Entre as raízes capixabas e a consagração na capital, o fundador da Mundo dos Filtros e da Bio Mundo construiu uma trajetória que une visão empresarial, paixão pelo esporte, vida social e um vínculo afetivo profundo com Brasília.
por Mariana Vieira
Há trajetórias que podem ser contadas por números, expansão e resultados. Outras, no entanto, só se revelam por inteiro quando vistas também à luz do afeto, da memória e do pertencimento. A de Edmar Mothé pertence à esta categoria.
Empresário de reconhecida atuação no varejo brasileiro, fundador da Mundo dos Filtros e da Bio Mundo, ele construiu uma história de sucesso que se confunde com sua própria relação com Brasília: intensa, duradoura e, acima de tudo, inspiradora.
Em 2026, essa conexão ganhou forma institucional e simbólica. Edmar foi homenageado com o título de Cidadão Honorário de Brasília, em solenidade na Câmara Legislativa do Distrito Federal, um reconhecimento que coroou não apenas sua contribuição como empreendedor e gerador de empregos, mas também o laço afetivo que desenvolveu com a cidade desde que chegou à capital, ainda jovem, em busca de oportunidade.
No mesmo ano, foi também distinguido em sua terra natal com o título de Cachoeirense Ausente Nº 1, concedido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, a filhos da cidade que se destacam em outras paragens sem perder a conexão com suas origens. Para se ter uma dimensão da homenagem, é preciso entender suas origens. O título de Cachoeirense Ausente Nº 1 foi criado em 1942 pelo poeta Newton Braga , jornalista e irmão do escritor Rubem Braga, ambos nascidos e criados na cidade capixaba.
A Láurea foi concebida para homenagear personalidades naturais da cidade que se destacam fora de sua terra natal. Ao longo de décadas, dezenas de figuras ilustres receberam a honraria durante a tradicional Festa de Cachoeiro, dentre eles, o rei Roberto Carlos em 1967, o diretor e ator Jece Valadão em 1971 e, neste ano, o empresário Edmar Mothé.
As duas homenagens, recebidas quase como espelhos de uma mesma biografia, desenham com precisão o perfil de um homem que soube ampliar horizontes sem romper com a própria raiz. De um lado, Cachoeiro, berço de sua formação e de seus primeiros valores. De outro, Brasília, cidade que abraçou como casa e à qual passou a dedicar trabalho, energia e sentimento.
A escola de vendas
Edmar teve no trabalho sua primeira escola. Muito cedo, ainda aos 12 anos, começou a ajudar seu cunhado a vender roupas de praia em uma cidade próxima, Guarapari. Foi ali, em um cotidiano de observação, improviso e contato direto com o público, que desenvolveu a habilidade que mais tarde se transformaria em marca registrada: a capacidade de compreender pessoas.
Ao relembrar esse início, ele próprio identifica naquele cenário de praia uma lição fundadora: “Ali, eu tive a minha primeira aula de como escolher um ponto de venda”. E completa, numa reflexão que conecta o menino de então ao empresário de hoje: “Mal eu sabia que ia escolher pontos o resto da minha vida”, reflete.
Antes mesmo de comandar grandes operações, Edmar já havia aprendido uma lição decisiva do mundo dos negócios: vender não é apenas oferecer um produto, mas perceber comportamentos, antecipar necessidades e construir confiança.
Mais tarde, já adolescente, passou a trabalhar em loja e percebeu que vender era mais do que oferecer produtos: era compreender pessoas, observar comportamentos e construir confiança. Foi também ali que descobriu um traço que o acompanha até hoje. “Eu sempre fui muito competitivo. Sempre fui esportista, eu gosto de competir”, diz.
Essa combinação entre observação, disciplina e impulso competitivo ajudaria a moldar o empresário que viria depois. Mesmo hoje, à frente de negócios de alcance nacional, Edmar segue se definindo com a simplicidade de quem preserva a origem: “Sou vendedor.”
“Eu vi que a venda podia transformar a minha vida.”
Brasília como escolha e destino
Aos 22 anos, Edmar deixou o Espírito Santo e seguiu para Brasília com poucos recursos, mas com uma convicção clara de que precisava crescer. Começou em uma rotina severa, vendendo de porta em porta, enfrentando recusas, aprendendo a ler ambientes e a insistir sem perder a elegância. Foi nesse período que desenvolveu, em estado bruto, a resistência e a estratégia que marcariam toda a sua trajetória.
“Eu fui treinado no mar brabo, que era a porta a porta”, afirma. “Não é moleza, não.”
A mudança foi menos um gesto impulsivo do que uma aposta consciente em outro horizonte. “Eu descobri que, no Brasil, tinha mais ou menos 3 mil atividades. Dessas, 2.998 eu não queria para mim. Eu só queria duas: ou ser advogado ou ser empresário”, lembra.
Acabou escolhendo o empreendedorismo, a venda e o risco. E foi justamente em Brasília, longe da proteção da cidade natal, que transformou necessidade em impulso.
Brasília, no entanto, deixou de ser apenas uma cidade de oportunidades. Tornou-se casa. Foi aqui que Edmar consolidou sua vida, seus negócios, seus vínculos e uma relação afetiva cada vez mais evidente com a capital. Ao receber o título de Cidadão Honorário, resumiu esse sentimento de forma direta: declarou-se “verdadeiramente apaixonado pela cidade”.
Esse vínculo, no entanto, não nasceu pronto. Foi construído no enfrentamento, na reinvenção e na convicção de que era preciso avançar. Em um dos trechos mais reveladores de sua trajetória, ele afirma: “Eu queria mudar de patamar de vida. Eu queria evoluir”. Em outro, resume a força que encontrou nas vendas: “Eu vi que a venda podia transformar a minha vida.”
De porta em porta, de sonho em sonho
Muito do empresário que Edmar se tornaria foi forjado nesse período em que a rua, literalmente, era o seu campo de ação. A venda porta a porta lhe ensinou mais do que qualquer teoria sobre mercado, liderança ou estratégia. Foi ali que ele aprendeu a lidar com a recusa, a insistir, a observar, a adaptar discurso, postura e timing. “Eu fui treinado no mar brabo, que era a porta a porta”, diz. E arremata: “Não é moleza, não.”
Essa experiência radical de formação comercial o ajudou a lapidar uma visão extremamente prática do trabalho. Foi também nesse tempo que consolidou uma ética pessoal baseada em ambição disciplinada. “Na minha vida, eu quis ser o número um. Porque dá o mesmo trabalho”, diz. A frase, já repetida por familiares como uma espécie de lema íntimo, talvez seja uma das chaves mais reveladoras de sua personalidade. Não se trata apenas de competir: trata-se de entender que qualquer esforço deve ser orientado para a excelência.
O empreendedor e o construtor de marcas
Foi na Capital Federal que Mothé ergueu os pilares de sua trajetória empresarial. “Gosto de dizer que eu sou criador de mundos”, brinca. E não é longe do literal; uma de suas primeiras empreitadas na capital federal foi no setor imobiliário, trabalhando na venda de loteamentos de Valparaíso e Luziânia. “Posso dizer que, ao longo dessa trajetória, 80% dos loteamentos destas regiões tem a minha assinatura”,conta.
Aos 32 anos, Edmar deu um novo passo ao compreender que a qualidade da água era uma oportunidade e tanto. Fundou a Mundo dos Filtros, que saltou de um quiosque no shopping Conjunto Nacional para um negócio com mais de 1 milhão de clientes cadastrados.
Hoje, a Mundo dos Filtros é considerada o maior marketshare de um produto relevante no Brasil, sendo que 90% da água consumida em Brasília passa por equipamentos da marca, que conta com 42 lojas e gera mais de 700 empregos diretos e centenas de empregos indiretos.
Na sequência, fundou a Telemundo, uma empresa de telecomunicações que, durante seis anos, ganhou prêmios e ajudou a disseminar a telefonia móvel em Brasília. Deste período, Edmar se recorda com animação de um feito que é, segundo ele, o sonho de qualquer vendedor: “Eu tinha pessoas pegando senha para consumir o meu produto e fazer fila na loja!”.
O terceiro mundo de Edmar
Como ele mesmo disse, a competitividade e coragem fazem parte de seu DNA. E foi justamente de uma negativa de fazer parte de uma rede de produtos naturais que Edmar se viu motivado a estudar aquele mercado em ascensão e trazer sua própria marca para o jogo.
Em 2015, ele inaugurou a primeira loja da Bio Mundo, no shopping Boulevard, no final da Asa Norte. Era o início de uma empresa que se converteu em uma rede nacional ligada ao universo do bem-estar, da alimentação saudável e dos suplementos.
“Em apenas dois anos, estruturamos 26 operações em Brasília e alcançamos um faturamento de R$100 milhões”. Hoje, com uma década de história, a Bio Mundo está presente em 22 estados além do Distrito Federal. Se tornou referência em franquias: conta com mais de 200 lojas, sendo que 62% dos franqueados possuem mais de uma unidade. Para 2026, são estimados mais de R$400 milhões de faturamento.
Edmar, no entanto, não pensa em tirar o seu time de campo, pelo contrário. Aos setenta anos, sua paixão pelos negócios se iguala a sua veia futebolística.
Apaixonado por futebol, ele faz do esporte uma extensão de sua vida social e de seu estilo de liderança, reunindo amigos, empresários e colegas do Minas Brasília Tênis Clube em partidas semanais em sua casa, no Lago Norte. Mantém um time próprio, o Estrela, e ainda encontra pique para competir na Copa AFIA 100, em uma categoria que estreou este ano, para jogadores 70+. “Sou a prova de que a idade é só um número. O esporte nos mantém vivos!”,declara.
Essa ligação com o esporte não é acidental, tampouco recente. “Sempre fui muito competitivo. Sempre fui esportista, eu gosto de competir”, diz ele, numa frase que ajuda a conectar o jovem que corria para o treino com o empresário que fez da disciplina uma ferramenta de vida. O futebol, em sua rotina, é também um espaço de reconhecimento e pertencimento, onde o vínculo com Brasília se manifesta de modo informal, mas igualmente profundo.
Entre a origem e a escolha
Se Brasília o consagrou como um dos seus, Cachoeiro reafirmou a força de sua origem. O título de Cachoeirense Ausente Nº 1 de 2026 reconhece exatamente isso: o êxito de quem construiu uma vida fora, mas permaneceu ligado à cidade natal.
No caso de Edmar, as duas homenagens recebidas no mesmo ano formam um retrato preciso. Ele pertence a Brasília por escolha, entrega e trajetória. Pertence a Cachoeiro por memória, raiz e formação. Entre uma e outra, construiu uma biografia em que sucesso e pertencimento caminham juntos.
Em um tempo em que tantas histórias empresariais se apoiam apenas em resultados, a dele guarda um diferencial mais raro: a capacidade de aliar realização profissional, identidade pessoal e afeto pela cidade que o acolheu. Ao ser homenageado na Capital e reverenciado no berço de sua história, Edmar Mothé reafirma algo que sua própria vida já demonstrou : há cidades pelas quais se passa, e há cidades às quais se escolhe pertencer. Brasília certamente é uma delas.








