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O ISOLAMENTO SOCIAL E O NASCIMENTO DE NOVOS PAIS  

O ISOLAMENTO SOCIAL E O NASCIMENTO DE NOVOS PAIS

As medidas restritivas de isolamento social estão mudando a vida de algumas famílias e consequentemente fazendo com que muitos pais estejam reencontrando seus filhos perdidos dentro das próprias casas.

Tem muitos anos que venho estudando essa grave epidemia social que denominamos “abandono afetivo”, ou seja, filhos abandonados totalmente por quem mais deveria ter cuidado deles, que em alguns casos, podem estar inclusive morando com os pais. É comum que pais cheguem em casa e de longe acenem para os filhos (quando esses não estão trancados no quarto), liguem a TV, trabalhem no computador, paguem boletos, jantem sozinhos, acessem todas as redes sociais, e se tranquem no quarto.

Estamos criando uma geração de filhos estimulada somente com objetos materiais, sem quaisquer limites, com pais emocionalmente indisponíveis e filhos ainda pequenos entregues (sem supervisão) a um arsenal de armas tecnológicas.  As consequências dessa grave omissão são as piores possíveis e podem variar desde problemas de saúde, traumas emocionais, inadequação social, depressão e outros.

E no meio de tanta tragédia, esperamos que muitos pais possam aproveitar o longo período da quarentena para interagirem com essas crianças e adolescentes, e participarem efetivamente de suas vidas. E assim, será possível que nesse período de isolamento social aconteça um outro nascimento: o nascimento de novos pais.

Envolvam seus filhos nas suas vidas e caminhem de mãos dadas com eles. Ter os pais como exemplo é a regra, e quando esses filhos ainda sentem que são importantes para os pais a autoestima melhora. De um modo geral, filhos que possuem boas memórias da infância com seus pais são mais propensos a lidarem com as tensões do dia a dia na vida adulta.

Os pais devem ser para os filhos exemplos de caráter e de como andar com integridade, servindo sempre de referência maior para eles. Portanto, cuidem dos seus filhos. Aproveitem esse tempo livre dentro de casa para reavaliarem essa situação e descobrirem uma nova vida ao lado deles.

Podemos transformar este momento trágico que estamos vivendo numa oportunidade de aproximação com todos esses filhos esquecidos dentro de casa. Em uma conversa de cinco minutos é possível sabermos um pouco sobre nossos filhos, seus medos, tristezas, frustrações, desejos e sonhos. Sejam pais todos os dias, brinquem, abracem, ensinem, conversem e aprendam a dar carinho e afeto para que não tenham que conviver com o remorso amanhã.

Neste momento, a desculpa “não tenho tempo” não cola mais. Estamos com tempo de sobra, e todos podemos fazer essa importante reaproximação, com conversas, brincadeiras, filmes (não se esqueçam da pipoca), livros, jogos de tabuleiro, afazeres domésticos adequados e jantares em família. É óbvio que a imaginação do que fazer será de cada família, pois o que realmente importa é não perder esta valiosa oportunidade de convivência.

E não tenham dúvida alguma de que um dia seus filhos irão lembrar bem disso tudo, estará gravado em suas memórias, pois essa tragédia que estamos vivendo está causando forte impacto emocional, ou por acaso vocês não se recordam aonde estavam no momento em que os aviões atingiram as torres no atentado de 11 de setembro de 2001?

Assim, cabe a cada um de nós decidirmos que agora seremos os capitães do barco das nossas vidas, para que possamos navegar juntos com nossos filhos, neste tempo de águas turbulentas, rumo a um porto seguro.

Não adiem mais essa decisão de participar ativamente da vida dos seus filhos, pois esse será o legado que irão deixar, e não tenham dúvida de que será dessa forma que as pessoas irão se lembrar de vocês um dia.

Acordem pais. O que vocês estão esperando para dar o primeiro passo nessa direção ainda hoje?

Char­les Bic­ca é Presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança, Adolescente e Juventude da OAB/DF. É au­tor dos li­vros “Abandono Afetivo – O de­ver de cui­da­do e a res­pon­sa­bi­li­da­de ci­vil por aban­do­no de fi­lhos” e “Mãe, cadê meu pai?” e co­au­tor do li­vro “Pedofilia – Re­pres­são aos Cri­mes de vi­o­lên­cia se­xu­al con­tra cri­an­ças e ado­les­cen­tes”.

 

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