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sexta-feira, julho 17, 2026

Um lugar para o alvorecer

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Um lugar para o alvorecer

Após o impasse entre a Ermida, a Ponte JK e a Torre Digital, resolveram seguir para a ponte. 

Era noite de Réveillon, e o grupo de amigos já tinha passado a virada em uma festa. Mas resolveram sair de lá para fazer algo mais íntimo. Alguém deu a ideia de esperar o nascer do sol em um lugar bonito. 

Embora fossem amigos, as escolhas quase sempre envolviam embates, e logo se formavam dois lados, de onde cada qual defendia seu ponto de vista ferrenhamente. Colhidos os votos, sempre alguém do lado perdedor ficava um pouco amuado, cabisbaixo, afetado, até que uma nova escolha o colocava no lado vencedor, e ele se animava novamente. 

Pois tomada a decisão de assistir ao nascer do sol, faltava escolher o melhor local.

A menina de cabelos curtos sugeriu a Torre Digital. O local era alto, tinha uma vista panorâmica de Brasília e a alvorada de lá seria belíssima. 

O jovem de óculos rebateu falando que nunca dava para saber se lá estava aberto ou fechado. Emendou às críticas a sua sugestão: Ermida Dom Bosco.

Ali era como ver Manhattan a partir do Brooklin: aquela vista do centro de Brasília, os monumentos iluminados pela suave luz da alva, o lago cintilando à frente…

Veio um terceiro do grupo, um que falava apressado, e criticou as duas sugestões. A Torre Digital estava fechada, ele garantiu. Quanto à Ermida, devia estar suja e lotada. Ele tinha algo melhor a oferecer: a Ponte JK. As mesmas vantagens da vista da Ermida, mas com a possibilidade de andar até o meio da ponte e ficar isolado das algazarras de jovens bêbados no primeiro dia do ano.

Mais um impasse entre o grupo: discussões, defesas, e, no final, vitória da ponte.

Estava ventando e frio, alguns reclamaram do local. Mas enfim acharam um canto na ponte onde poderiam aguardar a alva. Seguiu-se nova discussão. De que lado viria o sol?

Um deles jurou que era do oeste. Mas a maioria, recordando aulas de geografia, estava certa de que era do leste. Sim, mas onde ficava o leste? Nova discussão.

Olhando para o lado do Paranoá, lá estava a parte norte da cidade, Asa Norte, Lago Norte. O lado oposto era evidentemente o sul. Então, o leste só poderia ser para as bandas do Jardim Botânico. Chegaram nesse consenso. Mas sem muita precisão em relação às coordenadas exatas da chegada do astro-rei. De modo que, brigados, um grupo insistia que deveriam olhar na direção da Ermida, ao passo que outro argumentava que o mais correto seria contemplar a alvorada mirando em direção à subida da ponte.

Envolvidos nessa contenda, ninguém percebeu que nuvens enegrecidas tomavam todo o céu da capital naquela madrugada. De repente, quando se deram conta, já estava claro, mas não houve nenhum espetáculo de chegada do sol. Viu-se apenas o amanhecer sem graça de um dia nublado, onde o sol irradiou por cima das nuvens sem indicar sua localização exata e sem emanar beleza.

Todos foram para a casa decepcionados com o evento, pelo menos nessa disputa não houve vencedores – todos saíram perdendo. 

 

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