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terça-feira, março 3, 2026

Nada é por acaso: o cálculo por trás dos acontecimentos políticos

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A famosa frase atribuída a Franklin D. Roosevelt — “Em política, nada acontece por acidente. Se acontece, pode apostar que foi planejado para acontecer” — revela uma faceta essencial do jogo político: a ação deliberada.

Mais do que uma observação cínica, trata-se de um princípio-chave para entender como o poder é construído, mantido e, muitas vezes, manipulado. Em um campo onde cada movimento pode desencadear ondas de consequências, a espontaneidade genuína é quase sempre descartada.

Na arena política, os bastidores são tão ou mais importantes que os palcos. O que parece ser um escândalo repentino, uma aliança improvável ou uma decisão polêmica de última hora geralmente é o resultado de longas articulações, negociações e cálculos estratégicos. Carl Schmitt, teórico político alemão, já advertia que a política é, antes de tudo, uma forma de distinguir o amigo do inimigo — e, nessa lógica, planejar é sobreviver. O improviso, se existe, é cuidadosamente roteirizado.

Essa lógica se torna visível quando observamos eventos aparentemente espontâneos, como protestos populares ou reviravoltas parlamentares. Embora massas em movimento pareçam orgânicas, quase sempre há interesses organizados por trás — sejam eles partidos, movimentos sociais, empresas ou grupos internacionais. Antonio Gramsci, ao estudar a hegemonia cultural, mostrou como as ideias dominantes na sociedade são construídas com base em um processo histórico intencional e estruturado. Ou seja, o consenso raramente é natural; ele é construído, passo a passo, por quem detém os meios de influência.

Mesmo as crises políticas — que por vezes parecem descontroladas — funcionam como instrumentos. Um governante pode permitir que uma crise “estoure” como forma de desviar o foco de outro problema, ou para justificar medidas impopulares. Naomi Klein, em sua obra “A Doutrina do Choque”, argumenta que elites políticas e econômicas se aproveitam de momentos de trauma coletivo para empurrar agendas que, em tempos normais, encontrariam forte resistência. O caos, nesse sentido, não é um acidente, mas uma oportunidade.

Roosevelt, ele mesmo um mestre da engenharia política, compreendia profundamente o valor da encenação e da narrativa. Durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial, sua capacidade de moldar a percepção pública, controlar os fluxos de informação e construir consensos políticos foi fundamental para sua longevidade no poder. Tal domínio sobre os acontecimentos mostra como, em política, a causalidade raramente é linear e quase nunca inocente.

Michel Foucault, ao discutir o poder, ressaltou que ele não se exerce apenas com repressão, mas com produção: de verdades, discursos, regras e realidades. Ou seja, o poder molda o que é visto como natural, inevitável ou desejável. Assim, o que se apresenta como acidente pode muito bem ser a consequência lógica de estruturas cuidadosamente desenhadas para produzir determinado efeito.

Portanto, ao acompanhar os acontecimentos políticos — sejam eles locais ou internacionais — é sempre prudente perguntar: quem ganha com isso? Quem tinha meios para causar tal efeito? E, mais importante: o que parece espontâneo, mas pode ter sido cuidadosamente coreografado? Essas perguntas não apenas revelam as engrenagens do poder, mas ensinam que, na política, a ingenuidade costuma ser o maior dos erros.

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