Aos 68 anos, o criminalista mineiro fala sobre Brasília, poder, Judiciário, eleições e o refúgio íntimo da poesia em tempos de radicalização e ruído permanente
Linha fina
Influente sem mandato, partidário de ninguém e ouvido por todos, Kakay recebe a revista em sua casa no Lago Sul e reflete sobre a cidade, a política e a arte de preservar alguma humanidade no centro do poder
Na casa de Kakay, no Lago Sul, Brasília parece caber inteira: a política, os livros, a memória das grandes conversas e a liturgia informal de uma cidade que aprendeu a misturar poder e intimidade.
Aos 68 anos, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro carrega algo que poucos preservam com igual naturalidade na Capital: influência sem cargo, trânsito sem mandato e repertório de quem atravessou décadas no centro da vida pública brasileira sem jamais se filiar a partido algum.
A equipe da revista61 é recebida em um escritório que ajuda a decifrar o personagem. No ambiente, literatura, identidade brasileira e tribunais deixam de parecer universos apartados.
Ali, estantes e pilhas de livros convivem com um lote precioso de antigas edições de poesia, obras de arte e referências da cultura popular brasileira.
Entre elas, um chapéu e um gibão de couro, indumentárias que remetem a uma de suas atuações de maior repercussão no Supremo Tribunal Federal: na ADI 4983, que discutiu a constitucionalidade da prática da vaquejada; na ocasião, o STF reconheceu a importância e a constitucionalidade da manifestação cultural.
“Sou advogado porquê não pude ser poeta”, brinca o mineiro de Patos de Minas que, em sua festa de aniversário de 50 anos, mandou adesivar nos espelhos da casa toda trechos de poemas. “Minha esposa disse que não ia durar nada; quase vinte anos depois, eles ainda estão aí”. As palavras permanecem como lembrete muito vivo da importância da literatura na trajetória de um dos advogados mais conhecidos do Brasil.
Na sala principal, um verso de Mário Quintana parece comentar, com humor e exatidão, a singularidade de seu personagem: “Eles passarão; eu passarinho.” Criminalista dos mais influentes do país, amigo de presidentes, ministros, artistas e protagonistas da cena nacional, Kakay recebeu a reportagem às vésperas das eleições de 2026 para falar sobre Brasília, a erosão da convivência política, o avanço da extrema direita, o protagonismo do Judiciário e a poesia como forma de resistência.
Por que Brasília fascina tanto quem se aproxima do poder?
Para quem não mora aqui, a proximidade do poder dá uma impressão de poder. Você senta num restaurante e, na mesa ao lado, estão ministros, senadores, gente do Supremo. “Isso não muda nada a sua vida, você vai ter que pagar as suas contas do mesmo jeito.” Mas, para quem não tem o costume dessa convivência, isso cria uma sensação de importância.
E essa Brasília dos restaurantes, da conversa política, mudou?
Mudou muito. Não existe mais um lugar como existia antes. O celular alterou o comportamento das pessoas. Na época do Piantella [icônico restaurante brasiliense do qual Kakay foi sócio] a conversa do Congresso continuava nas mesas do restaurante. As pessoas perderam a espontaneidade. Hoje ninguém senta à vontade, ninguém faz certos encontros com naturalidade, porque tudo pode virar foto, exposição, interpretação.
O senhor acha que estamos vivendo um tempo distópico?
Sem dúvida. Tanto o Brasil quanto o mundo vivem um cenário distópico. Não é normal você acordar e a primeira notícia ser guerra, bombardeio, violência. A realidade ficou insuportável. Eu sou advogado criminal, conheço a realidade do sistema prisional brasileiro. Se você encarar isso o tempo inteiro, você não consegue viver.
Foi aí que a poesia ganhou ainda mais espaço?
A poesia sempre foi essencial para mim, mas ganhou outro lugar. Eu me refugio muito nela. Na pandemia, comecei a recitar um poema por dia e mandar para amigos. Em pouco tempo, estava enviando para 2.500 pessoas. A poesia é uma maneira de sobreviver à brutalidade do real.
A utopia ainda serve para alguma coisa?
Serve para caminhar. Aquela frase do Galeano é simples, mas é forte. A utopia está no horizonte; você anda e ela se afasta. Então, para que serve? Serve para caminhar. Sem isso, sem essa dimensão simbólica, afetiva, humana, a realidade fica insuportável.
A advocacia criminal continua sendo sua grande vocação?
Continua completamente. Eu adoro a tribuna. Acho que “a tribuna é o lugar de excelência da advocacia”. E a maior vitória que existe é conseguir a liberdade de alguém. Não importa se é uma pessoa conhecida ou anônima.
É mais difícil defender clientes famosos?
Muito mais difícil. Para o advogado, o ideal é quando o caso sai da mídia. Quando há muita exposição, tudo fica contaminado. O juiz sofre pressão, a opinião pública interfere, o ambiente pesa. Quando o caso sai do foco, você consegue fazer uma defesa técnica.
Como o senhor vê o momento político às vésperas da eleição?
Ainda muito tensionado. A extrema direita internacional interfere, sim, no Brasil. E o bolsonarismo virou uma seita. O problema de discutir com esse campo é que você não enfrenta um interlocutor com limite, com escrúpulo, com compromisso racional. Isso torna tudo mais difícil.
O Judiciário tem sido criticado por excesso de protagonismo. O senhor concorda?
O Judiciário é um poder inerte: ele só age quando é provocado. E, no momento mais grave da crise institucional, foi o poder que colocou o pé na porta e impediu o golpe. Eu tenho críticas ao Judiciário, sempre tive, mas acho que o Supremo apanhou mais por seus acertos do que por seus erros.
O país falhou em preparar uma renovação política?
Acho que sim. Essa renovação precisava estar mais adiantada. Lula tem uma dimensão histórica evidente, mas o Brasil precisava estar formando nomes com mais clareza. Sem renovação, a política fica refém da polarização e dos personalismos.
No fim, o que pesa mais: poder, direito ou poesia?
A poesia. O poder passa, os cargos passam. A poesia fica.




