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A Queda do Muro do Parquinho

A Queda do Muro do Parquinho

Por longo período não havia a liberdade para ir e vir, e as pessoas se sentiam prisioneiras em sua própria cidade.

As autoridades sinalizaram que a abertura poderia vir em breve. Um rumor logo se espalhou, dizendo que as barreiras haviam caído.

Muitos saíram às ruas, forçando as fronteiras, e as autoridades nada puderam fazer senão testemunhar um fenômeno social espontâneo, incontrolável e histórico.

Se você acha que a história não se repete, então pode estar pensando que o episódio acima narra a queda do muro de Berlin, em 1989. Engana-se, pois o caso se deu ontem, aqui no parquinho da quadra.

Quando o governo sinalizou com a abertura gradual após longo período de quarentena, muitas famílias enclausuradas viram uma luz no fim do túnel e começaram a dar passeios mais destemidos pela rua – com máscara e mantendo o distanciamento social.

Mas tão-somente o vislumbre da liberdade às vezes é coisa incontrolável.

Descemos no fim de tarde. Embaixo do bloco, alguns pais e mães com seus filhos, para um breve período de banho de sol e de ar puro na quarentena.

As crianças, porém, se entreolhavam todas, naquela telepatia infantil que não precisa de palavras para fazer, com os olhos, um convite a alguma brincadeira qualquer. Mas os pais foram rigorosos no cumprimento da lei e da ordem: nada de contato, filho, daqui a pouco todos vão poder brincar juntos novamente.

Entretanto, enquanto os comandos paternos eram dados, algo fugiu do controle – isto é, fugiu dos braços do pai e saiu em disparada. Era um menininho veloz que corria em direção ao parquinho da quadra, parquinho que permanecia lacrado com cordões de isolamento em volta dos brinquedos.

Pois o menino pulou as barreiras e começou a brincar e a tocar em tudo, para desespero do pai. Súbito, porém, todas as crianças repetiam o gesto de desobediência civil, desgarrando-se em fúria de pais e mães. Confesso que minhas crianças também se juntaram à turba descontrolada, que rompia cordões, galgando o cimo dos escorregadores e conquistando as alturas das casinhas.

As autoridades – ou seja, nós, pais – nada puderam fazer para conter a massa popular, senão deixá-la enfim sentir o gosto da liberdade. Pois ficamos como bobos vendo a alegria inocente de crianças que podiam brincar juntas novamente.

Já as crianças estavam num grande congraçamento, como alemães ocidentais e orientais que se encontravam depois de uma longa espera, reunidas elas na mesma pátria que é a infância. Pulando, escorregando, inventando brincadeiras e fazendo o que as crianças fazem de melhor, que é brincar com quem quer que apareça no parquinho.

Não digo que houvesse martelo para quebrar muros, imagem tão icônica que nos vem de Berlin, mas é verdade que havia ali chinelos que eram batidos contra o cordão de isolamento, até que ele enfim se rompeu.

Também não posso dizer que o episódio terminou pacificamente, pois foi o caso que anoiteceu e muitos infantes recusaram as ordens para subir e voltar para casa. Tirando esses contratempos, importa dizer que o parquinho havia sido conquistado naquele fim de tarde.

Não sei como será o dia de amanhã. Provavelmente a quarentena irá continuar e reconstruirão os muros de Berlin, digo, do parquinho.

Mas isso não apaga o testemunho de um dia histórico, desses com registro nas crônicas dos povos, um dia em que um movimento social espontâneo venceu as forças das autoridades para alcançar a liberdade, ainda que tardia: o dia da Queda do Muro do Parquinho.

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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