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terça-feira, junho 2, 2026

Brasília, 64 anos: cada vez mais lúcida

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Na véspera da decisão da Copa do Mundo de 1970, na qual o Brasil foi campeão, a escritora Clarice Lispector republicou no Jornal do Brasil um texto de meia página sobre Brasília. O conto, intitulado “Nos primeiros começos de Brasília”, gira em torno de uma mulher que se sente perdida em meio à nova capital do Brasil, refletindo sobre sua própria existência. Isso foi há 54 anos. Ou seja, dez anos após a inauguração da nova capital. E o que ainda me chama muita atenção no escrito é o trecho: “Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez.”

Brasília vem de um sonho. E, ao contrário do que é comum na agora chamada melhor idade, após os 60 anos, Brasília não perde a lucidez. A capital do Brasil completa 64 anos, em 21 de abril, com seus cidadãos cada vez mais conscientes do que querem e do que é necessário para viver nestas terras_: “a gente não quer só comida”_, já diziam os Titãs. A cada nova notícia que sai nos jornais, na internet, na televisão, está muito claro. O povo de Brasília quer o que é direito: saúde, educação, segurança, trabalho, lazer e proteção à infância. Serviços públicos de qualidade.

Então, dos primeiros começos de Brasília, vamos para os recomeços de Brasília. Você que me acompanha deve saber do meu trabalho em frente ao SindMédico-DF. Sou presidente do Sindicato que representa os médicos do Distrito Federal e há anos me empenho na missão de lutar pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Este que, vale lembrar, é uma garantia Constitucional. Constituição essa que, assim como Brasília, também nasceu a partir de um sonho. O de liberdade e de justiça para o povo brasileiro. E é por isso que o povo de Brasília está cada dia mais lúcido. Queremos o que é uma garantia. Queremos o que podem nos oferecer.

Como defensor do SUS, tenho avisado há alguns anos que não adianta fazer discurso de “faremos isso ou aquilo” sem colocar em prática. O planejamento precede a execução. E planejar uma saúde pública sem levar em conta a qualidade de vida daqueles que cuidam da população é só marketing. Propaganda dessas que o consumidor sai da loja direto para o Procon. “Venderem gato por lebre”, dizem. E venho dito: há médicos suficientes no DF. A população não precisa ficar em filas aguardando atendimento. Mas, é preciso dar condições de trabalho. Se não, o que chamam de “estratégia”, essa da qual não temos acesso, vira devaneio. E Brasília está lúcida.

A população de Brasília, no auge dos seus 64 anos, quer mais do que discursos. Obras? Sim, por favor! E postos de saúde com servidores, hospitais equipados, professores nas salas de aula e transporte público de qualidade. “É tempo de ação”, como diz o slogan do atual do governo. E a gente até desculpa os transtornos pelas obras, mas queremos mais do que isso, que rende boas fotos. É preciso parar de sucatear o SUS com argumentos confusos e contas que não fecham. É preciso parar de enxugar gelo com tendas e mutirões. Política pública é feita todos os dias, com continuidade. É preciso prevenir o caos e não tentar consertá-lo. É preciso valorizar a vida: essa que quer dignidade. Brasília agora só vai fechar os olhos para soprar a vela. E o pedido, neste caso, não é segredo: “pedimos mais do que promessas. Queremos o que é direito”.

Parabéns a Brasília, aos nossos cidadãos e ao nosso sonho cada vez mais lúcido.

Por: Gutemberg Fialho

 

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