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segunda-feira, junho 1, 2026

O menino e o foguete

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O menino e o foguete

O menino olha para cima e tem a visão ofuscada pelo sol. Mas mantém firme o olhar para mirar, entre os raios dourados, aquela ponta projetada para cima, quase entre as nuvens. Subir naquela estrutura que se eleva aos céus?

Uma sombra de medo voa pela sua cabeça, mas ele segue o embalo da meninada correndo e sobe as escadas da plataforma. Depara-se com uma ponte suspensa, que tremula violentamente com cada moleque desembestado que passa correndo. O menino estaca.

Aquela travessia é o primeiro teste que sua cidade lhe impõe. Voltar e descer humilhado ou seguir em frente para as alturas? Ele se agarra às correntes laterais, respira fundo e corre com destemor. Transpõe a pequena ponte que balança sem parar e avança por um corredor apertado com aclive para o céu.

Corre para a liberdade. Do cimo daquela altitude procura os pais lá embaixo. Acha-os, mas eles não estão olhando. Grita e acena, até que eles enfim lançam um olhar de aprovação. Pronto, missão cumprida. Olha, então, para o horizonte à sua frente. Familiariza-se com ele, ama-o, faz dele um companheiro inseparável.

O menino brasiliense ganhou a amplitude – é essa a sua grande missão espacial.

A descida é um pouco tumultuada. Os pés sujos de areia deslizam pelos altos degraus, os meninos descem correndo aos trancos, e a queda deve ser evitada com cautela. Mas agora não há mais medo, pois o menino conquistou os ares.

***

O foguete nunca decolou.

Atravessou a guerra fria e a corrida espacial parado, enferrujando. Em meio a Apollos e Sputniks, ele ficou ali, fincado na areia. (Quase uma areia lunar, pois há quem diga que, nos primórdios, aquele descampado parecia mais a vastidão da lua do que uma cidade).

Hoje ele aparenta estar menor e reduzido em escala. Antigamente, reinava junto com a Torre, dominando a silhueta do centro. Hoje, está apequenado entre hotéis e altos prédios comerciais que procuram engoli-lo. Mas sem sucesso.

Pois o foguete foi projetado para atravessar o tempo, e isso ele cumpriu bem. Três gerações completas já podem se orgulhar de terem feito viagem em sua estrutura.

E se não atravessou o espaço sideral, foi porque sua missão sempre foi expandir o espaço. Cada menino e menina que venceu a travessia da ponte, correu pelos corredores inclinados e chegou lá em cima, fincou sua pequena bandeira apropriando-se do espaço – o espaço livre, as grandes distâncias, o horizonte.

Um foguete na cidade-avião. A infância ganhando os ares e o brasiliense conquistando o horizonte para nunca mais perdê-lo.

 

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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