Contador, professor e senador, Izalci Lucas entra na campanha de 2026 convicto de que o Distrito Federal e o país não sofrem apenas com falta de recursos, mas sobretudo com deficiência de gestão, planejamento e continuidade administrativa
Em campanha, às vésperas da disputa eleitoral de 2026, Izalci Lucas tenta reconectar sua nova candidatura à Câmara dos Deputados a uma ideia que há anos estrutura seu discurso público: a de que os principais problemas do Distrito Federal e do país decorrem menos da escassez de recursos do que da incapacidade de planejar, executar e dar continuidade às políticas públicas.
Nascido em Araújos, em Minas Gerais, e radicado em Brasília desde a adolescência, Izalci tem uma trajetória significativa na vida pública. Foi deputado distrital entre 2003 e 2007, deputado federal por três mandatos consecutivos, de 2011 a 2023, e senador pelo Distrito Federal desde 2019. Também ocupou secretarias de governo no DF, com atuação nas áreas de Ciência e Tecnologia e de educação profissional.
Em entrevista à 61Brasília, esse percurso aparece como credencial para uma visão de política baseada em planejamento, metas e capacidade de execução. O senador também critica a descontinuidade administrativa entre governos e afirma que o Brasil ainda opera sob lógica de políticas de governo, e não de Estado. Se eleito, diz que pretende retomar na Câmara pautas que considera estruturantes, como educação profissional, ciência e tecnologia, regularização fundiária e autonomia entre os Poderes.

O senhor costuma dizer que o principal problema do DF e do Brasil é de gestão. Por quê?
Porque falta gestão em quase tudo. Na educação, na saúde, na ocupação urbana, no planejamento da cidade. Muitas vezes não falta dinheiro; falta prioridade, falta continuidade, falta saber executar. Qualquer empresa, por menor que seja, se não tiver um bom gerente, quebra. E isso vale também para o governo.
Essa crítica aparece com força quando o senhor fala da educação. O que houve com a rede pública do DF?
Falta gestão, falta investimento e falta valorização dos professores. Hoje, em Brasília, o salário dos professores é um dos piores do Brasil. Já foi o melhor. Quando fui secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação e também da educação profissional, nós éramos o primeiro lugar. Hoje somos o último. Falta laboratório de ciência nas escolas, falta esporte, falta cultura, falta internet, falta computador.
Quais são, na sua visão, os principais gargalos da educação?
Primeiro, a alfabetização. A gente não está alfabetizando na idade certa. Segundo, a valorização dos professores. É preciso dar condições de trabalho e remuneração digna. E, terceiro, a educação profissional. O Brasil ainda não chegou a 10% de jovens em curso técnico, enquanto no mundo esse número está entre 60% e 70%.
Por que o ensino técnico é tão central na sua visão?
Porque prepara o jovem para a vida real. Quando fui secretário, Brasília não tinha nenhum instituto federal. Eu consegui trazer o instituto federal e hoje temos 11. Também consegui, por convênio com o MEC, mais nove escolas técnicas. Depois, no Congresso, fui presidente da comissão do novo ensino médio. A lei foi aprovada, mas não foi implementada. Esse é o problema do Brasil: cada governo entra, acaba com tudo e começa de novo.
E onde entra o letramento digital nesse debate?
Ele é fundamental. Em 2004, quando lancei a Cidade Digital, eu já dizia que o analfabeto não era mais só quem não sabia ler e escrever, mas também quem não tinha acesso à tecnologia e à inovação. Depois lançamos o DF Digital, que foi um grande programa de inclusão digital, com capacitação profissional e distribuição de computadores para professores e servidores da educação.
Na saúde, o senhor também volta à ideia de gestão. Onde está o problema?
Na gestão. Brasília tem um dos maiores orçamentos do país em saúde, educação e segurança, e mesmo assim os serviços não funcionam. Goiás, aqui do lado, tem mais que o dobro da população, arrecada menos e consegue resultados melhores. Isso mostra que o problema não é só recurso.
Sua crítica ao que aconteceu com o Banco de Brasília (BRB) segue a mesma linha?
Sim. Foi uma gestão muito irresponsável. E a Câmara Legislativa não cumpriu o dever de fiscalizar. Aprovaram medidas muito rapidamente, ninguém fez CPI, ninguém fez nada. Hoje quem vai pagar essa conta é o contribuinte.
O senhor também fala em regularização fundiária e planejamento urbano. Como esses temas entram na sua candidatura?
Entram porque Brasília cresceu sem planejamento. Eu aprovei a lei da regularização fundiária, mas ela não foi implementada como deveria. Sem escritura, ninguém investe. Isso vale para a área rural, para a urbana, para o turismo. Depois que a ocupação desorganizada acontece, fica muito mais difícil corrigir.
Essa crítica ao improviso também vale para a política nacional?
Vale. No Brasil falta planejamento. Eu venho trabalhando há anos com planejamento estratégico para Brasília, ouvindo cidades, segmentos e setores. O problema é que muitas vezes não há continuidade. Sem continuidade, não há mudança estrutural.
Se eleito deputado federal, em que pautas o senhor pretende trabalhar?
No apoio à ciência e tecnologia, na preparação dos jovens, na educação profissional no ensino médio, na regularização fundiária e na defesa da autonomia entre os Poderes. A Câmara é importante porque é lá que as coisas começam.
Qual é a principal mensagem da sua candidatura?
Que política é uma atividade nobre, porque muda a vida das pessoas. Para melhor ou para pior, depende da escolha do eleitor. Eu sempre digo: voto não tem preço, tem consequência.




