Sob comando de Gildo Vianna desde 2024, clube supera dívidas de mais de R$ 2 milhões, troca de técnico no meio da temporada e chega ao vice-campeonato do Candangão, garantindo vaga em competições nacionais em 2027.
Fundado em 1º de janeiro de 1975, o Sobradinho Esporte Clube carrega uma história de altos e baixos raros no futebol do Distrito Federal. O clube já disputou a Série B do Campeonato Brasileiro quatro vezes e a Série C uma vez, tem três títulos candangos e viveu, em 2018, o fim de um jejum de 31 anos ao bater o Brasiliense na decisão. Mas nos últimos anos essa história de tradição convivia com um presente de dificuldades: o time amargava temporadas na segunda divisão do futebol candango e o clube acumulava passivos financeiros.
Foi nesse cenário que Gildo Vianna dos Santos assumiu a presidência, em julho de 2024, sucedendo Túlio Lustosa. Segundo o próprio presidente, a herança recebida ia muito além de uma reformulação técnica: “Encontramos um clube abandonado, com mais de R$ 2 milhões em dívidas trabalhistas e impostos atrasados”, afirma.
“Organizamos a parte contábil para recuperar as Certidões Negativas e, com isso, atrair mais investimentos para o clube.”
A reportagem não teve acesso a balanços ou documentos que permitam confirmar de forma independente o valor total da dívida ou o percentual já quitado. A informação parte do relato do próprio presidente, que também não detalhou prazos para a quitação integral dos débitos trabalhistas nem para a regularização tributária completa.
Três meses depois de assumir, em outubro de 2024, a gestão já colocava o Sobradinho de volta à primeira divisão do Candangão, encerrando um ciclo de temporadas na segunda divisão. Para Gildo, foi o momento mais marcante de sua trajetória à frente do clube até aqui.
Uma temporada de turbulência e superação dentro de campo
Se 2024 marcou o acesso, 2026 testou a reconstrução de um jeito que a diretoria não esperava. O ano começou conturbado: em fevereiro, o técnico Daniel Franco foi demitido às vésperas da última rodada da fase inicial do Candangão, após uma derrota por 3 a 0 para o Samambaia. O treinador, contratado no fim de 2025, vinha de um aproveitamento de 58%, com quatro vitórias, dois empates e duas derrotas em oito jogos, mas a diretoria optou por uma mudança de rumo. Assumiu o comando, de forma interina, o técnico Vinícius La Porta, que vinha do sub-20 e havia comandado a equipe na Copa São Paulo de Futebol Júnior.
A decisão surtiu efeito dentro de campo. Sob La Porta, o Sobradinho eliminou o Samambaia na semifinal e avançou à final do Candangão pela primeira vez em sete anos, algo que não acontecia desde o título de 2018, justamente diante do Brasiliense.
Gildo resume o momento assim: “Foi uma temporada de superação. Conseguimos formar um elenco muito forte, com jogadores bastante dedicados, e uma comissão técnica muito comprometida. Todos sabiam que não tínhamos muitos investimentos, mas jamais faltaram dedicação ou vontade de vencer.”
A decisão aconteceu em 21 de março, no Estádio Mané Garrincha, com público de 43.335 torcedores, o maior registrado em uma final do Candangão nos últimos anos. Depois de 0 a 0 no tempo normal, o título foi decidido nos pênaltis, com o Gama levando a melhor por 5 a 4 e conquistando o bicampeonato, o 15º título de sua história na competição.
Apesar da derrota, o resultado teve um efeito prático importante: o vice-campeonato garantiu ao Sobradinho vaga em competições nacionais de 2027, entre elas a Série D do Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil e a Copa Verde. Depois de anos nas divisões de acesso do futebol candango, o clube volta a ter calendário nacional.

“O Sobradinho Esporte Clube vive um momento muito importante de reestruturação, que renova a esperança de todos os seus torcedores. A reconstrução do clube demonstra planejamento, compromisso e a vontade de recolocar o Sobradinho no lugar de destaque que sua história merece.
Como torcedor, fico muito feliz em ver esse trabalho sendo desenvolvido. Um clube forte representa muito mais do que resultados dentro de campo: fortalece a identidade da nossa cidade, incentiva nossos jovens, movimenta a economia local e enche de orgulho toda a população de Sobradinho.
Quero parabenizar toda a diretoria pelo empenho, pela dedicação e pela coragem de conduzir esse processo de reconstrução. Tenho confiança de que, com trabalho sério e união, o Sobradinho Esporte Clube continuará crescendo e conquistando cada vez mais espaço no cenário esportivo do Distrito Federal e da região.
O Sobradinho é patrimônio da nossa cidade e merece todo o nosso apoio.”
O gargalo estrutural do futebol candango
Para Gildo, o principal obstáculo do clube não está dentro de campo.
“Nossa maior dificuldade é a falta de investimento, tanto por parte do poder público quanto do setor produtivo do Distrito Federal”, diz. O presidente rebate a percepção de que o futebol do DF não atrai capital: “Existe uma ideia de que o futebol do DF não traz retorno. Na minha concepção, isso é uma falácia. Nosso futebol é um polo de desenvolvimento futebolístico, e daqui já saíram vários craques para o mundo.”
A avaliação de Gildo dialoga com um problema conhecido do futebol do Distrito Federal: historicamente, os clubes candangos têm dificuldade em sustentar investimento e estrutura de forma constante, com equipes que oscilam entre bons ciclos e períodos de esvaziamento financeiro, como o próprio Sobradinho viveu antes de 2024. Fora do relato do presidente, a reportagem não localizou dados públicos e atualizados sobre volume de patrocínio ou investimento privado nos clubes do DF que permitam mensurar com precisão essa defasagem em relação a outros estados.
A aposta na torcida e no Sócio Torcedor
Uma das apostas centrais da gestão é transformar a relação com a torcida em sustentação financeira do projeto.
“Nosso maior patrimônio é a nossa torcida”, afirma Gildo. “Tenho dito que nossa torcida é o principal pilar dessa reconstrução.”
Nos próximos dias, segundo o presidente, o clube deve lançar o programa Sócio Torcedor, iniciativa que pretende formalizar o vínculo entre a comunidade e o clube. “O Sobradinho EC é fruto da comunidade. Todos que conheço, tanto da direção quanto da torcida, pertencem à comunidade de Sobradinho”, diz. Até o fechamento desta reportagem, o clube não havia detalhado publicamente valores de adesão, benefícios ou data exata de lançamento do programa.
Gildo também descreve como equilibra a paixão de torcedor com a responsabilidade de gestor, algo que ele reconhece não ser simples:
“Gosto de assistir aos jogos junto da nossa torcida apaixonada. Às vezes, sou pego fazendo alguns questionamentos durante a partida, e o pessoal que está à minha volta diz: ‘Vai reclamar com o presidente’.”
Categorias de base, futebol feminino e as promessas para o futuro
Além da equipe profissional, a diretoria projeta um plano mais amplo para os próximos anos: retomar as categorias de base, hoje inexistentes no clube, e implementar o futebol feminino. Também está nos planos conquistar um Centro de Treinamento próprio, hoje uma limitação estrutural para clubes de menor orçamento no Distrito Federal.
“O retorno das categorias de base tem sido um dos nossos principais objetivos. Estamos trabalhando para conquistar nosso Centro de Treinamento, onde poderemos transformar o sonho de milhares de crianças e jovens em realidade”, diz Gildo.
Como no caso do Sócio Torcedor, o clube ainda não apresentou cronograma público para a execução desses projetos.
Para o presidente, o papel do clube vai além do resultado esportivo:
“Não vejo o futebol apenas como time profissional. Acredito que o Sobradinho EC pode cumprir um papel muito importante na formação de cidadãos e cidadãs de bem para a nossa sociedade.”
O que vem pela frente
Com vaga garantida em competições nacionais para 2027, o Sobradinho encara agora um teste de outra grandeza: manter, fora dos holofotes de uma final histórica, a organização financeira que a diretoria diz estar construindo desde 2024. A meta declarada pelo presidente é ambiciosa:
“Fazer do Sobradinho EC uma referência para o futebol brasileiro.” Daqui a cinco anos, ele projeta o clube “disputando as maiores competições do nosso futebol”.
Entre o discurso e a prática, o próximo ano será decisivo para medir se a reconstrução do Leão da Serra resistirá ao desafio de competir, ao mesmo tempo, nas ligas nacionais e no equilíbrio das próprias contas








