preparação do enxoval, descobrir o sexo do bebê precocemente traz outra vantagem, e falo isso de experiência própria. Ao dar um nome, a identidade é finalmente definida. Antes disso, há apenas um bebê, um substantivo comum, um ser humano sem contornos em relação à humanidade. Com o nome, singulariza-se sua existência e ele passa a existir para os outros como um ser único e distinto dos demais.

Tanto é assim que no exército e na prisão a referência aos internos pelos números de matrícula, e não pelos nomes próprios, é uma forma comum de despersonalização, que apaga a singularidade existente no nome e a esconde atrás de números.

Sim, mas e o que isso tem a ver conosco? Se não me engano, todos os que me acompanharam até aqui têm seus próprios nomes e a maioria vai muito bem com eles (talvez com a exceção de dois ou três).

Mas no que se refere à época em que vivemos, estávamos todos nós sem nome, como bebês anônimos numa gravidez do tempo.

Estamos no século XXI, no ano tal, no mês tal… Mas e quanto à década? Que nome dar à nossa década? Ora, é a década que melhor define o espírito de uma época, e é a sua designação que marca a fisionomia do zeitgeist. Falamos “anos 60” e já nos vêm à mente uma enormidade de cenas, de celebridades, de eventos. A mera referência aos “anos 80” já traz embutido um certo imaginário próprio, com seus ícones, símbolos e sensações.

Alguém inventou a alcunha “anos 2000”. Tudo bem, é melhor do que nada. Mas os “anos 2000” englobam de 2000 a 2019? Se for isso, era melhor logo se referir ao século XXI. Playlist: músicas do século XXI. Melhores filmes do século XXI.

Mas se “anos 2000” denominar apenas a primeira década do século, de 2000 a 2009, então como se referir à segunda década, de 2010 a 2019. Anos 10? O fato é que não há no dicionário vocábulos ou expressões capazes de denominar com precisão e elegância seja a primeira seja a segunda década do século XXI.

Por vinte anos ficamos anônimos, sem identidade na trilha do tempo, vagando em um amplo e indistinto “começo de século XXI”. Tudo será diferente, porque a partir de agora teremos a felicidade de termos uma expressão com a qual chamar a próxima década. Anos 20!

E olha que interessante: teremos o privilégio de vivermos os anos 20! Lembra do glamour da era do jazz, Chicago, Broadway, arranha-céus, gângster, Al Capone, Paris é uma festa, foxtrote, modernismo, barões do café, efervescência cultural… Eu também não lembro, mas vi nos filmes e li nos livros.

Homens de ternos, coletes e chapéus, brindando à vida com o sorriso de um Gatsby. Mulheres de cabelo Chanel, aqueles cigarros longos, lenços no pescoço. Todo esse imaginário só existe porque foi tudo condensado em uma expressão-chave: anos 20.

É bonita, chique e fácil. Agora poderemos usá-la novamente. “Fulano nasceu no começo dos anos 20”. “Ela começou a trabalhar em meados dos anos 20”. “Eles se casaram há muito tempo, lá pelos anos 20”.

Nesses próximos dez anos, tudo o que vivermos, tudo o que fizermos, não mais se perderá no alargamento de um “início do século XXI”, de um “anos 2000”. Tudo será marcado, cristalizado, condensado num elegante e preciso “anos 20”. Os nossos anos 20.

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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