A frase “Toda mentira contada é uma dívida com a verdade”, encapsula uma tensão fundamental da política: a mentira como instrumento de curto prazo, cujos juros, no entanto, sempre vencem. No jogo do poder, mentir é uma ferramenta recorrente – muitas vezes indispensável.
Governantes, partidos e líderes constroem narrativas, omitem dados, distorcem contextos ou simplesmente falseiam os fatos para manter controle, mobilizar apoio ou desviar a atenção. A política moderna, especialmente em sociedades de massa e sob o reinado da comunicação em tempo real, tornou-se um terreno fértil para esse tipo de manipulação simbólica. Mas qual o custo dessa prática?
Maquiavel, em “O Príncipe”, já admitia a eficácia da mentira como recurso do governante, desde que o objetivo maior – a estabilidade do Estado – fosse preservado. Para ele, o governante precisava saber “entrar no mal quando necessário”, ainda que mantendo as aparências da virtude. A astúcia da raposa era tão necessária quanto a força do leão.
No entanto, Maquiavel pensava a mentira como meio, não como fim. E é aí que mora o perigo contemporâneo: a mentira que se transforma em sistema, em estrutura de governo, em forma de dominação duradoura.
Hannah Arendt, ao tratar da banalidade do mal e da manipulação ideológica dos regimes totalitários, alertou para os riscos do colapso entre o verdadeiro e o falso.
A mentira, quando sistematizada pelo poder, corrói não apenas a confiança social, mas a própria capacidade de discernimento dos indivíduos. Arendt via na mentira política moderna não apenas um desvio ético, mas uma forma de reconfiguração da realidade. Quando o Estado ou seus representantes mentem deliberadamente, eles moldam uma realidade alternativa em que as pessoas não sabem mais o que é verdade – e pior: perdem o interesse em saber. Nesse ponto, a dívida com a verdade se converte em colapso da verdade como valor.
O sociólogo Pierre Bourdieu, ao analisar o poder simbólico, enfatizou que os discursos oficiais carregam uma força performativa – ou seja, eles não apenas descrevem a realidade, mas a constroem. A mentira proferida por uma autoridade não é apenas uma falsidade, é uma tentativa de reconfigurar o campo social.
Quando um líder político mente, ele não está apenas enganando; está exercendo poder sobre a percepção coletiva do que é real. A dívida com a verdade, nesse sentido, é também uma tentativa de redefinir os termos do contrato social.
Por outro lado, a mentira política pode, sim, ser eficaz em termos de manipulação e manutenção do poder – pelo menos por um tempo. Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, defendia que uma mentira contada repetidamente acabaria sendo aceita como verdade. Essa lógica não desapareceu com o fim da Segunda Guerra Mundial. Ela ressurge, com novos trajes, em campanhas de desinformação, fake news e estratégias de guerra híbrida que caracterizam o cenário político atual.
Contudo, como uma dívida mal administrada, a mentira tende a cobrar juros altos: erosão da legitimidade, instabilidade institucional, polarização extrema e, em última instância, a ruína de regimes.
Nietzsche dizia que “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”. Em regimes onde a mentira se institucionaliza, ela deixa de ser apenas um instrumento e passa a ser uma crença. A mentira que começa como estratégia se transforma em doutrina. E nesse ponto, a dívida com a verdade não é apenas impagável – ela é esquecida, enterrada, como se nunca tivesse existido.
No entanto, a história mostra que essa dívida volta à tona. Pode levar anos, décadas, mas a verdade tem uma capacidade notável de emergir – às vezes de forma explosiva, por meio de denúncias, revelações ou mudanças de regime; outras vezes, de forma lenta e gradual, como uma ressaca moral que atinge a consciência coletiva. A mentira política é, por natureza, instável. Sua força está na ocultação, mas sua fraqueza é a luz.
Assim, toda mentira contada por aqueles que exercem o poder é, de fato, uma dívida com a verdade – e como toda dívida, um dia será cobrada. A política, por mais que se alimente de discursos, símbolos e manipulações, não é imune ao tempo. E o tempo, quase sempre, é aliado da verdade.







