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domingo, junho 28, 2026

A data da última chuva

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A data da última chuva

Você, brasiliense, acha que é normal chover em junho? E chuva em agosto, já viu?

Pois todo ano acontece o mesmo fenômeno, não de ordem pluviométrica, e sim social, mas notei que tem ocorrido cada vez mais cedo. Trata-se de uma grande desinformação sobre a data da última chuva em Brasília, antes do período da seca.

Dá uma chuva esporádica no começo de junho. O povo se espanta. Nossa Senhora, que clima louco! É o aquecimento global! Uma de minhas funções enquanto brasiliense nativo é lembrar a todos que isso não é tão incomum. Agora até chuva em maio o pessoal fica em polvorosa. Nossa, nunca vi chover em maio! Daqui a pouco vão estranhar a chuva em fevereiro, ora essa.

Eu argumento com a seguinte conta. Brasília em geral fica cem dias sem chuva na estação da seca, às vezes mais, às vezes menos. A chuva ocorre geralmente em meados de setembro. Vamos calcular cem dias até, digamos, 15 de setembro. O resultado é que a última chuva ocorre por volta de 8 de junho. Ou seja, chuva no final de maio ou início de junho é normal, gente! Está comprovado pelos meus cálculos.

Mas poucos se convencem. Um colega do trabalho, tão cabeça-dura com relação ao assunto, quis até ligar para o Mamede do Inmet e sanar essa grande dúvida. Não chegou a tanto. Dar um google é mais fácil. Índice pluviométrico de Brasília. Vamos conferir.

Está lá. Em maio a média é de 39 milímetros. Estatística incontestável. Chove em maio, pouco, mas chove.

E quanto a junho? A média é de 9 milímetros. Baixíssima. Outra pesquisa no google indica que esse índice equivale a uma chuva fraca, de uns dez minutos. Mas são precisamente esses os dez minutos que temos no comecinho de junho e que espantam muita gente, todo ano: como assim chuva em junho?

Agora uma coisa me pegou desprevenido. Quando fui conferir o índice pluviométrico de Brasília, vi lá que a média de julho é maior que a de junho. São 11 milímetros de chuva. E 14 em agosto! O auge da seca! Chuva em agosto! Por essa eu não esperava…

Não me lembro de chuva em agosto. Só de céu azul sem nuvens, ipês amarelos, grama seca e redemoinhos de poeira. E a temperatura subindo e a umidade do ar caindo, até a seca atingir seu ápice no começo de setembro.

Ora, chuva em agosto… Agora eu tinha ficado desorientado como alguém perdido nos endereços do Park Way. E aqueles cem dias de seca, como seria possível?

Pensei depois que o índice pudesse englobar todo o quadradinho do DF, de forma que Brasília, bem menor, por certo deveria ter um índice pluviométrico diferente, talvez mais próximo da minha experiência: pequenas chuvas no final de maio e início de junho, julho e agosto todos na seca, e chuva em meados de setembro. Dessa vez o Google não me ajudou a encontrar o índice apenas de Brasília, ou não sei se fui ignorante ao vasculhar o site do Inmet.

Mas tenho uma amiga que corrobora essa interpretação. Ela, que mora em um desses condomínios distantes, brinca que lá é que são as “áreas isoladas” da previsão do tempo: “pancadas de chuva em áreas isoladas”. Entre os amigos, ninguém viu nenhuma gota na noite anterior, mas ela confirma que choveu em sua área isolada, sendo o contrário também verdade.

Logo eu, que havia me investido na tarefa de tranquilizar os outros sobre as chuvas de junho, confesso que fui surpreendido por essa estatística das chuvas em agosto. A única explicação possível, portanto, é que tais chuvas ocorrem apenas nas áreas isoladas.

É agosto, vou recorrer à minha amiga.

PS: Se você tem boa memória, vai dizer que esse ano choveu em julho. Sim, me recordo. E se quiser desbancar meu argumento, vai falar que ano passado choveu em agosto. Também me recordo. Mas estamos falando de média, de tendências gerais, e, portanto, o argumento, as contas – e o texto – continuam válidos.

 

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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