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Mudaram as estações, nada mudou

Mudaram as estações, nada mudou

Rubem Braga, chamado por alguns de “fiscal da primavera”, gostava de observar com seu olhar perspicaz quando as estações mudavam. Certa vez, disse que o outono invadira o bonde em que andava na altura da Rua Marquês de Abrantes, sob a forma de uma folha seca que lhe batera na cara.

Braga andava muito pelo Rio – no sentido literal, de andar a pé mesmo. Na verdade, todos andavam muito pelo Rio, pois estamos falando da década de 1930, quando ainda havia bondes e quando o cronista registrou o início do outono na antiga capital. Quase uma centena de anos depois do relato de Rubem Braga, cumpre admitir que é quase impossível observar uma lua cheia dentro de um carro ou dentro de um trabalho ou na pressa do nosso século, quiçá a chegada de uma estação.

Mas deu-se o caso que, com a fixidez proporcionada pelo teletrabalho, a rua do lado de fora começou a ser apreciada com olhar mais detido. Aliás, uma das vantagens de estar em casa, em confinamento, é poder observar o movimento vagaroso da natureza: o crescimento firme mas imperceptível do pé de manga no jardim, o avanço diário das nuvens e a mudança na tonalidade do céu.

Pois às cinco e cinquenta e três da tarde da última terça-feira, dia onze de agosto, soprou uma brisa tépida vinda do oeste. O pôr do sol prometia se alongar para além das seis, com uma claridade entusiasmante. Essa massa de ar quente fez um leve cafuné na copa das árvores; agitadas, essas balançaram com certa timidez e graça, rumorejando no cicio de suas folhas.

A grama foi penteada para o lado com a lufada; um pó fino, quase invisível, subiu enquanto o ar passava, embaciando os olhos. Muitos não repararam, e pensaram ser o lusco-fusco do horário desbotando as cores do chão em tonalidades cinzentas. Era, na verdade, o último suspiro da relva. Ali a grama entregava seu espírito, que subia aos ares, aguardando, até a próxima chuva, a volta da sua cor.

A mãe preocupada sentiu o vento nas costas e já abria a bolsa para pegar o casaco da filha, quando, a meio do caminho, reparou que o ar era quente, não frio como nos últimos meses. Deixou a menina andar de vestido, confortável com a chegada da noite. Um pai pediu as horas, quando eu informei: cinco e cinquenta e três. Diante do anúncio do horário, ele e mais alguns se mostraram surpresos com o calor, a luz e com um sentimento de mudança que vinha com o vento. Foi quando me dei conta de que ali, àquela hora, a estação havia mudado.

O frio avançou impropriamente até agosto. O inverno se estendeu um pouco mais, preguiçoso debaixo de um cobertor, não querendo sair. Foi expulso pelo vento quente que soprou na última terça-feira. Pois esse vento passeou pela cidade anunciando, solenemente, o início da seca. Chegamos, afinal, na estação da seca!

A lenda diz que, naquela hora exata, três pessoas registraram o nariz sangrando e um repórter do tempo disse que a umidade do ar iria ficar bem baixa naquela tarde, mas talvez seja exagero. E também não precisamos de outras provas para a chegada da seca além desse triunfo do vento quente pela cidade na última terça-feira.

A estação mudou. De resto, nada mudou: as escolas continuam fechadas, os shoppings abertos, o coronavírus continua matando, as pessoas discutem sobre vacinas e remédios e a quarentena segue ano adentro.

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

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