Pirenópolis é eleita a 6ª cidade mais acolhedora do planeta pela Booking.com e revela que hospitalidade de verdade não se aprende em manual.
Foto: acervo Prefeitura de Pirenópolis
Era uma tarde de sexta-feira quando Valdélio Muniz desembarcou em Pirenópolis pela segunda vez na vida. A primeira havia sido vinte anos antes, em 2006, quando o analista judiciário de Fortaleza resolveu conhecer o interior de Goiás quase por acaso. Desta vez, voltava com uma missão diferente: provar para si mesmo que a memória não havia mentido.
O taxista que o buscou na rodoviária foi o primeiro a fazer essa prova por ele. Não apenas levou a bagagem. Contou histórias da cidade, indicou cachoeiras, perguntou de onde vinha. Quando chegou à pousada, o café da manhã do dia seguinte servido pela própria família proprietária, com tempo, carinho e sem pressa confirmou o que ele suspeitava desde o primeiro abraço da viagem: Pirenópolis não havia mudado no que importava.
“Pirenópolis se diferencia exatamente pelo seu espírito acolhedor”, diz ele. “É algo difícil de descrever, mas, além da sensação de segurança e de tranquilidade ao andar pelas ruas, a cidade consegue nos fazer sentir acolhidos não como meros turistas que passam e movimentam a economia, mas como se fôssemos parte da cidade ou quase da família. É algo que só se entende mesmo vivenciando.”
O que Valdélio viveu em abril tem agora um número e um endereço no mapa do turismo global.
Em 2026, a Booking.com divulgou o Traveller Review Awards o mais rigoroso ranking de hospitalidade do mundo, construído com base em mais de 370 milhões de avaliações verificadas de viajantes em 221 países e Pirenópolis apareceu na sexta posição entre os destinos mais acolhedores do planeta. Foi a única cidade brasileira no Top 10. Ao lado de Montepulciano (Itália), Takayama (Japão), Magong (Taiwan), San Martín de los Andes (Argentina) e Harrogate (Reino Unido).Uma cidade goiana de interior, a 150 quilômetros de Brasília, com ruas de pedra quartzítica, cavaleiros em armaduras medievais e café da manhã entregue numa cesta no quarto, dividindo um pódio com os destinos mais charmosos da Europa e da Ásia. Isso é Pirenópolis.
Rua principal do lazer durante a noite — movimento de turistas Foto: acervo Prefeitura de Pirenópolis
O QUE O PRÊMIO MEDE E O QUE ELE REVELA
O Traveller Review Awards não premia o hotel mais caro, a cidade mais bonita ou o resort com mais estrelas. O critério é preciso e democrático: a proporção de meios de hospedagem locais que receberam avaliações superiores a 8 na plataforma, combinada ao volume e à consistência dessas notas ao longo do ano. Na prática, isso significa que o prêmio mede o cotidiano o café da manhã de todo dia, o funcionário que atende às 23h, o sorriso na saída. Pirenópolis tem mais de 400 pousadas cadastradas. Para que a cidade chegasse ao sexto lugar do mundo, a esmagadora maioria delas precisou ser avaliada bem, com regularidade, por hóspedes reais. Não é um resultado de marketing. É um resultado de cultura.
“O reconhecimento foi recebido com muita alegria e orgulho”, disse a Secretaria Municipal de Turismo ao ser consultada pela Revista 61. “Esse resultado é consequência de um trabalho construído ao longo de muitos anos, envolvendo poder público, empresários, trabalhadores do turismo e toda a comunidade local.”
A premiação, segundo a própria gestão municipal, tem impactos que se percebem no médio e longo prazo ainda não há dados consolidados que atribuam um pico de reservas exclusivamente ao prêmio. Mas os sinais chegam pelos canais mais imediatos: nas pousadas, os hóspedes estão mencionando o ranking durante as consultas. Estão chegando de cidades mais distantes. E chegando com expectativas mais altas.
A POUSADA QUE O MUNDO ESCOLHEU
Em todas as cidades do Top 10, a Booking.com destacou um endereço como recomendação oficial.
Em Pirenópolis, a escolha foi a Confraria da Prata uma pousada de charme no coração do Centro Histórico, tocada pelo casal Tadeu Fregonasse e Isabella, com jardim, honest bar e café da manhã entregue em cesta no quarto, no horário escolhido pelo hóspede.
Tadeu não costuma pensar em hospitalidade como estratégia. Pensa como gesto. Quando um casal fez reserva mencionando que comemoraria aniversário de casamento, ele e Isabella prepararam flores na cama, espumante, bilhete e chocolate. Coisas simples, como ele mesmo diz. Nadespedida, o casal contou que havia sido a primeira viagem em anos em que tinham conseguido realmente desacelerar.
“Mais do que hospedar pessoas, temos a oportunidade de participar de momentos importantes da vida delas e criar recordações.”
Tadeu Fregonasse, proprietário da Confraria da Prata
O prêmio chegou como surpresa e como confirmação. “Foi uma mistura de surpresa, orgulho e gratidão”, diz Tadeu. “Receber um reconhecimento desse porte, baseado principalmente na avaliação dos próprios hóspedes, tem um significado muito especial. Aqui na pousada, compartilhamos a notícia com toda a equipe e celebramos juntos, porque entendemos que esse prêmio pertence a cada pessoa envolvida.”
Para Tadeu, hospitalidade nasce da empatia mas pode ser ensinada. A Confraria investe em processos, treinamentos e, sobretudo, em algo que não tem nome técnico: atenção ao detalhe.
“O atendimento diferenciado surge quando técnica e sensibilidade caminham juntas”, resume.
“Receber bem é fazer alguém se sentir feliz por estar ali. É tratar com carinho, abrir a porta com um sorriso, mostrar as coisas bonitas do lugar e fazer com que a pessoa vá embora querendo voltar.”
Tadeu Fregonasse
Área interna da Confraria da Prata jardim, detalhe do café da manhã em cesta e fachada colonial da pousada Foto: acervo Confraria da Prata
QUINZE ANOS CONSTRUINDO O QUE NINGUÉM DERRUBA
Geovani Ribeiro chegou a Pirenópolis com um propósito ambicioso: trazer ao Cerrado um refúgio de charme à altura dos melhores destinos do país. O que ele e a CEO Maristela Alarcão construíram ao longo de quinze anos no Grupo Villa Hotéis é hoje um conjunto de três endereços Villa do Comendador, Dádiva Hotel Boutique e Casarão Villa do Império — que ajudaram a mudar o patamar da hospitalidade em toda a cidade.
Pelo 9º ano consecutivo, a Villa do Comendador integra o Travellers Choice do TripAdvisor, entre o 1% da hotelaria mundial. É o primeiro hotel de charme do Roteiro de Charme do Centro-Leste. Cinquenta piscinas dentro das unidades. Quartos com sauna e banheira. Um spa de referência no Centro-Oeste. Uma pizzaria premiada, sushi e jantares especiais aos sábados. Mas o que Maristela guarda com mais cuidado não é nenhum desses dados. São as histórias.
Casais que fizeram o pedido de namoro na Villa voltaram para o pedido de casamento, e depois para a lua de mel. Filhos que, desde pequenos, cresceram frequentando a casa. Famílias que nasceram dentro daquelas paredes.
Geovani e Maristela Alarcão, CEO da Villa do Comendador
“Fazer parte da história dessas famílias é a nossa maior alegria, e o que nos move todos os dias.”
Maristela Alarcão, CEO da Villa do Comendador
Para Geovani e Maristela, Pirenópolis é a Paraty do Cerrado e também a Campos do Jordão do Centro-Oeste. Uma cidade que preserva, sob proteção do IPHAN em seu centro histórico, a originalidade que é o seu charme. “O segredo da hospitalidade pirenopolina está nas pessoas e no seu jeito simples de acolher”, dizem, “e na diversidade que atende a todos os gostos.”
Villa do Comendador — área de piscinas, espaço gourmet] Foto: acervo Villa do Comendador
A CIDADE QUE O TEMPO ESQUECEU — E ISSO FOI UMA SORTE
Para entender por que Pirenópolis recebe tão bem, é preciso voltar ao século XVIII. João Guilherme da Trindade Curado doutor em geografia, historiador e escritor, sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), membro da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música (APLAM) e do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (ICEBE) conhece cada camada dessa história.
Fundada em 1727 como Minas de Nossa Senhora do Rosário, a cidade prosperou durante o ciclo do ouro e se tornou um entroncamento comercial estratégico o ponto de convergência das estradas que cortavam o Brasil. Quando o ouro começou a rarear, muitos núcleos mineradores simplesmente desapareceram. Pirenópolis sobreviveu adaptando-se à agricultura, especialmente o algodão, que era exportado para outras regiões do país.
O que hoje se chama de “isolamento” foi, na prática, uma combinação de resiliência e centralidade geográfica que manteve a cidade viva e preservou suas ruas, suas igrejas, suas casas. Os imóveis coloniais que encantam o visitante não sobreviveram por acidente. Eram bens de família, transmitidos por gerações, reparados quando necessário porque carregavam memória ancestral.
“A condição geográfica lhe proporcionou, nos dois primeiros séculos de existência, uma centralidade, o ‘entroncamento comercial’ das estradas que cortavam o Brasil”, explica Curado. “Tal convergência fez com que grande quantidade de pessoas, culturas, saberes e economia por aqui transitassem.”
Brasília foi o segundo grande divisor. A transferência da capital para o Planalto Central criou uma demanda nova — e um público exigente, com renda per capita entre as mais altas do país, a menos de duas horas de distância. As pousadas melhoraram. A gastronomia se sofisticou. A mão de obra foi qualificada. Mas o essencial permaneceu.
Fachada de casarão colonial restaurado no Centro Histórico — pedras, cores e texturas do século XVIII] Foto: acervo Prefeitura de Pirenópolis / IPHAN
AS CAVALHADAS E A ALMA DE UMA CIDADE
Há mais de duzentos anos, em algum momento entre maio e junho, cavaleiros trajados em armaduras desfilam pelas ruas de Pirenópolis reencenando a batalha entre Mouros e Cristãos. Os Mascarados circulam entre a multidão, brincando com os turistas. O cheiro de pólvora e poeira se mistura à música dos foliões. A Festa do Divino Espírito Santo da qual as Cavalhadas são o coração é o espetáculo mais antigo e mais vivo do Centro-Oeste.
Para Curado, as Cavalhadas revelam algo sobre a identidade pirenopolina que vai além do folclore.
“Ser uma manifestação equestre remete ao rural, em que receber bem é quase um dom, uma necessidade, uma premissa de vida”, diz ele. “Na própria encenação, o ‘diferente’ passa a integrar o grupo — uma alusão à hospitalidade local.”
A festa foi registrada pelo IPHAN como Celebração do Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro.
Mas sua sobrevivência, alerta Curado, tem um preço invisível. Recepcionistas, camareiras, garçons os trabalhadores do turismo que hoje sustentam a economia de Pirenópolis — muitas vezes não conseguem participar da festa que era, até poucas décadas atrás, o evento mais esperado do ano para os pirenopolinos.
“A Festa do Divino, que era uma manifestação local com ampla participação da população em geral, passou a receber muitos turistas”, explica o historiador. “O que colabora para a economia individual e local, mas que impossibilita o recepcionista, a camareira, o garçom de estarem participando daquela festa que antes era uma das mais esperadas e significativas para os pirenopolinos.”
Cavaleiros das Cavalhadas em armaduras coloridas — encenação das batalhas medievais] Foto: acervo Prefeitura de Pirenópolis
O RISCO DE CRESCER DEMAIS E O DESAFIO DE CRESCER BEM
Pirenópolis tem hoje mais de 400 pousadas e mais de 150 restaurantes, bares e pontos gastronômicos. Recebe o turista mais diverso: de diárias de setenta reais a hospedagens de mil e duzentos reais por noite. É, segundo os próprios empresários locais, “o principal destino turístico do Centro-Oeste”.
Esse crescimento é uma conquista. Mas também é um alerta.
Curado não esconde a preocupação com o que chama de gentrificação gritante. As casas do centro histórico deixaram de ser transmitidas na cadeia familiar. Foram vendidas para pessoas que não moram em Pirenópolis e que as alugam por temporada. As ruas que um dia eram vizinhança viraram vitrine.
“Há pouco menos de 30 anos, no atual recorte do Centro Histórico, era comum conhecer todos os vizinhos e moradores de determinadas ruas”, lembra. “Atualmente, muitas casas ficam fechadas ou são alugadas em finais de semana, quebrando os vínculos e atiçando a nostalgia entre os mais antigos.”
Tadeu Fregonasse, da Confraria da Prata, compartilha a preocupação de um empresário que quer ver a cidade crescer mas sem perder o que a faz especial.
“O crescimento é positivo quando acontece com planejamento e responsabilidade”, diz. “O risco não é crescer, mas crescer sem cuidado. A cidade precisa evoluir sem perder sua alma.”
A Prefeitura reconhece os gargalos. Mobilidade urbana, gestão do trânsito em alta temporada, estacionamento, saneamento: são desafios concretos de uma cidade histórica e de médio porte que vive um momento de visibilidade internacional. A gestão trabalha em um projeto de mobilidade urbana e busca o reconhecimento como Destino Turístico Inteligente (DTI).
“A principal lição que podemos aprender com outras cidades históricas é que o crescimento turístico deve ser sustentável e orientado pelo planejamento”, diz a Secretaria de Turismo.
“Pirenópolis entende que o turismo deve beneficiar a comunidade local e não substituir sua identidade.”
O QUE FICA DEPOIS QUE A VIAGEM TERMINA
Quando Valdélio Muniz embarcou de volta para Fortaleza, levou na bagagem algumas garrafas de cachaça artesanal, um chapéu de couro e a certeza de que voltaria para ver as Cavalhadas. Mas o que ele carregou de mais precioso não coube na mala. “A principal lembrança que ficou após a viagem”, diz ele, “é das belezas e da tranquilidade que se conciliam com a movimentação noturna dos bares e restaurantes e, principalmente, do acolhimento que nos proporciona a necessária revigoração.”
Ele define Pirenópolis em uma frase: “O lugar ideal para descansar a mente, esquecer os problemas das grandes cidades e renovar as energias para retornar à rotina — ou, quem sabe, para ir morar quando a aposentadoria chegar.”
Tadeu Fregonasse, que recebe esses visitantes todos os dias na Confraria da Prata, sabe o que quer que eles levem consigo. “Queremos que ele leve mais do que fotos bonitas. Desejamos que leve lembranças afetivas, momentos de descanso e tranquilidade, a sensação de ter sido bem cuidado e o desejo de voltar. Se o hóspede retorna para casa sentindo que viveu algo especial, então cumprimos nossa missão.”
A pergunta que a Booking.com fez ao mundo — qual cidade recebe melhor? — tem uma resposta que os pirenopolinos nunca precisaram aprender. Eles simplesmente vivem assim. Desde sempre.
“A autenticidade”, responde Tadeu, quando perguntado sobre o segredo da hospitalidade de Pirenópolis. “Pirenópolis não tenta ser outra cidade. Ela preserva suas tradições, sua simplicidade, seu ritmo e seu jeito acolhedor. As pessoas sentem quando o carinho é verdadeiro, e isso faz toda a diferença.”
SERVIÇO
Pirenópolis fica a 150 km de Brasília e a 120 km de Goiânia. Acesso pela GO-070 ou BR-070. A cidade possui mais de 400 opções de hospedagem e mais de 80 cachoeiras catalogadas na região. O centro histórico é tombado pelo IPHAN desde 1988. As Cavalhadas acontecem anualmente durante a Festa do Divino Espírito Santo, entre maio e junho. Informações em: turismo.pirenopolis.go.gov.br
Fontes entrevistadas: Tadeu Fregonasse (Confraria da Prata); Geovani Ribeiro e Maristela Alarcão (Grupo Villa Hotéis / Villa do Comendador); Secretaria Municipal de Turismo de Pirenópolis; João Guilherme da Trindade Curado (doutor em geografia, historiador e escritor; IHGG, APLAM, ICEBE); Valdélio Muniz (turista, Fortaleza-CE).
Dados: Booking.com Traveller Review Awards 2026 (mais de 370 milhões de avaliações verificadas em 221 países