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O vírus e a crise da inteligência

O vírus e a crise da inteligência

A palavra vírus vem do latim e significa originalmente veneno. No final do século XIX, perceberam que algo que escapava do filtro bacteriológico (portanto, era menor que uma bactéria) poderia continuar infectante. Desde então, a palavra vírus transcendeu sua origem biológica e aterrissou em várias outras áreas do conhecimento. Dentre elas, por exemplo, a informática.

Nesse contexto, o vírus passou, um século depois, a algo temível para os usuários de computador: era o cibervírus. Na poesia, o vírus passou (com toda licença poética) a ser algo contaminante, algo irresistível, como Rita Lee utilizou na década de 1980, na sua canção Vírus do amor. Mas desde muito tempo, o vírus não retornou tão irrestivelmente ao seu contexto original quanto agora. O que ocorre é que como se não bastasse toda a crise atual deflagrada pela doença respiratória pandêmica, o momento adquire contornos políticos que confundem e se realimentam dessa confusão. É que no fundo, não estamos vivendo uma crise: estamos diante de uma policrise.

Inseridos na policrise, nós, cidadãos comuns, estamos mergulhados em uma névoa, uma espécie de transparência cinza. Na densa neblina, escutamos muitas vozes carregadas de posturas e imposturas, de significância e insignificância, e desgovernados, tateamos o caminho. A policrise é composta pelo vírus, mas também por outras facetas. Estamos sob o fog de uma crise política, uma crise de costumes, uma crise científica, uma crise ambiental, uma crise social, uma crise educacional (a qual tenho grande apreço em entendê-la), uma crise econômica. Mas todas elas, na minha opinião, estão abaixo de uma crise maior que perpassa por todas as outras: a crise da inteligência.

O que se espera para lidar com uma crise, é que haja pensamento crítico complexo, capacidade dialógica, escuta ativa de vários opinantes, capacidade de tomada de decisões, análise plural de cenários, coalizão e sobretudo, a construção de soluções efetivas. Esses são os predicados definidores de uma pessoa inteligente.

Uma pessoa inteligente não é tão somente uma pessoa que sabe: é mais que isso. A inteligência não é só uma categoria cognitiva: é uma categoria moral. Pouco vemos isso. Nesse cenário dantesco e denso de fumaça, tem-se que uma crise abre portas para outras, que se ligam. O gabinete real da crise parece não compreender sua missão, parece estar detido em interesses desinteressantes para a população, estão míopes na névoa. O gabinete só consegue enxergar meio palmo à sua frente, talvez se muito, o próprio umbigo.

Procuram-se pessoas inteligentes. Parece a cena remetida à Grécia antiga, de Diógenes, que saía nu com um lampião na mão, em meio a população, perguntando: “procuro um homem”. Estamos e somos governados por homens médios, autorreferenciados e jactantes. O distanciamento social é mais do que físico. Temos um engodo de governança. O povo brasileiro está fatiado, são três povos. Há aqueles que se engajam à essa governança, aqueles que a repudiam e aqueles que permanecem em ignorância, alheios a qualquer movimento. Onde se encontrariam os inteligentes?

Parece que estamos em absoluto desamparo. No desamparo, procuramos heróis. E aí, entra o quarto poder: a imprensa. A imprensa nos “ajuda” a escolher nossos heróis. As imagens selecionadas por trás de uma organizada escolha de pauta, de linha editorial controlada e adestrada, comunicam a verdade.

Qualquer um dos três povos não consegue pensar por conta própria, não consegue pensar para fora desse contexto administrado. Não podemos pensar diferente e autonomicamente. Só respondemos às pautas organizadas e não temos tempo para uma legítima democracia cognitiva.

A imprensa corporativa não fomenta inteligência. Ela presume a burrice e nos emburrece. Ela não acredita e não se interessa pelo pluralismo e pelo descontrole da informação. Dessa forma, ele não só informa, mas controla. Em tempos de confinamento, estamos ainda mais suscetíveis a esse controle e os dados sobre a audiência aumentada dos programas jornalísticos confirmam-nos essa tese.

Kafka dizia que “todos os erros humanos são impaciência, uma interrupção prematura de um trabalho metódico.” Continuamos sem um projeto de país, de um país potencialmente para todos e não para alguns que se mantém representados no poder, se revezando no poder, sob a égide desta ou daquela sigla partidária, e usando o poder para si, revelando a eterna incapacidade de discernimento entre o que é público e o que é privado. Basta disso! Nessa esteira, continuaremos sem lugar para chegar, continuaremos envoltos na névoa sendo guiados pelas imagens escolhidas, por homens médios e pela cultura do medo. Sem heróis possíveis, só inventados. Nossa solução, começa internamente, dentro de cada um de nós.

Não precisamos de heróis, autocratas, tecnocratas, nem de velhas ou novas oligarquias. Precisamos investir na inteligência do nosso povo. Um povo inteligente nunca será governado pelos humores desses mesmos homens. Precisamos agilizar como um grande projeto que nossas crianças, jovens e adultos possam se autogerenciar, se autorregular, que possam adquirir poder de análise crítica profunda, que possam estar efetivamente letrados, que possam compreender plenamente o texto, o subtexto e o hipertexto que anuncia o mundo.

Um povo que possa escolher o currículo a ser aprendido por nossos jovens e que não seja mais uma forma de adestramento, currículo este que se comporta alegoricamente como um Cavalo de Troia: precisamos de um outro lugar pedagógico e andragógico. Precisamos de um povo que saiba desligar a TV quando julgar necessário, que possa (e saiba) recusar a informação (ou a desinformação).

Um povo que transite de forma íntegra, respeitosa e democrática nas redes sociais. Um povo que use a urna como andaime para escolher um projeto de país arvorado nas liberdades conquistadas e que o voto assegure o mais proximalmente possível a representatividade do votante. Necessitamos de pessoas criativas, persistentes, motivadas e capazes de emitir opinião própria, genuinamente suas. Precisamos investir nas competências socioemocionais e nas competências cognitivas. Depois, as pessoas saberão o que fazer com elas. Ninguém mais insistirá em presumir novamente a burrice delas.

Precisamos levar a sério nossas escolas, nossas universidades e qualquer ambiente formal ou informal de aprendizagem. Que sejam organizados dentro de uma democracia consistente de seus grupos, que possam ser tão plurais quanto nossa constituição garante. Precisamos ser um povo brasileiro, inteligente e diverso.

Quando resolvermos essa crise, a crise da inteligência, daremos o grande passo.

Com um povo inteligente, talvez nem mesmo de um governo necessitaremos. A transparência cinza finalmente será menos cinza. Porque transparência completa também não tem seu lugar. A história nos mostra. Um povo inteligente não está imune nem às crises e nem aos vírus, mas sabe sofrer muito menos com eles.

Marcello Lasneaux

Professor, especialista em educação e neurociência, mestre em bioética, doutorando em educação, autor do livro “Inteligência, Memória e Sobre como estudar”.

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