Dra. Sandra Soares Costa: Entre sonhos costurados e pontes erguidas

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“Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas, porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno.” — Rubem Alves
Essa frase traduz o que sinto ao revisitar minha história. Minhas escolhas, das mais simples às mais ousadas, foram moldadas pelos valores que aprendi no lar.
Meu próprio nascimento já foi uma resultado de perseverança e resiliência — virtudes que mais tarde se tornariam essenciais na minha jornada empreendedora.
Fui um bebê esperado por sete anos. Minha mãe, Cecília Joaquina Soares, era RH negativo; meu pai, Silvestre Soares, positivo.
A incompatibilidade sanguínea trouxe perdas dolorosas de gestações, mas nunca diminuiu o desejo de me receber. E assim, no dia 25 de dezembro, em Inhapim, Minas Gerais, cheguei como um presente de Natal.
Sou a filha mais velha de três irmãos, criada em um lar onde as vozes femininas sempre tiveram força e presença. Fui guiada pelo exemplo de uma mulher admirável: minha mãe, filha mais velha de onze irmãos, sempre foi a voz firme que inspirava, organizava e impulsionava todos ao redor.
Dona Cecília transformou seu talento na moda em profissão e se reinventou como empreendedora, provando que disciplina, coragem e conhecimento são sementes que florescem em qualquer solo.
Dela herdei o amor pelo trabalho bem feito e a convicção de que a independência se constrói. Ela costurava sonhos — não apenas vestidos impecáveis, mas valores de responsabilidade, perfeição e propósito que moldaram minha essência.
Desde cedo, eu era seu apoio. Com nove anos, pegava um ônibus para Caratinga, a 30 km de distância, para comprar aviamentos e tecidos. Escolhia linhas, botões e cortes com o cuidado que ela me ensinara e controlava o dinheiro com precisão. Essa confiança moldou minha autonomia.
Meu pai, Silvestre Soares — o “Vete”, como todos o chamavam — administrava uma pequena fazenda e também possuía uma Kombi com a qual prestava serviços a terceiros.
Era um homem de riso fácil e coração generoso. Gostava de boa mesa, fazia questão de escolher pessoalmente os produtos da cozinha da família e tinha um carinho especial pelos momentos de convívio.
De meus pais, herdei características distintas que se completam. De minha mãe, a disciplina, o foco no trabalho e a fé inabalável. Do meu pai, a alegria de viver, o gosto por estar cercada de amigos e a leveza para celebrar a vida.
Na visão da minha família, sou a melhor mistura dos dois — e é dessa combinação que nasceram a força e a ternura que levo para tudo o que faço.
Moramos em Inhapim até eu completar 17 anos. Minha mãe confeccionava todos os vestidos para festas e casamentos da cidade. Quando decidiu mudar-se para Belo Horizonte para que continuássemos os estudos, não teve medo:
“Se faço aqui, posso fazer lá”, disse.
Em BH, ampliou o negócio e a clientela, confirmando que coragem e competência são passaportes para qualquer destino. 
Em 1972, prestei vestibular para a Universidade Federal de Minas Gerais. Estava bem preparada e obtive excelente desempenho. Minha pontuação me permitiria cursar Medicina, mas escolhi seguir o caminho da Bioquímica. Desde o início, me apaixonei pela área.
Na UFMG, as disciplinas básicas reuniam estudantes de diversos cursos. Éramos divididos em turmas por ordem alfabética e a minha começava na letra “O”.
Foi assim que conheci Odilon, aluno de Odontologia. De colega de classe, ele se tornou namorado, e nos casamos em julho de 1977.
Um ano depois, em agosto de 1978, nasceu nosso primeiro filho, Marcelo.
Formei-me em Farmácia-Bioquímica e, em 1979, mudei-me para Brasília com Odilon e Marcelo.
Na capital, construí minha trajetória profissional, tive meus outros dois filhos, Guilherme e Gabriel, e, mais tarde, vi minha vida ser iluminada pelos meus netos.
Foi em Brasília que conheci Janete Vaz. Trabalhamos lado a lado em um laboratório particular e, desde o início, percebemos que não compartilhávamos apenas valores, mas também sonhos e uma visão de futuro.
Ambas acreditávamos que uma empresa poderia prosperar colocando as pessoas no centro da estratégia, cultivando relações de confiança e buscando excelência em cada detalhe.
Dessa sintonia nasceu o Sabin — um projeto tecido de propósito e amizade.
Enquanto o Sabin era formado, o cenário político e econômico do país também se transformava — nem sempre de forma favorável.
O Brasil fervilhava pelas Diretas Já e a inflação chegava aos 228% ao ano. Eram tempos de incerteza, mas também de coragem para quem ousava empreender.
Quando lembro dos primeiros dias do Sabin, lembro de uma sala pequena na Asa Norte, de nós duas com coragem no olhar e quase nada no bolso — um sonho empurrado mais por vontade do que por estrutura.
Brasília era um traçado de possibilidades, e ali, entre exames e esperanças, decidimos que o Sabin seria mais do que precisão técnica: seria alma.
À medida que o Sabin crescia, crescia também em mim o compromisso com a excelência.
Decidi então investir em minha formação: fiz mestrado em Ciências Médicas pela Universidade de Brasília (UnB) e MBAs em Gestão de Negócios, pela UFRJ, e em Gestão Empresarial, pela Fundação Dom Cabral — sempre unindo conhecimento e prática para oferecer o melhor.
No Sabin, cada exame sempre foi mais do que um resultado impresso em papel.
Por trás de cada atendimento há um nome, uma história, uma família que espera, um coração que bate mais rápido.
Sempre acreditei que cuidar da saúde é também cuidar da esperança, o que não se mede em números. É por isso que, ao longo dos anos, buscamos criar um lugar onde a ciência caminhasse de mãos dadas com o afeto, onde a precisão dos resultados viesse acompanhada da certeza de que alguém se importa de verdade.
Essa aposta no humano é o que nos fez crescer, sem nunca perder o olhar atento para quem mais importa: as pessoas.
Os primeiros seis anos foram desafiadores. Eu e Janete dividíamos as tarefas e a mesa de trabalho.
Administrávamos com base na intuição e na percepção. Fazíamos exames, acompanhávamos clientes, cultivávamos relações com convênios e médicos e, ao final do dia, lavávamos e preparávamos o material para o dia seguinte.
Tudo com entusiasmo e uma vontade enorme de crescer. Era o que me impulsionava e me recompensava. Era a concretização de um sonho.
O início também exigiu coragem e renúncia. Eu dividia meu tempo entre a nova empresa, o trabalho na Secretaria de Saúde do Distrito Federal e meus filhos pequenos.
Perdi reuniões escolares, aniversários e encontros de família, mas sempre com a certeza de que estava construindo algo que, um dia, também seria motivo de orgulho para eles.
Enfrentamos preconceito por sermos duas mulheres jovens liderando um negócio de saúde. Muitos duvidavam que iríamos conseguir.
Mas transformamos cada obstáculo em combustível.
Desde os primeiros dias, a inovação foi minha bússola. Participei de congressos nacionais e internacionais, busquei metodologias inéditas, introduzi tecnologias pioneiras e incentivei minha equipe a quebrar paradigmas.
Cada viagem, cada palestra, cada contato com novas ideias era uma oportunidade de trazer algo que colocasse o Sabin na vanguarda do setor.
O clima que construímos também era incomum: no lugar da sobriedade dominante nos serviços de análises clínicas, havia calor humano.
Atendentes sorridentes e atenciosos tratam os clientes pelo nome. Assim como hoje, nosso diferencial não estava apenas nos equipamentos, mas na experiência.
Nos anos 80, estruturamos a empresa com foco em qualidade e excelência. Na década seguinte, consolidamos nosso nome em Brasília.
Em 2010, já líderes na capital e no Centro-Oeste, ousamos dar um passo maior: enquanto muitos recuavam diante da crise, nós escolhemos expandir.
O ousado plano de crescimento nacional, iniciado em 2012, se apoiou em três grandes pilares: fortalecer nossa governança para garantir transparência e longevidade; expandir geograficamente de norte a sul do país, unindo culturas e talentos sob uma mesma missão; e diversificar os negócios para ir além da medicina diagnóstica, ampliando nosso alcance e impacto.
Com a governança consolidada, chegou também um dos passos mais simbólicos da nossa trajetória: sair da operação diária para permitir que a empresa respirasse novos ares e ganhasse o ritmo próprio de uma nova liderança.
Foi como ver um filho crescer, sabendo que era hora de confiar no que foi ensinado e deixá-lo seguir com segurança o próprio caminho.
No Conselho de Administração, assumi a missão de ser guardiã do legado e da cultura que nos trouxeram até aqui, enquanto a nova gestão imprimia seu tempo, suas cores e seu jeito de liderar.
Vieram então os grandes voos: chegamos a mais de 78 cidades, integramos mais de 30 empresas à nossa história, criamos plataformas de atenção primária, apostamos em startups e healthtechs e ampliamos nossa presença no ecossistema de inovação — sempre mantendo o cuidado humano no centro.
Com o passar dos anos, percebemos que o Sabin não era apenas uma empresa de saúde. Era também um ponto de encontro entre ciência e humanidade.
Nosso crescimento trouxe conquistas, mas também aumentou a responsabilidade de retribuir à sociedade tudo o que ela nos permitiu construir.
Foi dessa compreensão que nasceu um novo capítulo da nossa história. Em 2005, um gesto simples se transformou em algo maior: a certeza de que fazer o bem poderia ser mais do que uma escolha, poderia ser uma forma de vida. Assim nasceu o Instituto Sabin, pequeno em estrutura, mas imenso em propósito, edificado sobre as fundações que Janete e eu já vínhamos fortalecendo desde o início.
Era a formalização de algo que sempre nos moveu: a responsabilidade social como essência, e não como acessório.
Lembro como se fosse hoje: éramos sementes plantadas no solo fértil de Brasília.
Aos poucos, regamos esse projeto com cuidado, atenção e afeto. Entregamos não apenas recursos, mas olhares atentos, escutas verdadeiras e gestos que diziam “nós nos importamos”. Com o tempo, aquele broto ganhou raízes profundas e galhos largos, estendendo-se por 14 estados e alcançando milhões de pessoas com saúde, esperança e dignidade.
O Instituto Sabin é, antes de tudo, uma história de transformação — que começou pequena, mas cresceu no que tem de mais essencial: o impacto humano.
Ele floresceu porque acreditamos que cuidar é agir, e que cada doação, cada ação e cada semente plantada são elos de uma corrente de solidariedade que não se rompe.
Hoje, continuo sentindo orgulho de tudo o que construímos: um abraço coletivo que se expande e dá origem a novos abraços, multiplicando vida e esperança, vida afora.
Essa mesma força que nos moveu ao longo dos anos foi a que nos guiou no momento em que o mundo mais precisou de união e coragem.
Quando em 2020, a pandemia chegou como uma tempestade inesperada, escura e intensa, exigindo firmeza no leme e coragem no coração, já sabíamos qual era o nosso norte: cuidar das pessoas.
Escolhemos estar na linha de frente, guiados pelo compromisso de servir. Atuamos com a serenidade de quem entende que responsabilidade também é um ato de amor e com a ousadia de quem não teme inovar mesmo em mares turbulentos.
Continuamos investindo em transformação digital, em novos negócios e em formas mais humanas e inteligentes de entregar saúde.
Mas, antes de tudo, olhamos para dentro: para a família, para os colaboradores, para cada pessoa que formava o nosso círculo mais próximo. Sabíamos que, para cuidar do mundo, precisávamos cuidar primeiro de quem estava ao nosso lado.
Aquele período se revelaria uma das maiores provas de fogo que já enfrentamos — e também uma das maiores lições. Aprendemos que ninguém atravessa tempestades sozinho e que o coletivo é a força que sustenta.
A resposta do nosso time foi comovente: mais de dois mil colaboradores se ofereceram como voluntários para apoiar a vacinação no Distrito Federal, somando mais de 23 mil horas dedicadas.
Montamos tendas, organizamos drive-thrus e aplicamos 58 mil doses de vacinas contra a Covid-19.
Em momentos assim, percebemos que o sentido de chegar longe é também levar outros conosco. Foi essa vivência — ver tantas mãos se unindo pelo bem comum — que reforçou ainda mais em mim a convicção de que sucesso não é linha de chegada, mas estrada compartilhada.
Meu compromisso nunca se limitou às minhas próprias conquistas: sempre acreditei que quem chega até aqui tem o dever de manter o caminho aberto para que outras também possam chegar.
E esse é um compromisso que assumi de forma ativa, tanto no Sabin quanto em toda a minha trajetória: inspirar mulheres, impulsionar carreiras, promover um ambiente empresarial mais ético, humano e inclusivo.
O meu legado vai além do empresarial. Está enraizado em uma atuação firme pela inclusão e pela diversidade, sustentada por políticas e práticas que garantem que a transformação social aconteça todos os dias — não como promessa distante, mas como realidade viva.
Essa missão também se estende para além das fronteiras do Sabin. Tenho orgulho de contribuir em conselhos e instituições que impulsionam o desenvolvimento empresarial e social, como o Conselho da Mulher do Distrito Federal, o Conselho Permanente de Políticas Públicas e Gestão Governamental do DF, o Conselho Fiscal do CODESE – Conselho de Desenvolvimento Econômico, Sustentável e Estratégico do Distrito Federal, o Conselho Diretor da Universidade de Brasília (UnB) e o Conselho de Governança da Amcham. São espaços onde a escuta e a ação se encontram para construir futuros mais justos e sustentáveis.
É nesse diálogo constante entre o fazer interno e o influenciar o mundo ao redor que encontro sentido no meu caminho.
Hoje, ao contemplar o Sabin — maduro, responsável, inovador e reconhecido nacionalmente — sinto a confirmação de que acertamos ao construir nosso caminho sobre os valores tão fortes.
Nosso maior compromisso é com um legado que não se mede apenas em números ou resultados financeiros, mas na transformação que promovemos: um legado de impacto positivo, de gente cuidando de gente, de inovação a serviço do bem e de amor que se perpetua.
Assim como Brasília cresceu, se reinventou e aprendeu a abraçar pessoas vindas de todos os cantos do país, também aprendemos a transformar diversidade em força e futuro em oportunidade.
Esta cidade foi o berço dos meus maiores desafios e conquistas, cenário onde vi sonhos ganharem corpo e propósito. E, se Brasília é uma capital erguida para unir um país inteiro, o Sabin é a obra que erguemos para unir ciência e cuidado, técnica e afeto — um legado que, assim como esta cidade, continuará a pulsar muito além do meu tempo.

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