19.5 C
Brasília
segunda-feira, junho 1, 2026

O coronavírus e o Setor Comercial Sul

Date:

Share post:

O coronavírus e o Setor Comercial Sul

As mortes pela coronavírus e a degradação do Setor Comercial Sul de Brasília são cenas de um mesmo cenário. O problema é sempre o planejamento…

Ou a falta dele. Mas uma resolução consciente, racional e planejada poderia mudar tudo. Compartimentar, dividir, organizar. Nasceu Brasília, uma esperança. Área residencial, área comercial. Setor Bancário Sul, Setor de Garagens Norte, Setor Hoteleiro, Setor Bancário.

Uma ocupação ordenada e planejada do solo, uma cidade organizada. O triunfo do homem sobre favelas, cortiços, a desorganização e a pobreza. Tudo vencido com o planejamento. A ciência da construção de cidades estampada em seu nível máximo numa capital moderna.

A esses planejadores de cidade a degradação do Setor Comercial Sul veio talvez como uma desilusão. O abandono, as pichações, a prostituição e, à noite, uma visão de cidade-fantasma. Se formos para outros setores, o cenário se repete: invasões, trânsito desordenado e barracos debaixo de cada viaduto.

Parece que o planejamento sucumbiu à condição humana; a esperança de uma cidade moderna evaporou-se na realidade de uma cidade como outra qualquer, com todas suas mazelas. Talvez não foi a cidade que deu errado, e sim o planejamento que foi irreal.

Mas acreditamos sempre nas promessas de revitalização! Afinal, somos filhos e netos de planejadores de cidades. É possível remediar, é possível fazer dar certo, é possível, enfim, planejar e executar corretamente.

E essa nossa mentalidade nos acompanha em cada problema. Numa pandemia de um novo vírus, sessenta anos depois, repetimos o mesmo ideal planejador.

Assistimos às centenas de milhares de mortes não com um lamento pelas vidas perdidas, mas com uma feroz indignação de que se tudo tivesse sido planejado e executado conforme as orientações técnicas e científicas, todos ainda estariam vivos.

Se tivéssemos feito o distanciamento, se tivéssemos respeitado as limitações da quarentena, se os hospitais tivessem recebido o investimento necessário, se os governantes tivessem tomado as medidas corretas, então estaríamos todos vivos, em casa, aguardando a vacina.

Nesse mundo de planejamento perfeito, com ciência e sem politicagem, enquanto as pessoas estivessem em suas casas, o governo teria oferecido o auxílio financeiro necessário e não haveria fome nem desemprego, e, em contrapartida, também não haveria rombo fiscal nem o preço do arroz subiria a despeito da injeção de liquidez. Bastava planejar e executar.

A pandemia pode ter trazido certa desilusão aos planejadores, análoga a de contemplar a desorganização em uma cidade planejada. Talvez o triunfo da ciência se mostrou impotente diante de uma nova ameaça. Talvez, e apenas talvez, nossa confiança planejadora tenha esbarrado no âmago da condição humana, sujeita ao mal, à bagunça e à morte.

Mas sempre iremos acreditar nas promessas de revitalização e de uma nova vacina!

Por isso, cada morte contabilizada nos jornais pode ser atribuída a alguma falha do governo: falta de investimento em hospitais, em médicos, em medidas restritivas. Não obstante, o planejamento ideal permanece em nosso horizonte como uma utopia ao alcance da mão.

Enquanto isso, a morte e a degradação de um setor na cidade são apenas inconvenientes temporários até que o planejamento dê certo.

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

spot_img
publicidade

Related articles

Fogo de Chão, em Brasília, prepara ações especiais para a Copa do Mundo

  Rede aposta em promoções exclusivas, telão para transmissão das partidas, brindes e até pontos de troca de figurinhas...

Praça Paulo Octávio fortalece parceria com o GDF por meio do programa Adote uma Praça

A Praça Paulo Octávio, localizada entre as quadras 6 e 7 do Setor de Clubes Esportivos Sul (SMAS),...

Ao longo da história, a tensão entre a força bruta e a norma jurídica tem sido um eixo central da política.

A frase "a lei do mais forte é, claramente, mais forte que a lei ordinária" revela uma...

Transporte escolar do DF opera com atrasos, rotas precárias e excesso de contratos emergenciais, aponta estudo*

Levantamento dos técnicos da Câmara Legislativa aponta problemas em áreas rurais, falta de integração e falhas na gestão...