Joe Valle: é tempo de semear de novo

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O engenheiro florestal, empresário e ex-presidente da Câmara Legislativa do DF volta ao cenário político com a experiência de quem transformou a Malunga em referência nacional em orgânicos e quer recolocar gestão, educação e planejamento no centro do futuro de Brasília

por Mariana Vieira

Aos 62 anos, Joe Carlo Viana Valle retorna ao cenário político do Distrito Federal com um ativo raro na vida pública: o da coerência entre discurso e trajetória. Engenheiro florestal, empresário e político, ele integrou a Câmara Legislativa do Distrito Federal entre 2011 e 2019 e presidiu a Casa de 2017 a 2019. Depois, saiu de cena por decisão própria, voltou ao chão da fazenda, reorganizou a vida em família e, só então, decidiu retomar o debate público.

Sua história, porém, começa muito antes do plenário. Nascido em Caicó, no Rio Grande do Norte, e criado em Brasília desde os 7 anos, Joe costuma dizer que a vocação surgiu cedo. “Eu nasci para ser produtor de comida”, afirma. A frase resume uma biografia que mistura infância nordestina, formação na Universidade de Brasília, vida rural e um percurso empresarial que transformou a Malunga em uma das maiores referências de produção orgânica do país.

A virada veio depois de experiências duras. Joe começou produzindo de forma convencional, como ensinava o modelo dominante, até sofrer intoxicação por agrotóxicos e, mais tarde, quebrar diante da lógica perversa da comercialização.

O estalo definitivo veio num gesto íntimo: ao colher um repolho para levar à mãe, percebeu que não queria oferecer à própria família aquilo que produzia com veneno. “Se eu não posso levar para a minha mãe, como é que eu vou vender para os meus clientes?”, recorda. “Naquele momento caiu a ficha: o que eu estava produzindo não era comida.”

Em 1995, Joe se casou com Clevane, agrônoma, parceira de vida e de projeto. Juntos, tiveram duas filhas, Mariana e Maria Clara, e ao lado da comunidade rural que crescia a cada dia, passaram a ampliar o objetivo de levar produtos orgânicos a mais pessoas. Foi assim que a fazenda Malunga chegou aos supermercados de Brasília, e abriu as portas de lojas próprias, consolidando um modelo de produção e distribuição pioneiro no Distrito Federal.

Hoje, a Malunga reúne 190 colaboradores, 120 hectares de hortaliças orgânicas e produção de laticínios orgânicos, além de lojas próprias e atuação reconhecida nacionalmente. Mais do que uma empresa, Joe a define como uma escola. “As empresas precisam se tornar escolas. Os gerentes precisam ser mestres”, defende.

A entrada na política também veio da experiência concreta. Depois de sofrer uma invasão de terra, concluiu que precisava disputar o espaço institucional para enfrentar problemas reais. “‘Então eu vou ser deputado’”, lembra ter dito ao descobrir que certas mudanças passavam pela Câmara Legislativa. O mandato viria depois, assim como a presidência da Casa e a fama de gestor técnico, disciplinado e avesso à política como performance.

Mas houve um intervalo. Após anos na vida pública, a família pediu sua volta para casa. Ele atendeu. Agora, diz retornar porque esse mesmo porto seguro o liberou novamente para o coletivo.

Você diz que nasceu para produzir comida. Quando percebeu isso em você?

Muito cedo. Eu fugia da casa da minha mãe para ir para o sítio do meu avô e dizia: “Mãe, eu vou morar na roça e vou produzir comida”. Eu acho que nasci vocacionado para isso.

Quando começou a produzir, ainda era no modelo convencional. O que te fez mudar de caminho?

Foram três coisas muito importantes: a intoxicação com agrotóxico, a quebra no processo de comercialização e aquele momento em que eu pensei em levar um repolho para a minha mãe. No meio do caminho eu falei: “Não posso levar isso para minha mãe”. Aí caiu a ficha: se eu não posso levar para ela, eu também não posso vender para os meus clientes.

Naquele momento, você já encontrou na UnB e em outras experiências a saída para essa virada?

Sim. Eu estava na Universidade de Brasília, naquele período de redemocratização, e encontrei um projeto sobre sistemas alternativos de produção de alimentos. A partir dali, comecei a viajar, conhecer experiências, ver o que funcionava economicamente e encontrar mestres que ajudaram muito nesse processo.

Você fala muito dos mestres e da missão de ensinar. Como isso entrou na Malunga?

Entrou como essência. Um dos meus mestres me disse: “Tudo que eu sei eu vou te ensinar. Mas tudo que você aprender você vai ensinar para as pessoas”. Eu faço isso desde a década de 1990. A Malunga se tornou também uma escola.

E como essa escola virou uma empresa de referência nacional?

Com persistência, ciência e muita resiliência. A gente provou que dava certo produzir orgânico em escala, mantendo princípio ambiental, social e econômico. E fomos acolhendo pessoas, ensinando, mostrando que era viável.

Você nasceu no Rio Grande do Norte, veio para Brasília ainda criança e cresceu aqui. Como isso te formou?

Meu pai era funcionário do Banco do Brasil e extensionista rural nato. Levava pequenos produtores para dentro de casa. Minha mãe era empreendedora. Eu vim muito cedo para Brasília, cresci aqui, estudei aqui, fui formado aqui. Tudo isso foi me formando.

E como foi que a política entrou na sua vida?

Entrou a partir de um problema real. Eu tive a terra invadida e fiquei indignado com aquilo. Quando me disseram que esse tipo de mudança passava pela Câmara Legislativa, eu falei: “Então eu vou ser deputado”. Foi uma decisão muito direta.

Depois da eleição e da experiência no Ministério da Ciência e Tecnologia, o que você passou a entender sobre gestão pública?

Que ela, quando bem feita, é milagrosa. E que a política partidária e as boas práticas de gestão pública se divorciaram litigiosamente. O sistema público precisa de qualidade de gestão, continuidade e valorização de quem toca o Estado.

Você falou que o problema não está só no voto distrital. Onde está o nó principal?

Na base. O voto distrital pode até ajudar, mas o problema é maior. O modelo de gestão está errado, falta planejamento, descentralização adequada, continuidade. A gente tenta mudar o telhado, mas a base continua ruim.

Por isso a educação aparece como eixo central da sua proposta?

Exatamente. Para mim, só tem uma saída: educação. Escola de tempo integral é fundamental. E a escola precisa ser o epicentro da mudança do bairro. As políticas públicas têm que convergir para a escola.

E como entram aí a horta escolar e a alimentação?

Entram de forma central. Eu defendo uma horta em cada escola e uma escola em cada horta. E defendo alimentação escolar 365 dias por ano, porque os meninos vão para a escola para comer e a fome não entra em férias.

Você decidiu parar a vida pública por causa da família. Como foi esse momento?

Foi a decisão mais difícil da minha vida. Minhas filhas e minha esposa fizeram um apelo. Eu percebi que, se não preservasse meu porto seguro, eu não conseguiria enfrentar um mar tão revolto quanto o de governar uma cidade.

E por que decidiu voltar agora?

Porque esse mesmo porto seguro me liberou. Minhas filhas hoje estão comigo, minha família está bem, e eu me sinto pronto para voltar ao coletivo.

Se for eleito, qual é o compromisso que você quer assumir com Brasília desde o primeiro dia?

“Eu quero me dedicar de novo a essa cidade. Quero voltar para o coletivo e fazer o melhor mandato que Brasília já teve. Essa é a minha vontade, e eu realmente vou fazer isso.”

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