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Reconciliação

Histórias da Quarentena

Reconciliação

Não dava mais, e ambos haviam decidido que o melhor era mesmo a separação. Mas sem grandes traumas, tudo ia ser consensual. Ele apenas pediu para ficar até o fim daquela semana até arranjar algum lugar para ficar. A contragosto, mas sem querer parecer intransigente, ela fez que sim com a cabeça.

Ele chegou a visitar um ou dois apartamentos. No terceiro encontro, desmarcou com o corretor porque não estava se sentindo muito bem. Corpo dolorido, achou melhor voltar para a casa, que já não era mais a sua casa, mas fazer o quê, ainda não havia arranjado o tal lugar.

Ela logo reparou quando ele entrou na sala. Acho-o pálido e abatido, e perguntou se ele estava se sentindo bem. Ele disse que não era nada, só estava cansado. Queria manter aquele equilíbrio nas indiferenças mútuas, aquela paz nas hostilidades silenciosas. Não era um corpo doído que iria fazê-lo devedor da compaixão dela – ele que já lhe devia o favor daquela semana estendida.

Mas então ele caiu ardendo em febre. Não sabia o que fazer naquela situação, pois em todas as vezes que adoecera fora ela que tomara todas as providências enquanto ele somente agonizava na cama. Mesmo assim, não quis chamá-la. Foi ela que passou, viu-o estirado daquele jeito na cama, tocou na testa e constatou a febre. Como nos velhos tempos, adiantou-se na preparação de um chá, deu-lhe um antitérmico e ajeitou a cama para ficar mais confortável. Em sua atuação de enfermeira, esqueceu-se da frieza que, por uma ordem inconsciente, deveria reger seus gestos para com ele, e se derreteu em cuidados.

No dia seguinte aconteceu tudo aquilo que tem passado nos jornais diuturnamente. Novo vírus, quarentena, home office. Como ele apresentou os sintomas, foi afastado do trabalho. Ela, por ter tido contato com ele, telefonou para o seu trabalho e foi informada de que também deveria permanecer em casa. Quatorze dias. Sem sair de casa.

Então lá ficaram os dois, presos num apartamento por duas semanas. Nos primeiros dias, o convívio foi amenizado pela relação enfermeira/paciente. Mas ele logo melhorou. A febre passou, embora ele tenha ficado ainda um tempo de cama, reclamando de dor no corpo.

Ela lembrou que ele sempre tinha sido assim. Recordou-se de uma viagem para o exterior quando ele ficou três dias acamados e achou que ia morrer por causa de uma sinusite. Ambos riram. Cada um com seu olhar fixo a algum objeto do quarto – pois ainda evitavam o olho no olho – e a face descontraída pelo riso. Como num relance, os olhares se cruzaram naquele silêncio do quarto, que evocava recordações antigas de quando eles eram felizes. O vulto de um pensamento passou como um relâmpago, mas logo se foi, e ela se levantou desconcertada dizendo que tinha que olhar qualquer coisa na cozinha.

Após a primeira semana, ele já estava plenamente recuperado. Agradeceu-lhe polidamente o cuidado, como a uma estranha, e disse que iria esperar apenas os sete dias restantes e depois iria sem falta. Tais dias passaram, mas agora ele estava impossibilitado de vez de sair. A cidade fechara de todo. Não havia como olhar apartamento, pois todos estavam confinados num isolamento social.

Enquanto ele assistia descrente às notícias, sem saber o que fazer, foi ela que se aproximou e disse que não tinha problema ele ficar ali, por quanto tempo durasse tudo aquilo, e que aliás era o mais prudente a fazer considerando as recomendações dos profissionais de saúde.

Como a empregada não aparecia desde a semana passada, eles montaram uma divisão do trabalho doméstico, sem reclamações ou invocações de injustiça, como fechando algum contrato sem ler as cláusulas, apenas desejando assinar os papeis e se livrar logo daquela chatice de cartório.

Cada um se distraia em sua parcela de trabalho doméstico, e passava assim um bom tempo matando o ócio e o tédio. Ele trocou silenciosamente as lâmpadas queimadas da sala que sempre tinha deixado para depois. Ela arrumou as bolsas e os perfumes cuja desorganização ele sempre reclamara.

Acontece que a divisão de trabalho que eles fizeram foi tão acertada, ou talvez tenha sido o fato de ambos trabalharem de bom-humor, ou as duas coisas – o fato foi que a casa estava sempre arrumada, a louça lavada, as roupas passadas, e começou a sobrar tempo para outras coisas. Um jantar, por exemplo.

Ela preparou um filé especial e se desculpou dizendo que era apenas para aproveitar a carne, que senão iria estragar. Ele agradeceu o jantar, e lhe ofereceu um vinho. Não que fosse um jantar especial, ou alguma ocasião a ser celebrada, imagina, era apenas que ele não admitia degustar um prato como aquele sem abrir um tinto. Ela riu e achou graça dessas manias.

Os olhares se cruzaram novamente. Mas aquela ideia vaga que uma vez passara rápido agora se instalara. Essa ideia estava ali, densa, avolumando-se como nuvem de chuva sobre a cabeça de ambos, fazendo os olhos cintilarem com sua suas insinuações e seus desafios ao que já estava decidido e resolvido. Começaram a conversar rotineiramente, despretensiosamente. Cansavam das notícias e ficavam ali, por longas horas, jogando conversa fora, assistindo juntos a tarde passar.

A quarentena passou, cinemas e shoppings foram reabertos, a curva de contaminação do vírus caiu. Mas ele não se mudou mais de lá.

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

 

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