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domingo, julho 19, 2026

O MENINO DE PALMEIRAS

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Como um filho do interior goiano construiu, tijolo por tijolo, um dos maiores legados da história política do seu estado.

Tinha catorze anos quando entrou pela primeira vez num cartório. Palmeiras de Goiás, interior do estado, três mil habitantes, ruas sem asfalto. Chão de terra, poeira no verão, lama no inverno. O menino Marconi entrou lá para trabalhar: a família não tinha folga no orçamento e ele, como primogênito, sabia disso desde cedo.

Antes do cartório, havia vendido picolé e trabalhado no açougue. Antes do açougue, na farmácia. Onze, doze, treze, catorze anos. Um emprego novo a cada ano. E antes de tudo isso, engraxate e vendedor de rua: frutas e quitutes preparados pela mãe, oferecidos de porta em porta pelas ruas sem calçamento da cidadezinha. Era assim que a casa girava e que ele aprendia o que a vida custava e o que o trabalho valia.

Marconi Ferreira Perillo Júnior nasceu em 7 de março de 1963. O registro diz Goiânia, porque na época as mães do interior iam à capital para dar à luz em condições seguras. Mas Marconi se considera de Palmeiras. Foi ali que ele cresceu, que brincou nas ruas com o filho do fazendeiro e com o filho do carroceiro, sem distinção de classe. Foi ali que aprendeu, antes de qualquer escola formal, que a política começa na convivência em comunidade.

“Na rua em que eu morava, morava engenheiro, médico, mas morava também a pessoa que tinha uma carroça, o outro que era lenhador. As classes todas estavam ali próximas umas das outras, e havia uma solidariedade natural. A gente brincava todo mundo junto, não tinha qualquer distinção”, lembra ele.

Com quinze anos, foi para Goiânia. Mergulhou nos estudos e tentou três cursos universitários: Ciências Sociais, Engenharia, Direito. Não concluiu nenhum, porque a política chegou em sua vida antes de qualquer diploma. Só décadas depois, já senador, ele voltaria às salas de aula para concluir o curso de Direito, porque Marconi não costuma deixar histórias incompletas.

O CHAMADO

A década de 1980 no Brasil era um caldeirão. O país saía da ditadura, a democracia ainda engatinhava e os jovens que tinham convicção iam para as ruas ou para os partidos. Marconi foi para os partidos. Aos vinte e poucos anos, já presidia o PMDB Jovem de Goiás. Depois, o diretório nacional da Juventude do PMDB.

Foi ao lado de Henrique Santillo, governador e figura paterna da política goiana, que ele aprendeu o ofício de gestão pública por dentro. Como assessor especial do governador, em 1987, via de perto o que um estado exige de quem o governa: capacidade de decidir, tolerância à pressão, visão de longo prazo.

Em 1991, foi eleito deputado estadual. Em 1995, chegou à Câmara dos Deputados em Brasília, já pelo PSDB. Na relatoria que transformou a falsificação de alimentos e medicamentos em crime hediondo, havia algo mais do que uma votação parlamentar: havia um filho de família simples que sabia, na pele, o que significa não ter acesso ao básico.

O MAIS JOVEM

Em 1998, Marconi Perillo tinha 35 anos e decidiu disputar o governo de Goiás. Seu adversário era Iris Rezende, nome histórico e figura que parecia inamovível no imaginário goiano. No segundo turno, Marconi venceu. Tornou-se o governador mais jovem do Brasil naquele momento.

O que ele construiu nos anos seguintes, é parte da paisagem viva de Goiás até hoje. As 90 unidades do Vapt Vupt levaram serviços do estado para perto das pessoas. A Universidade Estadual de Goiás criou oportunidades de ensino superior onde elas não existiam. O Renda Cidadã foi precursor das políticas de transferência que depois se espalharam pelo país. A Barragem do Ribeirão João Leite e 88 estações de tratamento de esgoto traduziram saneamento como política de dignidade. Na educação, foram 71 escolas militares e 150 unidades no padrão Século 21, que redefiniram a rede pública estadual. 10 presídios construídos ajudaram a reorganizar o sistema prisional. O CRER, o Centro de Reabilitação e Readaptação, tornou-se referência nacional no atendimento a pessoas com deficiência.

O Governo Itinerante, que levava o poder executivo para dentro dos municípios mais distantes, não era apenas logística. Era uma afirmação: ele era um governador que olhava também para o interior.

“Uma das coisas que me faz feliz é o fato de que em todas as pesquisas, a maioria dos goianos reconhece que os governos de Marconi foram os mais inovadores e modernizantes da história do Estado”, afirma ele.

Reeleito em 2002, aprofundou obras e programas. Em 2006, renunciou ao cargo para disputar o Senado e foi eleito com mais de dois milhões de votos, a maior votação proporcional para o Senado no país naquele ano.

 

O RETORNO E O APROFUNDAMENTO

Em 2010, voltou ao Palácio das Esmeraldas para o terceiro mandato e em 2014 para o quarto. Ao todo, dezesseis anos à frente do executivo goiano, uma trajetória que poucos estadistas brasileiros construíram. Nesse período, Goiás chegou ao primeiro lugar no IDEB do Ensino Médio. Foram construídos hospitais regionais, Colégios Militares, o HUGOL, o Aeroporto de Cargas de Anápolis. Foram duplicadas rodovias que antes eram promessa. Foram criados programas, como a Bolsa Universitária e o Banco do Povo, que mudaram trajetórias de pessoas de todas as regiões do estado.

Marconi não governou Goiás por dezesseis anos fazendo suas próprias vontades, governou com um planejamento duradouro, que seguiu dando frutos mesmo após o fim de seus mandatos.

A QUEDA E A LIÇÃO

2018 foi o ano mais duro. Marconi deixou o governo para disputar o Senado e perdeu. Ficou em quinto lugar. Para quem havia vencido todas as eleições que disputara, a derrota chegou como um choque que a política, eventualmente, cobra de todos.

Mas o que aconteceu depois da derrota é o que o define tanto quanto as vitórias. Marconi foi para o setor privado. Trabalhou. Aprendeu, por dentro, como funcionava a engrenagem da iniciativa privada: a tomada de decisão sem o amparo da estrutura estatal, a gestão de recursos sem a garantia do orçamento público. Colheu algo que o poder raramente oferece: distância crítica de si mesmo.

“A gente aprende muita coisa quando a gente perde. Você aprende a conhecer um pouco mais a alma humana. Nem todo mundo é generoso, nem todo mundo é leal, nem todo mundo é solidário quando você precisa”, disse ele, sem amargura.

Houve investigações e narrativas construídas por adversários. Mas, ao final, vieram as absolvições. E, mais do que isso, uma convicção que ele carrega como escudo:

“Não vou deixar que malandros construam minha biografia com a sua narrativa.”

Aprendeu também, nesse período, algo que poucos políticos conseguem: rezar pelos adversários sem fingimento.

“Todos os dias, quando eu rezo, eu rezo pelos meus adversários. Para que eles abrandem o coração deles e sejam menos cruéis”, contou.

É o que ele chama de virar a página. Não esquecer, mas seguir sem mágoa.

O HOMEM QUE VOLTOU

Hoje, Marconi Perillo tem 63 anos, preside o Instituto Teotônio Vilela após dois anos à frente do PSDB, período em que o partido voltou a crescer. Em 2026, disputa de novo o governo de Goiás. Mas o homem que disputa agora não é o mesmo de 1998, nem o de 2010. É alguém que passou pelo topo, pela derrota, pelo isolamento, pelo setor privado, pelas absolvições e voltou com algo que só a experiência madura carrega: a capacidade de ouvir antes de falar.

O estado que ele governou cresceu. Goiás é hoje a nona maior economia do Brasil. Parte do que foi plantado naquelas gestões, o saneamento, as universidades, as rodovias, os programas sociais, germinou e deu fruto. E parte do que poderia ter avançado ainda espera alguém que conhece o terreno para seguir em frente.

Marconi não governa Goiás desde 2018. Mas Goiás ainda está, em muitos aspectos, sobre o alicerce que ele ajudou a construir. É desse alicerce que ele fala quando diz que o passado é a credencial para o futuro.

O menino de Palmeiras que engraxava sapatos e vendia frutas nas ruas de chão de terra aprendeu, antes de qualquer coisa, que nada se constrói sem trabalho e que o Estado de Goiás pode mais.

 

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