*Leonaldson Castro, PhD, é cirurgião oncológico do INCA e Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica
Eu estava lá. Em Chicago, durante a última reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, vi uma plateia de pé aplaudir os resultados do RASolute 302. O estudo avaliou o daraxonrasibe, uma droga oral com mecanismo de ação inovador que praticamente dobrou a sobrevida de pessoas com câncer de pâncreas metastático de 6,7 para 13,2 meses. Em agosto, a FDA aprovou o medicamento nos Estados Unidos. O preço: US$ 39.800 por 30 dias, quase US$ 480 mil por ano — cerca de R$ 2,5 milhões.
É uma extraordinária conquista científica e, ao mesmo tempo, a imagem perfeita do dilema que teremos de enfrentar: quanto conseguiremos pagar para perseguir a última célula tumoral?
A discussão não é nova. Em 2012, três médicos do Memorial Sloan Kettering Cancer Center publicaram um artigo de título tão simples quanto incômodo: In Cancer Care, Cost Matters — na assistência oncológica, custo importa. Explicavam por que o hospital recusara o Zaltrap, medicamento que não demonstrava vantagem clínica sobre uma alternativa já disponível, mas custava mais que o dobro. A mensagem era desconfortável: ignorar o custo da assistência deixara de ser sustentável. O problema só aumentou desde então. Estima-se que o gasto mundial com medicamentos oncológicos chegará a US$ 441 bilhões em 2029, quantia que equivale ao PIB anual de cerca de 80% das nações. Esse custo exorbitante é toxicidade do tratamento, embora não apareça na bula de nenhum medicamento. E a conta continuará crescendo. Dos cerca de 20 milhões de novos casos de câncer registrados no mundo em 2022, passaremos de 35 milhões em 2050.
A resposta, porém, não é negar a inovação nem abandonar quem tem doença avançada. Isso seria médica e moralmente inaceitável. Precisamos dos novos medicamentos, da cirurgia, da radioterapia, da imunoterapia e das terapias-alvo. Mas, se queremos construir uma política de câncer sustentável, precisamos também recuar na história natural da doença. Antes da metástase, havia um tumor localizado. Antes do tumor, uma lesão precursora. Antes dela, havia fatores de risco, exposições ambientais, hábitos ou uma infecção oncogênica que poderiam ter sido modificados. Interromper essa sequência salva muito mais do que dinheiro. Evita sofrimento, preserva trabalho, renda, vínculos familiares e projetos de vida. Vacinar contra uma infecção oncogênica, retirar um pólipo antes que se transforme em carcinoma, parar de fumar, combater a obesidade e o sedentarismo: isso também é tratar o câncer — antes que ele exista.
Prevenção, entretanto, não significa rastrear todos para tudo. Isso seria apenas outra forma de desperdício. O crescimento do câncer colorretal entre adultos jovens mostra por que protocolos não podem permanecer engessados enquanto a epidemiologia muda. Diretrizes internacionais já anteciparam a idade do início do rastreamento. O princípio é o mesmo que transformou a oncologia contemporânea: deixar de tratar todos como iguais.
Os números mostram o tamanho dessa oportunidade. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer estima que 37% dos novos casos de câncer diagnosticados mundialmente em 2022 estiveram relacionados a causas potencialmente preveníveis e quase metade de suas mortes poderia ter sido evitada pela combinação de prevenção primária, detecção precoce e tratamento curativo. Esses números obrigam-nos a reconsiderar onde colocamos energia e recursos.
A “primeira célula” é, evidentemente, uma metáfora. Nem todo câncer pode ser prevenido. Nem todo tumor possui lesão precursora conhecida, fator de risco modificável ou método eficaz de rastreamento. Continuaremos precisando de medicamentos como o daraxonrasibe e devemos celebrar cada mês de vida conquistado.
Mas nenhuma sociedade construirá uma política sustentável de controle do câncer se chegar sempre tarde. A maior vitória contra o câncer talvez não seja aprender a destruir, a qualquer custo, a última célula tumoral. Será impedir que milhões de pessoas precisem um dia chegar até ela.




