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Uma praça por trás do concreto

Uma praça por trás do concreto

Estacionamos o carro, e vimos, levantando-se ao leste, um obelisco, uma concha gigante e construções sólidas evocando força, poder e autoridade sobre um cerrado outrora indômito e um sertão desocupado.

Mas do outro lado, para onde o sol descia, refulgia a natureza por detrás do concreto, numa praça que pretendia domesticar o mundo natural entre seus limites de cimento; ou, inversamente, poderia ser a representação de uma natureza que envolvia a civilização num abraço fraternal, mas que ainda mostrava sua superioridade sobre os elementos e sua antiguidade sobre o local.

Seja como for, a fusão era um tanto quanto interessante. Chegamos por volta das quatro, quando o sol esquentava o chão e o ar de inverno. O local estava cheio de brasilienses mascarados, que aproveitavam os espaços vazios da cidade para espairecer do confinamento semanal.

Um canteiro de flores se destacava no lado esquerdo. Flores roxas, alongadas como espigas, balouçavam ao vento, trazendo o frescor da tarde e lembrando um campo de lavandas provençal. Crianças alheias correndo vieram falar com as nossas crianças, num bate-papo ingênuo e quase sem assunto, porém florido e suave, como aquela tarde.

Havia fila para a pequena trilha de pedras no meio do laguinho; todos queriam uma bela foto ao lado dos cristais de pedra, com o sol ao fundo. O caminho era estreito, e só comportava um por vez, de modo que quem desejava saltar entre os blocos de pedra até o meio devia esperar a família da frente ir, tirar suas fotos e voltar.

Peixes se amontoavam no lado direito do laguinho, volta e meia botando a boca aberta para fora da água, para alegria da criançada. As crianças, aliás, solidárias umas às outras, vieram com um saco de pão e deram alguns às nossas meninas. Arrancar pedacinhos de pão e alimentar os peixes passou a ser nossa ocupação e diversão pela meia-hora seguinte.

Será que algum peixe morreria de indigestão? Será que os pedaços estavam grandes demais? Eles aguentariam uma dieta excessiva em carboidratos? A preocupação, porém, se eclipsou frente a um grande pássaro que pousou perto e atraiu todas as atenções.

Era uma espécie de cegonha, de plumagem branca, bico preto alongado e pernas longas e finas. Ele parou ali, bem perto, com uma cara emburrada, como se estivéssemos invadindo sua sala de jantar. Os olhos fixos no lago, espreitando o momento certo, enquanto pais e filhos aguardavam ansiosos o desfecho daquela trama selvagem. Até que ele enfiou o bico no lago e engoliu um peixe, que por alguns segundos ainda se debateu dentro do seu papo – uma amostra da natureza selvagem que ainda não havia sido domesticada pelo concreto.

Um trio de amigas frequentava todos os cantos da praça, achando os melhores ângulos para fotos. Uma delas, toda produzida e carregando balões coloridos, completava aniversário. Aquela sombra abrigava familiares e amigos que se reuniam para um chá de revelação, e a mesinha do bolo já estava preparada, pronta para revelar a surpresa. Uma grande família naquele canto celebrava aniversário de alguma tia mais velha. De resto, piqueniques e crianças por todos os cantos.

Em cima, numa plataforma elevada com a vista ampla do lugar, achava-se um espaço propício para corridas e brincadeiras. Lá estavam novamente as três amigas se fotografando. Corre aqui, corre para ali. Uma queda no chão duro. Dois joelhos ralados e um pequeno choro de criança, logo abafado pela visão dos peixes lá embaixo comendo os pedacinhos de pão que recomeçamos a jogar no lago.

Seguindo por um caminho de sombras às margens do lago, vimos vários balões vermelhos em formato de coração amarrados em pequenas palmeiras. Um grupo reunido em pé, ouvindo o discurso de um homem fardado e elegante, ao lado de uma moça com um buquê de flores à mão. Ouvimos o exato momento em que ele retirou uma aliança e fez o pedido de casamento. Aplaudimos quando a moça, toda feliz e emocionada, disse sim.

Adiante, uma pipa voava no céu e chamou a atenção das meninas. Para o mesmo lado caminhava uma noiva, de vestido branco, fazendo ensaio fotográfico, arrumando-se em meio à correria de crianças fantasiadas de heróis e princesas.

O sol estendido ao longe emitia um brilho especial. Os arrulhos e gorjeios dos pássaros, encontrando ninhos entre as árvores copadas e fartas, ou entre palmeiras compridas e viçosas, invadiam aquele ar doce trazendo certa atmosfera edênica, lembrando o início dos tempos, quando o Criador passeava na viração do dia.

Era a natureza que transcendia àquele confinamento de pedra, assim com o brasiliense, embebido de ar, de espaço e de horizonte, transcendia ao seu confinamento de prédios.

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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