Entre palmas e panelas

Entre palmas e panelas
Foto: Reprodução | YouTube

Entre palmas e panelas

Eu esperava um pouco mais de silêncio nessa quarentena. Se era para ficar em casa, então que tivéssemos menos poluição auditiva e pudéssemos ouvir os arrulhos da natureza com maior tranquilidade.

Mas o pessoal da obra aqui ao lado não ligou para essa ideia. A construção civil não parou; as retroescavadeiras e os tratores estão bem ali, à vista da janela, compondo uma sinfonia de ruídos para embalar o meu teletrabalho.

Quando a noite cai, eu esperava que pelo menos respeitassem o recolhimento familiar. Mas há um fenômeno frequente nessa quarentena. Um tal de palmas batendo num dia, panelas tilintando no outro, panelaços num dia, aplausos no outro, e isso se repetindo dia a dia, de modo que eu já não entendo o propósito de cada manifestação e fico apenas com o barulho a me atrapalhar a noite.

A primeira vez eu acompanhei. Era um discurso do presidente. O tilintar das panelas foi ruidoso e colérico, como se alguns dos vizinhos, desprezando por anos o som e o valor social das panelas, súbito despertassem para a alegria terapêutica que há em bater uma panela em protesto político. Mas logo se seguiu uma guerra na vizinhança. Panelas a favor, panelas contra, gritos de uma janela, respostas desaforadas de outra e um grande barulho aqui em casa.

Depois dessa guerra a paz foi celebrada com aplausos de solidariedade. Torcida única: palmas para os profissionais da saúde. Mas depois a coisa ficou confusa.

Panelaços à tarde, no meio da noite, no fim da noite. Palmas aqui e acolá. Gritos esparsos. Em suma, uma poluição auditiva. Os gritos se deram mais para o fim da noite. Achei que pediam impeachment. Fui para a varanda e aprumei os ouvidos – era Fora Manu. Ou seria Fica Babu? Não sei, mas esses gritos se repetiram quarentena afora.

Outro dia ouvimos palmas. Eu já estava confuso. O calendário já não tem tanta serventia. Esquecemos dos dias da semana, quanto mais do mês. Quanto mais lembrar do calendário das palmas e dos panelaços.

Minha esposa falou que era para os profissionais de saúde. Duvidei, esse tinha sido no mês passado e não ouvi que iriam repetir. Então esse era o de homenagem às mães, ela falou. Mas dia das mães é só em maio, será que não era o aniversário da Sofia? Esse foi semana passada, me lembrou ela.

É verdade. Semana passada fomos à varanda bater palmas e cantar parabéns para a Sofia, vizinha aqui de cima. Alguns vizinhos se uniram à festa, bem como algumas amigas que ficaram lá embaixo do bloco.

Enfim me lembrei da data: era 21 de abril. Claro, aquele era o aplauso do aniversário de Brasília. Como esquecer de bater palmas à nossa cidade, dona desse céu magnífico.

Aliás, dias atrás eu quis bater palmas para o pôr do sol. Estava esplendoroso. O outono/inverno vai deixando o céu com uma circunspecção tão agradável que naquele dia o sol parecia desmanchar-se em uma vermelhidão tão bonita que me levou às palmas. Como estamos vivendo entre palmas e panelas, tive a sorte de ter sido acompanhado por duas vizinhas, que saíram às janelas aplaudindo e aplaudindo, mesmo sem saber o quê.

Mas eu falava do silêncio. Sim, o silêncio que eu almejava como um adorno da quarentena e que foi perdido entre essas algazarras de janela. E como se não bastasse, hoje à noite ainda tem live, e live sertaneja, e o pessoal da vizinhança acha que tem de cantar alto, na janela, para compensar a solidão da sala.

Pensei em organizar um cronograma do barulho: primeiro palmas, depois panelas e em seguida as cantorias das lives. Mas onde encaixar os gritos? Melhor cada qual fazer, de sua janela, o som que lhe convier, na hora que achar mais conveniente.

Rodrigo Bedritichuk é brasiliense, servidor público, pai de duas meninas e autor do livro de crônicas Não Ditos Populares

 

Edson Crisóstomo

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