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quinta-feira, junho 18, 2026
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Ao longo da história, a tensão entre a força bruta e a norma jurídica tem sido um eixo central da política.

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A frase “a lei do mais forte é, claramente, mais forte que a lei ordinária” revela uma percepção antiga, mas persistentemente atual: a de que, em determinados contextos, quem detém o poder real – militar, econômico ou simbólico – tem mais influência do que qualquer ordenamento jurídico formal.

Essa ideia não é apenas um aforismo cínico, mas uma observação que encontra eco em diversas tradições filosóficas e momentos históricos.

Na Grécia Antiga, os sofistas, especialmente Trasímaco em A República de Platão, já defendiam que a justiça nada mais era do que o interesse do mais forte. Para ele, a lei era um instrumento usado pelos poderosos para manter sua supremacia, vestida de legitimidade.

Sócrates, por outro lado, tentou desmontar essa visão, insistindo numa ideia de justiça que transcendesse o domínio da força. No entanto, a crítica de Trasímaco nunca perdeu sua relevância, pois descreve com precisão a realpolitik que move os bastidores do poder até hoje.

Ao olhar para os grandes impérios, como o Romano, é fácil perceber como a força era o alicerce do direito. O ius era garantido pelas legiões, e a obediência à lei muitas vezes derivava do medo da punição, e não de uma convicção moral ou jurídica. Essa lógica não desapareceu com o tempo: nas ditaduras modernas, a força se traveste de legalidade, com constituições manipuladas e tribunais domesticados, enquanto opositores são silenciados com a aparência da lei, mas com a essência da coerção.

O sociólogo Max Weber distingue três formas de dominação legítima: tradicional, carismática e legal-racional. No entanto, mesmo dentro da dominação legal-racional, que é a base dos Estados modernos, Weber reconhece que a legitimidade pode ser corroída quando a estrutura do poder se descola do cumprimento efetivo das normas. A lei ordinária só prevalece quando sustentada por um aparato institucional forte e por um consenso social que a reconheça como legítima. Sem isso, a legalidade vira fachada, e a “lei do mais forte” volta a dominar o cenário.

A própria existência de golpes de Estado, revoluções ou regimes de exceção serve como lembrete de que, quando a força se impõe, ela redefine o que é permitido, o que é punido e o que é legal. Carl Schmitt, jurista alemão do século XX, foi explícito ao afirmar que “soberano é aquele que decide sobre o estado de exceção”. Ou seja, quem tem o poder de suspender a lei é, em última instância, quem realmente manda. Essa concepção aproxima-se perigosamente da lei do mais forte, pois legitima a suspensão das normas em nome de uma autoridade supostamente superior.

No campo contemporâneo, vemos essa tensão se refletir nas guerras híbridas, no uso da manipulação da lei e na manipulação dos sistemas judiciais para fins políticos. A força, nestes casos, não é mais apenas física, mas estratégica, institucional, midiática. Ela molda interpretações jurídicas, captura órgãos de controle e reconfigura o campo político sob uma aparência de normalidade legal. Assim, a lei do mais forte se torna mais sutil, mas nem por isso menos eficaz.

Embora o ideal democrático proponha um império da lei, em que todos – inclusive os poderosos – estão submetidos a normas impessoais, a prática mostra que, em momentos críticos, quem tem o controle dos meios de coerção, da comunicação e das instituições, frequentemente impõe sua vontade sobre a letra da lei. A “lei ordinária” só se sustenta quando há equilíbrio de forças, freios institucionais reais e uma sociedade civil vigilante. Do contrário, ela é constantemente rebaixada à condição de papel queimada pelo fogo do poder nu.

Transporte escolar do DF opera com atrasos, rotas precárias e excesso de contratos emergenciais, aponta estudo*

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Levantamento dos técnicos da Câmara Legislativa aponta problemas em áreas rurais, falta de integração e falhas na gestão do serviço prestado a estudantes da rede pública_

Um estudo técnico da Câmara Legislativa apontou fragilidades no transporte escolar da rede pública do DF, com registros de atrasos, rotas precárias e excesso de contratos emergenciais. O levantamento identificou problemas especialmente em regiões rurais, onde condições ruins das vias, excesso de barro e dificuldades de acesso comprometem a regularidade do transporte de estudantes.

O estudo foi apresentado em Comissão Geral proposta pela deputada distrital Paula Belmonte (PSDB), nesta quinta-feira (14). Para a deputada, “debater esse tema com transparência e responsabilidade é fundamental para garantir um serviço mais eficiente, humano e acessível aos nossos estudantes”.

O diagnóstico identificou que a maioria dos contratos firmados pela Sociedade de Transportes Coletivos de Brasília (TCB) tem caráter emergencial, apesar de o transporte escolar ser um serviço contínuo e previsível. O documento ainda cita dificuldades orçamentárias e necessidade frequente de créditos suplementares para garantir a manutenção das operações.

O levantamento ainda apontou falhas operacionais relacionadas à ausência de um sistema digital integrado entre escolas, regionais de ensino e órgãos responsáveis pela gestão do transporte escolar. Atualmente, segundo o estudo, grande parte das solicitações de inclusão de estudantes no serviço ainda ocorre por procedimentos manuais, o que aumenta o risco de inconsistências, demora nas análises e diferenças de tratamento entre as unidades escolares.

As visitas técnicas realizadas pela equipe da Câmara Legislativa, em regiões como Planaltina e São Sebastião, revelaram ainda dificuldades logísticas nas rotas rurais, incluindo atolamentos de veículos, limitações para manobras em estradas estreitas e necessidade de longas caminhadas até os pontos de embarque. O estudo aponta que essas condições acabam impactando diretamente o tempo de execução das rotas e a pontualidade do serviço oferecido aos estudantes.

Fatos Fotos & Frases

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A Mente é o seu próprio lar: cuide bem de onde você mora

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A mente é, de fato, o nosso verdadeiro lar. Muito antes de qualquer casa de tijolos, é nela que habitamos todos os dias. É entre pensamentos, emoções e percepções que passamos a maior parte da nossa existência. E, no entanto, quantas vezes negligenciamos esse espaço? Vivemos correndo atrás de conforto externo, tentando ajeitar o mundo à nossa volta, enquanto o nosso “lar interno” segue em desordem, barulhento, confuso ou até mesmo hostil.
John Milton, no épico Paradise Lost, escreveu uma frase poderosa: “A mente é seu próprio lugar, e nela pode fazer do inferno um céu, e do céu um inferno.” Essa afirmação, feita em pleno século XVII, permanece dolorosamente atual. Podemos estar em circunstâncias boas e ainda assim nos sentirmos miseráveis se nossa mente estiver poluída por medo, culpa, ressentimento ou ansiedade. Por outro lado, em tempos difíceis, uma mente cultivada pode encontrar serenidade e até gratidão. É por isso que cuidar da mente é mais urgente do que decorar a sala ou comprar um novo celular.

A sabedoria budista há séculos ensina que “não há inimigo maior do que a mente não treinada”. Essa ideia aparece nos textos do Dhammapada, onde se afirma: “Tudo o que somos é resultado do que pensamos: a mente é tudo. O que pensamos, nos tornamos.” Já o filósofo estoico Epicteto, em suas Dissertações, também alertava: “Não são as coisas que nos perturbam, mas sim os julgamentos que fazemos sobre elas.” Ou seja, as dores da vida muitas vezes não vêm do que nos acontece, mas de como nossa mente interpreta aquilo.

Mas como cultivar esse lar mental? Começa por reconhecer o que está dentro. Observar os pensamentos sem se apegar a eles, perceber os padrões mentais repetitivos — muitos dos quais herdados ou inconscientes — e, principalmente, aprender a desacelerar. A prática da meditação não é luxo de monge tibetano, mas ferramenta prática para quem quer um pouco de paz dentro do caos cotidiano. Não é à toa que o psicólogo Daniel Goleman, autor de Inteligência Emocional, destaca a meditação como uma forma poderosa de desenvolver atenção e autocontrole.

Além disso, é importante se perguntar: o que tenho consumido com minha mente? Assim como o corpo adoece com má alimentação, a mente se intoxica com excesso de negatividade, redes sociais tóxicas, notícias carregadas de medo e comparações vazias. “Você é o que você alimenta na sua mente”, como bem resume o pensador brasileiro Clóvis de Barros Filho.

Nos momentos difíceis, quando tudo parece ruir, lembre-se: você ainda tem sua mente. E ela pode ser o seu refúgio ou sua prisão. A diferença está em como você cuida dela. Treinar a mente é um ato de amor próprio. Não é só uma questão de autoconhecimento, é questão de sobrevivência emocional e espiritual.

Portanto, trate a sua mente como o lar que ela é. Limpe, organize, decore com bons pensamentos, cultive silêncio e alegria. Afinal, você vai morar nela por toda a sua vida.

Meu compromisso é com o coletivo. Por isso sou pré-candidato

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Gutemberg Fialho

Eu decidi ser médico ainda criança, em Araruna, uma cidadezinha no interior da Paraíba – não era um sonho de ser famoso ou ganhar muito dinheiro. Era uma visão de mundo de quem nasce numa cidade pequena no Nordeste brasileiro. Especialmente minha avó e minha mãe me inspiraram a ser uma pessoa que ajuda o próximo, a coletividade. Nada melhor, então, que ser médico.

Eu conquistei aquele sonho de infância e honro a história da minha família: há quase trinta anos minha vida tem sido dedicada à saúde pública, cuidando das pessoas. Além de médico, sou pai de três filhos e essa experiência de vida me fez entender que cuidar das pessoas é uma responsabilidade com o futuro.

Há quase 20 anos, eu entendi que poderia ampliar resultados nessa missão que escolhi de cuidar. E decidi cuidar de quem cuida das pessoas, para que tenham as melhores condições de trabalho e para que esse trabalho beneficie o maior número de pessoas e com qualidade.

Estive nas ruas, nas greves, nas mesas de negociação e nos espaços de decisão, sempre com o mesmo compromisso: defender os médicos, valorizar os profissionais da saúde e, acima de tudo, lutar por uma saúde pública digna para a população do Distrito Federal.

Hoje, sigo atuando em posições de responsabilidade — como presidente de entidades médicas e membro de instituições que pensam o presente e o futuro da saúde na nossa cidade e no nosso país.

E com essa mesma coerência, agora, como pré-candidato a deputado distrital, sigo com o mesmo propósito de sempre: transformar a experiência adquirida ao longo da minha trajetória de vida em mais força para defender a saúde pública e ampliar o cuidado com as pessoas. Porque quem vive a saúde de perto sabe exatamente onde ela precisa mudar para que ela seja efetiva e tenha boa qualidade.

A vivência no serviço público de saúde me ensinou também a olhar para outras áreas da atividade humana de forma a pensar como poderiam melhorar para que a vida das pessoas seja melhor e mais saudável. Porque saúde não se constrói só com atendimento médico, mas também com educação de qualidade, transporte público digno, cuidado com o meio ambiente e com os espaços públicos e com políticas de segurança.

A decisão de ser pré-candidato não é ruptura com minha trajetória — é sua continuidade mais madura. Levarei para a Câmara Legislativa o mesmo compromisso que sempre tive: olhar nos olhos de quem precisa, defender quem salva vidas e cobrar do poder público o que ele insiste em adiar.

Porque saúde não se faz só com hospitais; faz-se com responsabilidade, com justiça e com coragem política. E é com essa convicção que pretendo continuar trabalhando para construirmos juntos um DF mais humano, mais saudável e mais justo.

A banca que virou point da Copa

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Na 416 Sul, em Brasília, ponto tradicional se reinventa e reúne gerações em torno da febre das figurinhas da Copa.

Por Ana Volpe

Em Brasília, cidade marcada pela arquitetura planejada e pela força da política, pequenos espaços do cotidiano seguem revelando histórias que resistem ao tempo. Em meio à velocidade das transformações digitais e à queda no consumo de jornais impressos, uma banca na 416 Sul mantém viva uma tradição que atravessa gerações e encontra novas formas de se reinventar.

O que antes era apenas um ponto de venda de jornais e revistas hoje funciona também como espaço de encontro, convivência e troca. Entre conversas, memórias e o vai e vem de clientes, o local acompanha as mudanças do comportamento urbano e do consumo de informação.

Nos últimos meses, um fenômeno específico trouxe novo movimento e deu novo significado ao espaço: a febre dos álbuns de figurinhas da Copa do Mundo. Crianças e adolescentes passaram a ocupar diariamente a área ao redor da banca, transformando o local em um ponto espontâneo de encontro.
Grupos se formam ao longo do dia para comprar as figurinhas da Copa na banca da 416 Sul. Sentados em bancos, encostados nas paredes ou reunidos em mesas improvisadas, os jovens transformam o local em um verdadeiro ponto de encontro da comunidade. Entre risadas e conversas animadas, trocam figurinhas repetidas, negociam álbuns, discutem sobre futebol e brincam entre si.

O tradicional jogo do “bafo”, que marcou gerações, voltou a fazer parte da rotina da banca, reunindo crianças e adolescentes das seis escolas próximas em torno da mesma diversão. A movimentação constante faz da banca não apenas um espaço de comércio, mas também um ambiente de convivência e integração entre os jovens da região.

“Eles vêm, trocam figurinha, jogam ‘bafo’ e ficam por aqui. É uma festa”, resume o comerciante Luiz Fernandes Escorcio Lima, conhecido como Sequinho.
Uma vida ligada à banca e à cidade
À frente do espaço está Luiz Fernandes Escorcio Lima, de 76 anos. Sua trajetória se confunde com a própria história de Brasília.

Natural de Parnaíba, no Piauí, ele chegou à capital federal em 1962, vindo de São Luís do Maranhão. Encontrou uma cidade ainda em formação, com ruas de terra e pouca estrutura urbana.

Começou a trabalhar ainda jovem na banca da família, herdada da mãe, Helena Escorcio Lima, figura central na origem do negócio. Desde então, nunca mais deixou o local.

Ao longo das décadas, acompanhou de perto a transformação da região. A 416 Sul, que antes era marcada por terrenos simples e pouca movimentação, tornou-se uma área consolidada, cercada por escolas, comércio e grande circulação de pessoas.

A presença dessas instituições influencia diretamente o movimento da banca. “Aqui perto tem uma, duas, três escolas… tem o Marista, o Coração de Jesus, o Blue, a escola da 416 e a da 214”, relata.
Circulação entre políticos, imprensa e militares

O trabalho na banca nunca se restringiu ao balcão. Durante anos, Sequinho também atuou na entrega de jornais e revistas, o que lhe abriu portas para circular por diferentes ambientes da capital federal e conhecer de perto seus bastidores.

Ele realizava entregas para jornalistas, órgãos públicos e unidades militares, estabelecendo proximidade com esses grupos. Nas redações, criou vínculos com profissionais da imprensa, acompanhando de perto o funcionamento do jornalismo e suas rotinas. No meio político, frequentou gabinetes e teve contato direto com o cotidiano institucional, observando articulações e decisões que moldavam o país.

Entre os militares, percebeu uma demanda específica por conteúdos especializados, especialmente revistas voltadas à área de defesa e tecnologia. Esse convívio resultou não apenas em clientes fiéis, mas também em amizades e trocas de opinião sobre temas relevantes da época, inclusive debates informais sobre questões políticas e jurídicas.

Essa intensa circulação ampliou significativamente sua rede de contatos e lhe proporcionou uma vivência singular nos bastidores de Brasília, tornando-o uma testemunha privilegiada de diferentes esferas de poder que se cruzam na cidade.

A transformação do mercado

A chegada da internet representou uma mudança profunda no funcionamento das bancas de jornal. O acesso rápido e gratuito à informação no ambiente digital reduziu significativamente a venda de jornais e revistas impressas, afetando diretamente um modelo de negócio que por décadas foi essencial na rotina urbana.
Com o avanço das redes sociais, esse impacto se intensificou ainda mais. O hábito de leitura migrou para as telas, e o consumidor passou a buscar informação em tempo real, muitas vezes abrindo mão do formato impresso. O que antes era um ponto de encontro para atualização diária se transformou, aos poucos, em um espaço com menor fluxo e novas demandas.

Hoje, o volume de vendas representa apenas uma pequena parcela do que já foi no passado. Diante desse cenário, a adaptação deixou de ser uma escolha e se tornou uma necessidade para a sobrevivência.

Sequinho, atento a essas mudanças, buscou alternativas para manter a banca ativa. Ele continua oferecendo produtos tradicionais, como palavras cruzadas e revistas de tecnologia, sustentados por uma clientela fiel que resiste ao digital. Ao mesmo tempo, diversificou o negócio, passando a vender material escolar e incorporando um pequeno “mercadinho”, ampliando as possibilidades de renda e atraindo novos clientes.

Essa reinvenção mostra não apenas a transformação do mercado, mas também a capacidade de adaptação de quem construiu sua história dentro dele.

A febre das figurinhas muda a dinâmica
Se antes o movimento da banca era mais tranquilo e previsível, a febre das figurinhas da Copa do Mundo transformou completamente a dinâmica do espaço. O que durante anos funcionou como um ponto de passagem cotidiano passou a assumir o papel de um verdadeiro ponto de encontro, especialmente nos horários de saída das escolas.

Localizada próxima a várias instituições de ensino, cerca de seis escolas ao redor, a banca passou a atrair diariamente uma grande quantidade de estudantes. O fluxo se intensificou de forma expressiva, criando momentos de grande concentração de jovens. Em determinados dias, o local chega a reunir dezenas e até centenas de crianças e adolescentes, todos movidos pelo interesse em completar seus álbuns.
“Tem dia que eu espero pelo menos 50 adolescentes. Já teve dia de atender centenas”, relata Sequinho, destacando a intensidade desse movimento e a mudança na rotina de trabalho.

O ambiente se transforma ao longo do dia. No lugar do silêncio típico de outros períodos, surgem vozes, risadas e negociações animadas. Grupos se organizam espontaneamente, ocupando bancos, calçadas e mesas improvisadas em frente à banca. As trocas de figurinhas acontecem a todo momento, enquanto crianças e adolescentes discutem quais jogadores faltam no álbum, negociam repetidas e celebram cada figurinha rara encontrada. Em meio à movimentação, novas amizades se formam a partir de um interesse em comum: as figurinhas da Copa do Mundo.

Esse fenômeno também resgata práticas que, em grande parte, haviam sido reduzidas com o avanço da tecnologia digital. Em vez de interações mediadas por telas, o que se vê é o contato direto, a conversa olho no olho e a construção de relações no espaço físico da cidade. A banca, nesse contexto, ganha uma nova função.

Mais do que um comércio, o local passa a desempenhar um papel social relevante. Torna-se um ambiente de convivência, de aprendizado informal e de troca de experiências entre diferentes grupos. Para muitos jovens, é um dos poucos espaços onde podem se reunir de forma espontânea, fora do ambiente escolar e longe do ambiente virtual.

Para Sequinho, essa nova dinâmica representa também um respiro em meio às transformações do mercado. Se por um lado a venda tradicional de jornais e revistas diminuiu ao longo dos anos, por outro, momentos como a febre das figurinhas mostram que a banca ainda pode se reinventar e continuar sendo um ponto vivo na comunidade.

Convivência e juventude

A presença constante de jovens mudou profundamente a dinâmica da banca, criando um ambiente mais ativo, barulhento e ao mesmo tempo mais vivo. O espaço, que em outros períodos do dia pode ser mais tranquilo, ganha uma energia própria quando os estudantes chegam, transformando completamente a rotina.

“Eu amo lidar com a adolescência”, afirma Sequinho, destacando a relação próxima que construiu com esse público ao longo dos anos.

Segundo ele, o contato diário vai muito além da venda de produtos. Há uma troca constante de experiências, conversas sobre assuntos variados e curiosidades que surgem de forma espontânea. Os jovens perguntam, comentam, compartilham opiniões e trazem novas perspectivas sobre o mundo, o que torna o ambiente dinâmico e inesperado.

Essa convivência também cria um espaço de aprendizado informal. Entre uma venda e outra, surgem diálogos sobre escola, futebol, política, tecnologia, redes sociais e até sobre temas mais amplos do cotidiano. A banca passa a funcionar como um ponto de encontro intergeracional, onde diferentes visões se cruzam em um mesmo espaço físico.

A visão de quem frequenta

A banca também é frequentada por clientes habituais, como Wellington, morador da quadra, que acompanha o movimento há cerca de três anos.

Ele relata que o espaço acabou se tornando mais do que um ponto de compra, funcionando também como lugar de convivência.

“Eu sou o Wellington. Conheço o Sequinho há uns três anos. Eu venho aqui, compro revista, principalmente palavra cruzada e revista científica”, afirma.

Segundo ele, a banca mantém uma variedade de produtos voltados para públicos diferentes, incluindo revistas infantis, figurinhas da Copa, materiais escolares e publicações específicas.

“Hoje em dia tem de tudo um pouco. Tem coisa de criança, coisa de escola e até revista do Maurício de Sousa. É bem variado”, comenta.

Wellington também destaca o papel do local como ponto de parada no dia a dia, onde as pessoas acabam interagindo com o comerciante e com outros frequentadores.
Um espaço que resiste
Mesmo diante das transformações tecnológicas e econômicas das últimas décadas, a banca da 416 Sul segue ativa como um ponto de encontro em Brasília. O avanço da internet, a mudança nos hábitos de leitura e a digitalização da informação reduziram drasticamente o consumo de produtos impressos, mas não eliminaram a importância do espaço físico.

Entre tradição e adaptação, o local mantém algo cada vez mais raro nos centros urbanos: o contato direto entre as pessoas. Em um cotidiano marcado por telas, notificações e interações virtuais, a banca preserva o encontro presencial, o diálogo espontâneo e a convivência cotidiana.

Ali ainda há tempo para conversa sem pressa, para troca de ideias e para relações que nascem do simples ato de estar presente. Mais recentemente, esse cenário passou a ser marcado também pelo som das figurinhas sendo batidas nas mesas, pelas negociações animadas e pela movimentação constante dos jovens.
Assim, a banca não apenas resiste às mudanças, mas se reinventa a partir delas, mantendo-se como um pequeno, porém significativo, ponto de encontro na cidade.