Cristovam e o desafio de reinventar o progressismo

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Aos 82 anos, o ex-governador do Distrito Federal, ex-reitor da UnB, ex-ministro da Educação e ex-senador volta à disputa eleitoral para a Câmara dos Deputados, dizendo-se incapaz de permanecer em silêncio diante da crise do país e disposto a usar o mandato como tribuna para recolocar a educação no centro do debate nacional

Há políticos que retornam porque ainda desejam o poder. E há aqueles que voltam porque acreditam não ter terminado de dizer o que pensam sobre o país. Aos 82 anos, Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque parece se apresentar, mais uma vez, nesta segunda categoria.

Depois de ocupar alguns dos postos mais centrais da vida pública brasileira — reitor da Universidade de Brasília, governador do Distrito Federal, ministro da Educação e senador por dois mandatos —, ele volta ao processo eleitoral de 2026 como candidato a deputado federal pelo Distrito Federal, pelo PSB.

A justificativa que oferece é simples, mas grave: não quis se omitir. Desde que deixou o Senado, em 2019, Cristovam diz ter vivido um dos períodos mais felizes da vida. Dedicou-se integralmente à escrita, publicou livros, preservou a rotina doméstica e se afastou da disputa cotidiana do poder. Ainda assim, concluiu que não poderia permanecer apenas como escritor diante do momento do país e do esvaziamento, em sua visão, das forças progressistas. O mandato, para ele, vale menos como posto do que como tribuna.

Sua biografia ajuda a explicar o peso dessa volta. Cristovam foi reitor da UnB entre 1985 e 1989, governador do Distrito Federal de 1995 a 1998, ministro da Educação no primeiro governo Lula, entre 2003 e 2004, e senador pelo DF por dois mandatos, de 2003 a 2019.

Ao longo dessa trajetória, consolidou-se como formulador de políticas públicas e como um dos mais persistentes defensores da educação básica como eixo de um projeto nacional. Também é reconhecido como criador do Bolsa-Escola, implantado pela primeira vez em seu governo no Distrito Federal.

Em entrevista à 61 Brasília, porém, o passado aparece menos como consagração do que como lastro para uma nova batalha. O alvo de sua crítica não é apenas a ascensão da direita, mas também a incapacidade do campo progressista de oferecer uma utopia convincente para o mundo contemporâneo. Sua tese é dura: a esquerda envelheceu, perdeu imaginação e continua falando e fazendo promessas para um tempo que já passou.

É dessa inquietação que nasce sua candidatura. Mais do que recuperar projetos antigos, Cristovam quer usar a Câmara dos Deputados como espaço de formulação: retomar propostas deixadas no Senado, intervir no debate público e insistir naquilo que considera o único caminho viável para uma sociedade menos desigual num mundo marcado por escassez fiscal, crise ecológica e individualismo crescente: a educação.

Para ele, o desafio já não é apenas resistir à direita, mas renovar a linguagem, as prioridades e a imaginação do próprio campo progressista.

Se no século XX a promessa de transformação esteve ligada à indústria, ao emprego e à expansão material, sua aposta agora é outra: distribuir o capital decisivo do nosso tempo, que é o conhecimento. A escola pública, universal e de excelência, aparece em seu discurso menos como política setorial do que como fundamento de uma nova utopia democrática.

Seu diagnóstico, por isso, é ao mesmo tempo político e civilizatório. Cristovam fala de um país que perdeu o hábito de pensar o longo prazo, de uma esquerda presa a fórmulas antigas e de uma juventude que deixou de confiar na política porque se acostumou a vê-la fracassar. Seu retorno, nesse sentido, não é apenas eleitoral. É também uma tentativa de recolocar em circulação uma ideia de futuro.

Aos 82 anos, por que voltar agora à disputa eleitoral?

Porque cheguei à conclusão de que não dá para ficar omisso neste momento da história do Brasil e do Distrito Federal. Eu estava muito bem, escrevendo em tempo integral, vivendo um período feliz da minha vida. Mas senti que precisava ajudar, e não apenas observar.

E como o senhor sente essa volta à campanha?

Do ponto de vista pessoal, estou felicíssimo. Voltar para a rua, reencontrar gente, ser reconhecido, ouvir lembranças de projetos do meu governo e do meu tempo de senador — tudo isso é muito gratificante. Politicamente, porém, assusta ver o quanto a população caminhou para a direita.

Essa “direitização” do país o surpreendeu?

Muito. Há uma resistência grande aos partidos e às figuras progressistas. E acho que isso não se explica apenas pelos méritos da direita, mas também pelos fracassos e limites do nosso campo.

Quando olha para trás, há arrependimentos?

Acho que meu voto pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff foi um erro. Não digo isso sem considerar as circunstâncias daquele momento, mas hoje vejo como um erro. Talvez eu também tenha saído cedo demais do PDT.

E do que o senhor mais se orgulha na vida pública?

Dos projetos que saíram dos livros e viraram realidade. O Bolsa-Escola, a Poupança-Escola, a faixa de pedestres e o Programa de Avaliação Seriada (PAS) da UnB. São ideias que mexeram concretamente com a vida das pessoas. E também me orgulho de ter ajudado a consolidar no DF uma cultura de educação no trânsito, visível até hoje no respeito à faixa de pedestres.

Se eleito deputado federal, o que o senhor quer fazer na Câmara?

Retomar projetos que deixei no Senado e ter uma tribuna. Livro não é tribuna. Livro fica, o que é muito importante, mas não fala diretamente com a sociedade no ritmo da política.

 E o que o senhor quer dizer dessa tribuna?

Quero ajudar a reformular um projeto progressista para o mundo de hoje. A esquerda envelheceu. Continua oferecendo uma utopia que já não se sustenta. Fomos educados para a abundância e entramos na era da escassez — fiscal, ecológica e social.

Qual seria essa nova resposta progressista?

Para mim, o caminho é a educação. Não é mais a indústria que vai refazer a sociedade; é a escola. Uma escola pública de máxima qualidade, igual para todos. Esse é o novo socialismo possível: distribuir o capital de hoje, que é o conhecimento.

E como dialogar com o jovem que hoje se identifica com a direita?

Primeiro, reconhecendo que ele não está sendo irracional. Ele perdeu a crença na política e, em certa medida, tem razão. Nós frustramos os jovens. O que eu diria a ele é: sua solução individual não será possível se o restante da sociedade continuar sendo tratado como não gente. E “não gente”, aqui, é quem deixa de ser visto como parte do mesmo país — como se pudesse ser separado, ignorado ou descartado. Não existe futuro democrático possível sobre essa divisão.

O senhor ainda acredita que o Brasil pode produzir uma nova utopia democrática?

Acredito. Mas ela não virá pela repetição de fórmulas do passado. Vai ter de ser uma utopia compatível com os limites do planeta, com a crise do Estado e com a democracia.

Por fim: por que o eleitor deveria trazê-lo de volta ao Congresso?

Porque tive uma vida pública limpa, porque ainda tenho energia e porque quero usar essa energia para servir — não só como escritor, mas como agente do processo político.

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