21.7 C
Brasília
quarta-feira, junho 3, 2026

Pesquisa encontra indícios de biopirataria de conhecimentos indígenas

Date:

Share post:

Pesquisa encontra indícios de biopirataria de conhecimentos indígenas

Secreção de rã usada medicinalmente foi patenteada em 4 países

Uma pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora encontrou indícios de biopirataria de conhecimentos dos povos tradicionais da Amazônia sobre a secreção da rã Kambôr. De nome científico Phyllomedusa bicolor, essa pequena rã é usada por cerca de quinze povos indígenas, que conhecem as propriedades analgésicas e antibióticas da secreção do animal.

Ao cruzar informações no sistema de patentes internacionais, a pesquisa encontrou indícios de que 11 patentes registradas em países desenvolvidos podem configurar apropriação de recursos genéticos a partir de saberes tradicionais de povos indígenas, como explicou o pesquisador e professor de direito da universidade, Marcos Feres:

“Não é qualquer patente que use a secreção. Porque você pode usar a secreção com algum incremento, uma lógica de industrialização, que não tem uma relação direta com o conhecimento tradicional. Mas quando a relação é muito próxima do conhecimento tradicional, aí é que a gente começa a detectar um problema no sistema de patentes. Não há certeza, mas são indicações, fortes indícios de que está havendo ali um processo de apropriação de um conhecimento tradicional associado a recursos genéticos da região amazônica”.

A maior parte das patentes são registradas em países como Estados Unidos, Canadá, Japão, França e Rússia. O artigo publicado na revista Direito GV argumenta que as brechas nas convenções internacionais sobre patentes e biodiversidade, um sistema burocrático mais eficiente e a concentração do poder econômico nos países do norte global, permitem a apropriação de conhecimentos dos países do Sul.

Para o pesquisador Marcos Feres, o registro de patentes a partir de conhecimentos desenvolvidos no país gera perdas econômicas e políticas para o Brasil, transferindo esses recursos para nações mais desenvolvidas.

“É uma nova forma de colonialismo. O Norte tem esse poder, tem esse saber e aí ele simplesmente se apropria desses recursos, usa de forma mais eficiente e eles acabam tendo esse monopólio. Porque a patente é um monopólio de uso daquela invenção por um tempo. Então isso é uma exclusividade, porque isso não é desenvolvido dentro do país. Ao mesmo tempo isso é transformado em propriedade quando, na verdade, com o conhecimento tradicional o importante é a liberdade de uso: mais pessoas terem acesso a esse tipo de conhecimento, do ponto de vista até de medicamento, medicamentos naturais”.

A investigação sobre patentes registradas com conhecimentos tradicionais do Brasil é um projeto em andamento. O autor do estudo, Marcos Feres, pretende examinar o sistema de direitos de propriedade intelectual em todo o mundo. Ele já identificou também indícios de transferência de conhecimentos tradicionais relacionados à flora brasileira.

Por Lucas Pordeus Leon – Repórter da Rádio Nacional – Brasília

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

spot_img
publicidade

Related articles

Copa do Mundo aproxima torcedores e transforma troca de figurinhas em momento de conexão e lazer

  Livraria Leitura, que também oferece gratuitamente aos clientes a Tabelinha da Copa, se destaca como ponto de encontro...

Fogo de Chão, em Brasília, prepara ações especiais para a Copa do Mundo

  Rede aposta em promoções exclusivas, telão para transmissão das partidas, brindes e até pontos de troca de figurinhas...

Praça Paulo Octávio fortalece parceria com o GDF por meio do programa Adote uma Praça

A Praça Paulo Octávio, localizada entre as quadras 6 e 7 do Setor de Clubes Esportivos Sul (SMAS),...

Ao longo da história, a tensão entre a força bruta e a norma jurídica tem sido um eixo central da política.

A frase "a lei do mais forte é, claramente, mais forte que a lei ordinária" revela uma...