Eu aprendi cedo que a política é um espelho imperfeito do país. Ela revela nossas urgências, nossas esperanças e, principalmente, nossas feridas. Só que agora existe um novo ator nesse palco, silencioso e muito eficiente: a inteligência artificial generativa. E ela não entra em cena para “opinar”. Ela entra para produzir sensação, acelerar certezas e empurrar a sociedade para dentro de um corredor estreito, onde a dúvida vira fraqueza e o outro vira inimigo.
A campanha moderna já não precisa convencer todo mundo com a mesma mensagem. Com IA, é possível criar milhares de variações de um mesmo discurso em minutos, com imagens, textos e vídeos ajustados para cada público. Uma mesma ideia pode ganhar voz, rosto, sotaque e trilha diferentes, até encontrar o formato exato que faz você parar a rolagem e reagir. E, quando a reação vem, o sistema aprende. Ele entende o que te prende, o que te irrita, o que te comove. A partir daí, ele devolve mais do mesmo, só que mais intenso.
O perigo não mora apenas na mentira descarada. Mora na distorção com cara de verdade. Um vídeo real recortado para inverter o sentido. Um gráfico verdadeiro sem fonte, apresentado como prova definitiva. Um áudio com voz sintética dizendo o que nunca foi dito. Um rosto que parece gente de verdade, mas nunca existiu. Um dossiê com aparência oficial, feito para circular rápido, antes que alguém tenha tempo de checar. A IA não precisa inventar tudo. Basta mexer no contexto para deslocar a percepção.
E a polarização vira o terreno perfeito para isso. Porque conteúdo que provoca raiva e medo costuma se espalhar mais rápido do que conteúdo que explica. Os algoritmos não têm compromisso com a verdade; eles têm compromisso com o engajamento. Quanto mais você clica em candidatos, páginas e comentários do “seu lado”, mais a plataforma entende que deve te servir um mundo onde só existe um lado. Aos poucos, a timeline deixa de ser janela e vira túnel.
Eu costumo chamar isso de treino emocional. A pessoa não é convencida por argumentos, ela é condicionada por repetição, urgência e choque. E quando a emoção toma o volante, a democracia perde o freio. A conversa pública se degrada. O debate vira provocação. A política vira guerra de identidades.
Se existe uma defesa possível, ela começa por um gesto simples e quase contraintuitivo: desacelerar. Antes de compartilhar, pergunte se aquilo te informa ou te incendeia. Procure a origem. Quem publicou primeiro? Em qual site? Em que data? Com quais dados? Desconfie de prints e vídeos sem contexto. Compare com mais de uma fonte, inclusive fontes que não pensam como você. Use checadores de fatos quando o assunto for sensível. Faça busca reversa de imagens. E repare nos sinais de fabricação: cortes agressivos, legenda genérica, apelo emocional exagerado, ausência de fonte, promessa de “verdade que ninguém quer que você saiba”.
Outra defesa é comportamental e, sim, é desconfortável. Diversifique seus cliques. Você não precisa mudar de posição para sair da bolha, mas precisa furar o túnel. Ler análises diferentes por alguns minutos já reduz a manipulação algorítmica que te empurra para extremos.
A democracia não depende de unanimidade. Ela depende de confiança mínima na realidade compartilhada. Em tempos de IA generativa, a pergunta mais importante não é se algo parece convincente. É se aquilo é verificável. Seu voto é livre. Mas sua atenção precisa ser protegida.

Gilson Leal
Professor de Inteligência Artificial para Negócios. IDP



